Cloe Fenix

O certo no incerto – Capítulo 3

Eu não posso acreditar que ele está realmente aqui, se estou a sonhar ou a ter um pesadelo. Depois de tantos anos sem telefonar, ou mandar uma mensagem, ele apenas voltou. Lindo como sempre, com os seus cabelos castanhos bem cortados e alinhados. Os seus olhos verdes demonstravam o caos da sua mente, enquanto observavam cada movimento nosso. A sua pele estava ainda mais morena e realçada pelo seu polo de manga curta, amarelo torrado. Contrastando com a suas calças de ganga e sapatos pretos, o que o deixava com uma mistura perfeita de homem casual, descontraído e sexy. Quando se levantou, pude por breves momentos ter um deslumbre, dos seus músculos firmes e definidos. Uma verdadeira perdição de homem, muito mais do que era a anos atrás.

Pela sua expressão, ele estava a tentar ligar os pontos, o que não demoraria muito tempo. Já que, qualquer um podia ver o quanto eram parecidos, na verdade ela era a sua versão feminina, não tivesse ele, já duas em casa para comparar. Mesmo que a personalidade da pequena Lia e os seus olhos amendoados, sejam as poucas características que ela herdou de mim. Tudo o resto, gritava pela herança genética do pai.

— Vou levar a Lia para dentro. – Avisou a minha sogra. Ela também parecia em conflito e talvez arrependida, de ter escondido um segredo tão grande do próprio filho. – Vocês precisam de conversar e a minha neta de comer, chegou a hora da verdade. – Suspirou pesadamente. – O teu desejo realizou-se, ele voltou e vais poder contar-lhe a novidade cara a cara. Mesmo que agora a “novidade”, pode contar tudo por si mesma, com a sua própria voz.

Sem dizer mais nada, entrou na casa e fechou a porta atrás de si, deixando-nos sozinhos. Um silêncio perturbador instalou-se, enquanto os seus olhos pareciam analisar, cada centímetro do meu corpo. Se fosse a uns anos atrás, eu não me importaria e até o provocaria, mas hoje não. Eu sei o motivo do seu regresso, o mesmo que eu temi ano após ano, até que me conformei e aceitei o fim da nossa relação.

— Parece que o dia chegou finalmente.

Contestei, quebrando o silêncio constrangedor, se este seria o nosso fim não valia a pena adiá-lo. Isso só deixaria as coisas piores para nós dois, ainda mais agora, que existe uma criança no meio.

— Como assim? – Perguntou atómico.

— Eu sabia que este dia ia chegar, só não sabia quando, nem como. É bom pôr finalmente, uma pedra sobre o passado e poder seguir em frente, sem olhar para trás.

— Tu não estás com ninguém? – Ele parecia nervoso, não sei se era pela culpa ou por orgulho, aquele estúpido orgulho masculino. – Não estiveste com ninguém, na minha ausência?

— Não. – A minha resposta fez com que ele engolisse em seco, enquanto a sua mão amassava o grande envelope branco. – Estava demasiado, ocupada para isso. Sabes muita coisa aconteceu nos últimos anos, coisas que mudaram a minha vida para sempre.

Disse caminhando lentamente pelo jardim, não queria olhar mais para ele. Vê-lo era como reviver o passado, um passado que lutava desesperadamente por esquecer. Talvez hoje fosse o dia que faltava, para poder apagar o meu passado e começar uma nova vida.

— Uma filha.

Sussurrou encarando o chão. Eu conhecia-o desde sempre e mesmo assim, não conseguia ler a expressão que estava a fazer. Era uma mistura tão grande de sentimentos, que duvidava que ele mesmo soubesse.

— Vamos assinar os papeis e terminar com isto de uma vez?

Perguntei, tentando manter a minha mente focada no principal. Eu não queria sentir, não queria chorar ou mesmo o odiar, não queria viver qualquer emoção. Só queria por fim a tudo e poder continuar feliz, ao lado da minha menina, da minha linda princesa.

— Porque não me contaste?

Perguntou, vendo-me a caminhar de encontro à pequena mesa do jardim. A mesma que eu gostava de passar horas a escrever, enquanto a minha pequena brincava na relva. Infelizmente ou felizmente, desta vez seria para por fim a um matrimónio. Para assinar, os malditos papeis.

— O quê? – Perguntei distraída.

— Que estavas grávida. Que agora és mãe. Que eu tenho uma filha.

O seu tom de voz era uma mistura de sarcasmo e dúvida, mas também algo mais, talvez medo ou raiva.

— Porque tu nunca voltaste, até hoje. – Disse com uma calma que não pensava ter. – Porque contaria, se nem um telefonema tu fazias mais.

— Eu teria voltado a correr, se tivesses contado. – Ele parecia arrependido. – Eu estaria aqui para ti, para a nossa filha, para…

— Chega.

Gritei impedindo que ele continuasse, não só com as suas palavras que me traziam emoções indesejadas, como com a sua aproximação. Eu estava cansada de tantas suposições, de promessas falsas e até mesmo de falsas esperanças.

— Lea eu… – Interrompi-o, antes que começasse com mais um circo de desculpas.

— Para ti é Leandra. – Repreendi-o. – Vamos assinar os papeis e terminar com isto. – Pedi esticando a minha mão, para que ele me entregasse o envelope.

— Porquê? – Insistiu.

— Porque, é isso que queres. Porque, foi para isso que voltaste.

Ele já me estava a irritar com tantas perguntas, como se ele já não soubesse o motivo, o quanto me feriu…

— Não é isso. – Suspirou. – Porque não me contaste?

— Porque tu tinhas de voltar por conta própria e não por pena, não por obrigação. Nós nunca seríamos felizes, não assim… a Lia nunca teria uma família unida, se o pai não voltasse de livre vontade.

— Desculpa. – Pediu cabisbaixo.

— Agora acabou, não podemos voltar atrás. Além disso, tu já decidiste o nosso futuro ele está bem aí, na tua mão. – Apontei para o envelope.

— Eu… eu… – Gaguejou, enquanto esmagava cada vez, mais o envelope entre as mãos. – Eu não queria magoar-vos, nada disto devia ter acontecido, eu…

— Tarde de mais. – Levantei devagar a minha mão, pedindo os papéis. – O envelope.

 

— Não… não é tarde ainda…

Num pequeno ataque de fúria, levantou o envelope ao nível dos olhos e rasgou-o aos pedacinhos, apanhando-me totalmente desprevenida. O seu gesto acelerou o meu coração, ao mesmo tempo que os meus olhos, observavam atentamente cada pedaço de papel que caía ao chão. Até que percebi, que aquilo não significava o reatar da nossa relação de marido e mulher, apenas era mais um atraso.

— Eu quero conhecer a minha filha, quero recuperar o tempo perdido, quero…

— Não tens esse direito. – Uma lágrima involuntária escorreu pelo meu rosto e uma onda de frustração e raiva correu todo o meu corpo. – Ela é minha, sempre foi… tu escolhes-te a tua vida, longe dela, longe de mim. – Fechei os olhos por um breve instante, tentando controlar o que sentia. – Ao lado de outra mulher, construindo outra família. Essa foi a tua escolha, a tua opinião e eu? Eu fiquei de lado, como se fosse lixo, eu não sou ninguém na tua vida.

— Não é bem assim, eu…

— Tu amavas-me… ainda me amas… era isso que ias dizer? – Ri-me, limpando mais uma lágrima. – Eu não acredito, numa única palavra que digas. Não quando as tuas atitudes, dizem o contrário.

— Desculpa eu…

Ele parecia cada vez pior, mais culpado e talvez arrependido, mas isso não ia mudar a minha opinião, já era tarde, demasiado tarde para voltar atrás. E acima de tudo, ele tinha me traído e agora vivia com outra. E eu, estava mais ferida do que nunca, o meu coração tinha sido partido em mil pedacinhos. Eu sabia que ele não ia deixar a nova mulher, porque ele já desistiu de nós. E mesmo que deixasse, não o posso deixar voltar por pena, para depois se arrepender e voltar para a outra. Não… eu não posso o aceitar de volta, de maneira nenhuma, mesmo que sinta que nunca existiu um adeus. Que a nossa história foi mal terminada, eu não posso ser fraca, eu tenho de lutar.

— Vamos assinar os papeis e depois tu voltas para casa, para a tua nova mulher. E eu fico aqui, com a minha filha… sozinhas e felizes. Ela nunca teve um pai, mas nunca lhe faltou amor, por isso, ela não precisa de um. Principalmente um, que tem a sua vida noutra cidade, com outra mulher e em breve os seus próprios filhos. Não vou permitir que te aproximes dela, para depois a abandonares… – Respirei fundo. – Não como me abandonaste, sem desculpas, sem justificação, sem nada.

— Eu não queria…

— Não me importa o que tu querias e sim o que fizeste. Eu era capaz de te seguir até ao fim dos tempos, eu podia escrever em qualquer lugar, a minha vida não ia parar por isso. E mesmo assim, não o fizeste. Aproveitas-te a minha ausência e divertiste-te, agora acabou. Quero-te longe desta casa, da minha filha, da minha família. – Deixei escapar um soluço enquanto chorava. – Quero o divórcio o mais rápido possível, manda os papeis para o meu advogado, que depois ele os devolve assinados. – Levantei-me pronta a sair dali.

— Leandra…

— Sai, por favor, vai e não voltes nunca mais, eu não te quero mais aqui. Por favor vai, não compliques mais as coisas, acabou…. acabou tudo há muito tempo, não existe mais esperança para nós. Eu te suplico, esquece que nós existimos e vai viver a tua vida, por favor.

Ele ainda tentou dizer alguma coisa, mas logo desistiu, ele não sabia o que dizer e muito menos parecia saber como agir. Foi a primeira vez, que eu o vi daquela forma, uma pequena criança perdida, sem rumo ou lar. Seja o que fosse, que ele tivesse a sentir, tudo era pouco para o que eu senti. Para a traição, a humilhação que ele me tinha feito passar e ainda por cima grávida. Mesmo que ele não soubesse, deste último ponto, ele ainda me manteve longe. E agora mais uma vez o vi partir, com o coração nas mãos e com a certeza que nunca mais o voltaria a ver. Ele acabou com tudo, tudo o que havia de bom na nossa relação, em mim…

O certo no incerto – Capítulo 3

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