Cloe Fenix

O certo no incerto – Capítulo 4

Foi chocante reencontrar o Carlos desta forma, mas foi ainda mais perturbante o ver partir, sem se quer lutar pela filha. Eu sei que sou a culpada, que fui eu que pedi para ele sair, mas… custava ele fazer isso por ela? Por mim… não, por mim não, mas por ela. Porque me casei, com ele mesmo? Uma pessoa apaixona-se, para quê? Para sofrer? Para sermos trocados, por outra pessoa? Queria que tudo tivesse sido diferente, que esta dor não tivesse enlaçada no meu coração. Que tudo acaba-se com um, felizes para sempre, mas a vida não é uma ficção. Eu não vivo em um conto de fadas, em um livro… a vida real não é assim.

Por isso tenho de ser forte, mas forte que alguma vez achei que podia ser. Eu posso não ter um final feliz, o meu sonho pode ter terminado, mas o da minha filha não. Ela ainda os vai construir, ainda vai lutar por eles, pela sua felicidade. Por ela, eu vou ser mais forte. Por ela, eu vou lutar até aos fins dos tempos. Por ela e só por ela, eu vou lutar pela sua felicidade. Vou ensina-lhe a ser uma pessoa melhor, a conquistar as suas vitórias, a partir para as guerras e a enfrentar cada dor de cabeça erguida. Ela é tudo o que eu preciso e eu serei tudo, o que ela precisa.

— Eu prometo, a mim mesma e a tudo o que existe de mais sagrado neste mundo. – Suspirei, tentando acalmar, as minhas emoções. – Que a partir de hoje não vou deixar que nada, mesmo nada interfira com a minha felicidade e a felicidade da minha filha. A Lídia vai ter a melhor infância, que eu vou lhe poder dar, a melhor educação… a melhor mãe, amiga, conselheira, companheira de brincadeiras, partidas, de tudo… tudo o que ela possa imaginar. Só não vai ter um pai, mas eu vou mover céus e terra, para que ela nunca sinta a falta de um.

Assim que me senti mais segura, sobre os meus sentimentos, peguei no telefone e liguei para a única pessoa, que me podia ajudar, mas sobretudo aconselhar. Eu sei que de certa forma, não é correto da minha parte ligar para ela. Já a coloquei numa confusão tão grande, por puro egoísmo, mas eu realmente precisava de um ombro amigo. Mais precisamente, do seu ombro amigo.

— Olá Sofia. – Cumprimentei-a mal, atendeu.

— Que voz é essa Lea? – Sempre perspicaz, até numa simples chamada. – O que se passa, é a Lia? A minha afilhada está bem? Ela…

— Tem calma, a Lia está ótima, está a lanchar com a tua mãe.

— Então o que se passa? Não me enganas Leandra, eu sei que se passa alguma coisa. – Já estava impaciente. – Desembucha de uma vez.

— É o Carlos.

Tentei controlar as minhas emoções, mas foi em vão. Mesmo depois de ter jurado para mim mesma, não consegui ficar indiferente. Não consegui aguentar a revolta, a dor, os ciúmes, a magoa… apenas com a voz da minha amiga, fui capaz de libertar todos os sentimentos contidos dentro de mim.

— Querida não chores. O imbecil do meu irmão, não merece as tuas lágrimas. Conta-me, o que aconteceu para ficares assim? A Lia perguntou novamente, pelo pai? – Tentou acalmar-me, mas a sua revolta, era notável no seu tom de voz. – Oh, não me digas que ele ligou? Não, que ele mandou os papéis do divórcio, sem mesmo dar uma justificação? Se foi assim eu….

— Ele voltou, para pedir o divórcio. – Interrompia, mas logo ouvi o seu resmungar. – Ele já sabe sobre a Lídia, viu-a a brincar no jardim com a Dona Maria. Se a tua mãe, já não apoiava a minha escolha, neste momento ela deve realmente me odiar, por a ter posto nesta situação.

— Esquece a Dona Maria, isso logo lhe passa. – Falou sem dar muita importância, como se estivesse a despachar o assunto. – O que aquele projeto de ser humano, disse? Ele fez-te assinar os papeis? Ele não se importou com a filha? Ele…

— Calma. – Pedi.

Não conheço ninguém na terra que me faria parar de chorar, para logo estar a sorrir. Mesmo que a dor ainda não tivesse passado e ainda, lhe tinha de contar tudo o que aconteceu.

— Ele perguntou-me o motivo, de eu não lhe ter contado nada. Disse que teria voltado, assim que soubesse, que tudo tinha sido diferente e… ele rasgou os papeis do divórcio.

— Ele o quê? – Gritou quase deixando-me surda.

— Ele rasgou os papeis. – Repeti com calma, eu nem imaginei que podia ficar calma, neste momento.

— Não acredito, ele virou Homem… – Falou mais para si mesma, do que para mim. – E depois? O que ele disse? – Curiosa como sempre.

— Disse que queria conhecer a filha e eu pedi, para ele ir embora. – Suspirei, enquanto limpava outra lágrima. – Eu pedi a separação, acabou tudo Sofia, não tem mais volta.

Mais uma vez explodi num choro descontrolado, fazendo com que todo o meu corpo tremesse, medo, raiva, deceção … tudo e mais alguma coisa, era motivo para me fazer desabar, eu tinha perdido o chão. Mas as coisas não podiam ficar assim, eu jurei, por isso tenho de me por de pé. Levantar a cabeça e seguir em frente, eu sou mais forte que isso. Eu posso superar este obstáculo. Eu posso ser melhor.

— Sinceramente eu não compreendo.

– O quê? – Perguntei confusa, assim que terminei de repetir o meu mantra.

— O que tu realmente queres, para a tua vida. – Soltou deixando-me desorientada.

— Como assim?

— Em um momento, estás a proibi-lo de conhecer a filha e de entrar na tua vida, mas no momento seguinte, está a chorar porque ele foi embora. Tens de te decidir amiga, tens de tomar uma decisão, queres-lho ou não na tua vida? Tic Tac querida, o tempo está a passar.

Dito isto desligou a chamada, deixando-me a pensar, eu estou a ser assim tão contraditória? Como se eu já tomei a minha decisão? Claro que eu não quero privar a minha filha, de ter um pai. Eu tenho um, por isso sei, o quanto a ligação de pai e filha pode ser especial, mas… ele fez a sua decisão e eu agora fiz a minha. É melhor assim, para mim, para ela, para todos.

Pensativa encostei-me confortavelmente na cadeira, enquanto sentia o sol da tarde aquecer o meu rosto, suavizado pela brisa fresca que corria. Era tão bom e relaxam-te que finalmente pude descontrair, como a muito tempo eu não o fazia. Ao mesmo tempo, que o rasto das minhas lágrimas, finalmente secava. Libertando-me, do peso da minha decisão. Agora ele sabia, se mesmo assim ele partiu, é porque não merece a Lídia. Quando me senti novamente em paz e com os pensamentos em ordem, entrei em casa e fui procurar a minha filhota. Tinha de liberar a sua avó, a pobre coitada certamente pensava, que eu ainda estava a conversar com o filho. A ter uma conversa civilizada, sobre aquilo que nos une. Como se isso fosse possível, depois de tudo o que ele me fez passar, depois de me ter abandonado. Eu nunca devia ter acreditado nele, eu não posso voltar a acreditar nele.

Depois de me certificar que a minha aparência, não revelava os meus sentimentos, fui a procura das duas. Quando cheguei no quarto da minha pequena, presenciei a cena que eu mais adorava ver. A minha filha relaxava aos pés da avó, que estava sentada na pequena poltrona florida no canto do quarto. A sua voz preenchia o quarto, enquanto lia um livro infantil para a neta, que escutava cada palavra fascinada e meio sonolenta. A Lídia sempre ficava sonolenta depois do lanche e ainda mais, quando lhe faziam festas na cabeça. Tudo misturado com a sua história favorita, era uma mistura explosiva, que terminava num ressonar calmo, que não tardou a acontecer.

Sempre achei que não existia maior amor no mundo, do que o amor de uma avó. E naquele momento eu sabia, que a minha sogra amava loucamente a minha filha, que uma não podia viver sem a outra. Podia parecer um dispara-te, mas aquilo deixava-me feliz. Afinal, nem tudo podia ser mau nesta vida.

Quando vi que a pequena já estava num sono profundo, aproximei-me devagar, dando a conhecer a minha presença. Sem existir qualquer troca de palavras, peguei na Lídia e a coloquei devagar sobre a cama. Cobrindo-a com a sua coberta preferida, em tons de rosa com ursinhos brancos bordados. Deixei o seu pequeno candeeiro, com a forma de uma borboleta, ligado e saí do quarto acompanhada pela Dona Maria. Que tinha acabado de fechar as grossas cortinas brancas, com pequenos detalhes em dourado, escurecendo o espaço.

— Obrigada por tomar conta dela. – Sorri para a mulher loira na minha frente, logo após fechar a porta do quarto.

— É sempre um prazer, cuidar da minha neta. Ela é uma menina adorável, meiga e carinhosa. Foi bem-educada…

— Obrigada. – Sorri com a sua aprovação.

— Mas… – Tinha de haver um, mas. Porque sempre têm de existir um? – Ela precisa de um pai, ela precisa de conhecer o seu pai. Tu tens um, sabes bem a presença e influência que o teu pai, têm na tua vida. Por favor, não tires esse direito à minha neta. Ela merece ter um, viver a cumplicidade entre pai e filha. Ser apaparicada, andar as cavalitas numa rua movimentada ou para assistir a algum espetáculo. Ser a menininha do papá, que a educa com pulso firme, ou a estraga com mimos. – Respirou fundo, com os olhos brilhantes pela emoção. – Ela merece o melhor… sei que o meu filho pode ter feito escolhas erradas, mesmo assim ele vai amar a filha. Muito mais, do que estás à espera.

Sem dizer mais uma palavras, dirigiu-se para a entrada da casa e saiu. Eu não sei o que se passava com as mulheres da família Andrade, que só sabem atirar a bomba, para cima da minha cabeça e depois fugir.

Aproveitando o sossego do final da tarde, voltei para o meu escritório. Precisava de escrever um pouco, esse era um ato que sempre me acalmava, como uma pequena secção terapia. Desde que me conheço como gente, que gosto de criar, primeiro eram as pequenas histórias que contava as minhas bonecas. Quando aprendi a escrever e tinha alguma confiança, comecei a criar pequenos contos, não eram nada de especial, mas foram um bom treino. já na adolescência, esse era o meu real hobby, em vez de correr na rua ou ir as aulas de dança, ou as de ginástica, tal como as outras meninas o faziam.

Eu não simplesmente sentava-me na sombra de uma árvore, com o caderno na mão e a caneta na outra. Durante esse tempo eu vi-a tudo e não via nada, tudo passava, tudo recomeçava e eu ficava simplesmente ali. Foi uma verdadeira surpresa, quando eu ganhei o meu primeiro concurso de escrita e fui convidada a publicar o meu primeiro livro. Tinha apenas 13 anos, era uma menina ingénua e sonhadora, que adorava escrever. Nem estava perto de imaginar, na proporção que aquele sonho teria na minha vida. Dos sucessos e das derrotas que obtive, em diversos momentos da minha vida. Tudo começou ali, com uma simples brincadeira de menina, um pequeno desafio de amiga e muito esforço. Ou melhor, muita sorte de ninguém ter uma história, melhor do que a minha.

Estava tão perdida no meu mundo, que quase não ouvi o toque da campainha. Isso era algo que me acontecia às vezes, o que fazia com que as constantes visitas da minha amiga e das duas avós mais babadas do mundo. Fossem mais frequentes, desde que eu engravidei e só pioraram quando a minha boneca nasceu. Não por mim, não era assim tão irresponsável com a minha filha, mas elas são babadas de mais.

Contrariada, levantei-me do meu confortável refúgio dourado e fui até a porta. As horas tinham passado sem que me apercebesse-se e agora o Sol estava mais brando, o que significava que tinha de me apressar para fazer o jantar. E acordar a Lídia da sua sesta, caso contrário passaria a noite em branco, suplicando por mais brincadeiras. Sem pensar, abri a porta de uma forma descontraída. Sem mesmo me perguntar, como a pessoa tinha aberto o portão, ou quem seria aquela hora do dia. Infelizmente, a resposta veio como uma rajada de água fria, mal reconheci a pessoa que estava do outro lado. Tudo para mim, tinha parado naquele instante. Se fosse uma personagem de um dos meus livros, eu diria que naquele momento eu era como um robô. Frio, em modo automático a espera de receber uma ordem, ou estímulo para me mover.

— O que fazes aqui, Carlos? – Perguntei, tentando parecer o mais calma e controlada possível. – E essas malas?

— Eu vim para ficar, estou aqui para conhecer a minha filha.

Respondeu, arrastando a sua mala na minha direção.

— Não foi isso, que eu te pedi mais cedo. – Porque ele estava a fazer aquilo? – Eu não te quero ao lado da Lídia, e muito menos te quero nesta casa.

Porque ele tinha de voltar?

 

— Leandra. – Chamou o meu nome calmamente. – Eu ainda sou o teu marido e tenho os meus direitos, sobre esta casa e sobre a minha filha. Peço desculpas, por ter ficado longe tantos anos, mas eu agora vou usufruir de cada direito que tenho. Não me podes expulsar desta casa, pelo menos, até assinar os papeis da separação. O que se depender de mim, ainda vai demorar a acontecer.

Porque estás a dizer essas coisas?

— Tu não podes. – Falei tentando engolir o sapo, entravado na minha garganta. – Não é certo…

Agora que eu estava em paz, que a roda da vida voltaria a girar. Porquê? Porque tens de tornar tudo mais difícil?

— O que não é certo, é mantes-me afastado da minha filha. Eu tenho os meus direitos e vou aproveita-los, eu vou ficar. – Disse abrindo passagem, com o seu grande corpo. – Onde ela está? Quero conhecer, a minha princesa.

Perguntou no mesmo instante, que um pequeno ser entrou na sala, esfregando os olhinhos ainda com sono. Ela fica tão adorável daquela forma, com as bochechas rosadas e o cabelo bagunçado.

— Estou com fome mamã. – Disse distraída, até que se apercebeu da presença do pai e o olhou curiosa. – É o homem do jardim, o que ele faz aqui mamã?

Tal como a madrinha, a Lídia era uma menina inteligente e curiosa, sempre a fazer perguntas. Ainda assim adorável, simplesmente assim, balançado o seu ursinho branco nos seus pequenos braços. Por mais que pedisse para ela não o sujar, devia adivinhar que ela estava com ele, mesmo sem o ter visto. Ela adora aquele urso, têm-no desde bebé, foi a sua primeira prenda que recebeu quando nasceu. Claro que foi a Sofia que o escolheu, ela adora esse tipo de coisas, ela sempre teve jeito para crianças e é uma mãe maravilhosa.

— Olá boneca, eu sou o Carlos, o teu papá.

E pronto, a bomba já tinha explodido, fazendo a maior confusão na cabecinha de uma menina com apenas 3 anos de vida.

O certo no incerto – Capítulo 4

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