Abismo – Capítulo 1

Um forte cheiro a etanol estava a mexer com os meus sentidos, provocando-me náuseas e uma forte dor de cabeça. Um apito ritmado, zumbia bem perto do meu ouvido, aumentando ainda mais a minha dor e confusão. Senti a minha garganta seca, junto com um ligeiro incomodo, tentei humedecer os meus lábios, mas algo me impedia de fechar a boca. Devagar abri os meus olhos e encarei o teto branco, olhei à volta e vi uma série de máquinas, algumas estavam ligadas ao meu corpo através de fios e tubos. Senti o pânico a se instalar e as lágrimas quentes a arder nos meus olhos secos, um soluço fraco ficou preso na minha garganta e a máquina irritante começou a apitar de forma mais insistente. Apesar das lágrimas que nublavam a minha visão, fui capaz de ver a porta abrir-se e uma mulher de entrar no espaço. Quando me viu a observa-la estacou no mesmo lugar, por um momento e depois saiu a correr pelo corredor, misturando-se com a paisagem. Aquilo incomodou-me, o que fez a máquina apitar ainda mais rápido e o meu rosto ficar ainda mais molhado. Tentei mexer-me, mas parecia que as minhas forças, tinham abandonado o meu corpo e eu não era mais do que uma casca vazia. Senti algo mexer-se dentro de mim e assustei-me ainda mais, estava a ponto de entrar em histeria quando a sala foi invadida por diversos homens e mulheres de bata branca. Enquanto, outros vestiam batas verde água iguais a da mulher que entrou, em primeiro lugar. Logo alguns deles se dirigiram aos equipamentos, enquanto ou outros voltavam a atenção para mim. Senti um grande alívio, quando o tubo da minha garganta foi finalmente retirado e eu pude beber um pouco de água, enquanto a enfermeira falava comigo. Aquilo acalmou-me, mas mesmo assim eu ainda me sentia confusa e assustada.

— Onde está a minha amiga? – Perguntei com a voz fraca, ao homem de cabelos grisalhos e bata branca ao meu lado. Eu ainda me sentia em pânico e o seu rosto familiar ia acalmar-me, eu precisava dela ali. – Onde está a Carina, eu quero vê-la.

— Desculpe. – Pediu, olhando para os colegas, parecia estar à procura de uma resposta e eu temi o pior.

— Sabe o contacto dela? – Perguntou uma jovem mulher ao seu lado, parecia estar a apontar algo num bloco de notas.

— Porque ela não está aqui? Não foi ela que me trouxe? – Perguntei observando o rosto de todos que me encaravam supressos, felizmente agora em menor número. Eu não sabia o que estava a acontecer, nem sabia se queria descobrir o motivo. – Eu estava com ela ontem, ou terá sido hoje? Demos uma pequena festa no nosso novo apartamento, para comemorar o compra da nossa primeira casa e o nosso aniversário na empresa.

— Lamento, mas a menina não deu entrada no hospital ontem. – Disse outro médico chamando a minha atenção para ele. – Já faz cinco meses, que entrou aqui em coma.

— Coma? – Engoli em seco com a notícia. – Eu estive em coma, por cinco meses?

— Sim. – Respondeu com calma. – Foi encontrada na beira de uma estrada remota, com um traumatismo craniano. Felizmente tudo correu bem, mas não tínhamos a certeza que iria acordar.

Aquilo era demasiada informação para mim, nada fazia sentido, como uma simples festa podia terminar em um verdadeiro pesadelo. Eu lembrava-me de cada detalhe da noite, eu não bebia álcool, então como sempre fiquei me pelos sumos. Quando ficou tarde e alguns decidiram continuar a festa pela noite dentro, em algum bar ou discoteca das redondezas, eu fui para a cama e dormi. Por isso, não fazia a mínima ideia do que tinha acontecido e isso era assustador. Mais uma vez, senti algo se mexer no meu ventre, era uma sensação estranha e desconfortável, chegava até a doer. Com a pouco força que tinha levei a mão até a minha barriga, que parecia maior que o normal. Eu não era nenhuma modelo, nunca fui propriamente marga, mas também não me considerava gorda. Estava apenas um pouco acima do meu peso, só que isso era normal para mim, felizmente o meu corpo era bem equilibrado o que disfarçava os quilos a mais. Sentindo a minha barriga ainda mais estranha, como se contorcesse toda, levantei a minha cabeça e tomei um susto com o que vi. A minha barriga não só estava bem maior do que me lembrava, como também parecia um pudim de gelatina conforme se mexia.

— O que está a acontecer? – Perguntei em pânico imaginando que tipo de nome estranho, podia ter aquela doença. E mais que isso, se ela podia custar-me a vida. Eu já estava sozinha no mundo, a minha única família era a minha amiga Carina e ela não estava ali.

— A menina não sabe? – Perguntou o primeiro médico de cabelos grisalhos.

— Parem de me chamar de menina, eu tenho nome.

Disse irritada, odiava que me chamassem assim, não tive uma infância fácil com a doença da minha mãe. Ser filha de mãe solteira pode ser um verdadeiro desafio, principalmente quando não se tem mais família para ajudar. Depois que a minha mãe adoeceu, o pesadelo ficou ainda maior e eu quase fui para o orfanato por duas vezes. Felizmente uma vizinha cuidou de mim, na esperança que a minha mãe melhorasse logo, o que não aconteceu. A hospitalização da minha mãe era constante e a pilha de medicamentos que ela tomava, estava a dar cabo das nossas finanças. Sempre que eu dizia que queria ajudar, as pessoas à minha volta riam-se, diziam que eu era uma menina muito querida e atenciosa, apesar de ser apenas uma criança. Mesmo assim eu insisti e finalmente aos 16 anos, recebi autorização para o fazer. Foi nessa mesma época em mais uma, das inúmeras seções de dialise, que eu conheci a Carina e nunca mais nos separamos. Quando a minha mãe faleceu e não ter esperar pelos meus 18 anos num orfanato qualquer, eu fui acolhida na família dela. Com muito esforço, eu terminei os meus estudos e tirei um curso que me valeu um emprego na empresa Melro & Silva. Finalmente tinha um emprego a sério, estava a aprender muito e sentia-me feliz pela primeira vez em muito tempo. Eu e a Carina juntamo-nos e compramos um pequeno apartamento, não muito longe da empresa. Era a nossa primeira casa e juntas já trabalhávamos há um ano na empresa e parecia que teríamos muitos mais, pela frente.

— Helena, o meu nome é Helena Meira. – As lágrimas tomaram novamente o meu rosto, eu não sabia porque estava tão emotiva e assustada. – O que se está a passar, o que está a acontecer à minha barriga?

— A meni… a Helena não sabe? – Corrigiu-se automaticamente, olhando-me com curiosidade. – Não sabia sobre a gravidez?

— Gravidez? – Senti o quarto a girar, pousei a cabeça na almoçada e fechei os olhos esperando que a tontura passasse. No entanto, a pergunta martelava-me na cabeça, eu grávida? – Eu fui violada?

Tentei segurar o soluço que se formava na minha garganta, já que não conseguia controlar as lágrimas. Aquilo estava a ser de mais para mim e podia ver a preocupação, misturada com a surpresa, estampada em todos que me observavam.

— Nunca vimos nenhum sinal, que nos levasse a querer que houve uma violação. – Disse calmo, no entanto a sua calma não foi capaz de me atingir.

— Então como eu posso estar grávida? – Perguntei desesperada. – Eu ainda sou virgem, não posso estar grávida… eu não posso…

Uma série de soluços explodiram na minha garganta, provocando convoluções por todo o meu corpo assustando os médicos. Sem que eu me apercebesse, eles colocaram alguma coisa no meu soro, que fez o meu corpo relaxar e os meus olhos se fecharem, num sono agradável onde tudo parecia uma mentira, onde tudo estava bem.

Algum tempo depois acordei com algumas vozes perto de mim, uma das vozes era-me levemente familiar e logo reconheci, como sendo a voz do médico de cabelos grisalhos. No entanto, a voz do outro homem era-me totalmente desconhecida, o seu timbre era forte e seguro. Como ainda me sentia sonolenta e não queria ter de enfrentar novamente a realidade que me esperava, continuei de olhos fechados a ouviu o som agradavelmente baixo dos dois.

— Quando é que ela vai acordar? – Perguntou o desconhecido.

— Dentro de alguns minutos, o efeito do medicamento deve estar a passar.

— É um milagre, nunca pensei que isso fosse acontecer.

— Ninguém acreditava. – Falou o médico. – Foi um verdadeiro choque vê-la acordada, esperávamos que ela durasse o suficiente, para levar a gravidez até ao fim. Acredite nós tínhamos perdido totalmente a esperança na sua recuperação, mas ela provou-nos o contrário acordando sem sinal de sequelas.

— Isso é muito bom, espero ver algumas questões resolvidas hoje. – Falou o homem, num tom que demostrava todo o seu cansaço. – Esta história tem-me assombrado por meses, nem sabe o alívio que senti quando soube que ela acordou.

— Eu senti o mesmo… é difícil não criar empatia, por um caso assim. A minha profissão obriga-me a distanciar-me emocionalmente, dos casos que enfrento no meu dia-a-dia, mas o dela foi especial.

— Também penso assim. – Ficaram em silêncio por momentos. – Ela disse alguma coisa quando acordou, algo que ajude a perceber o que aconteceu?

— Não, nada de relevante. Apenas perguntou sobre a amiga e falou numa festa que fizeram em casa. A enfermeira apontou algumas informações e estamos a tentar falar com a mulher. Apesar do que mais me surpreendeu é que ela não sabia da gravidez, disse que era virgem e perguntou se havia sido violada.

— Violada? – Perguntou o homem supresso.

— Sim, foi isso mesmo o que ela falou, depois entrou em pânico e tivemos que a sedar. O estado dela é delicado e temo que terá perdido uma parte da memória com o acidente, só ainda não sei a gravidade do caso.

— Que loucura. – Exclamou supresso e mais um silêncio se fez no quarto. – Nunca pensei que este caso fosse ser tão interessante, no entanto, não acredito que alguma vez chegaremos à verdade se ela não se recordar. Talvez o caso seja arquivado daqui a uns dias, não vejo esperanças em encontrar a verdade.

Logo o sono me tomou novamente, não sei se pela gravidez ou pela medicação, mas não ouvi nem mais uma palavra dos dois. Quando finalmente resolvi abrir os olhos, o meu estômago resmungava de fome. Não comia nada sólido há meses e a sonda tinha sido tirada quando acordei, por isso agora devia comer uma refeição como deve ser. Vendo-me sozinha no quarto e sem comida à vista, toquei na campainha e esperei. Logo apareceu uma enfermeira que ficou feliz, ao me ver acordada e com fome, ela acabou saindo do quarto prometendo-me uma boa refeição e eu fiquei feliz. Não tardou muito a voltar, com uma bandeja carregada e eu com fome que tinha comi tudo, sem mesmo me queixar do seu sabor. Mais tarde, o médico voltou e desta vez veio acompanhado de outro homem, que eu descobri que se tratava do detetive responsável pelo meu caso. Respondi as perguntas da melhor forma que sabia, mas não consegui obter mais nenhuma resposta sobre o meu caso. O médico apenas explicou-me que teria que fazer alguma reabilitação, pois tinha ficado muito tempo na cama, mas que tudo estava bem. Apesar do meu problema, o meu bebé era saudável e forte e eu já tinha passado dos seis meses. Aquela nova informação, mais uma vez abalou as minhas estruturas, pois ficou claro que eu não engravidei na noite do acidente. Mesmo assim eu não sabia, como aquilo tinha acontecido, ainda acreditava que era virgem, coisa que pelo meu estado era totalmente impossível. A menos claro que eu fosse a Virgem Maria e tivesse engravidado por obra do espírito Santo.

Acordei com a movimentação no corredor e percebi que o sol já tinha nascido, pela pouca luz que entrava pela janela. Logo uma mulher magra de uniforme azul marinho, entrou no quarto trazendo o meu pequeno almoço e o meu estômago agradeceu o gesto. A manhã passou rápido entre exames físicos, psicológicos e alguma fisioterapia. Pela hora do almoço, eu já estava esgotada e depois de mais uma refeição eu adormeci. Acordei sentindo me ainda um pouco esgotada, ainda não estava habituada à minha nova condição, muito menos há ideia que seria mãe em breve. Um barulho estranho vindo do corredor, captou a minha atenção deixando-me curiosa, mas eu não tinha condições de me levantar sozinha para matar a charada, então esperei. Logo a porta se abriu, trazendo consigo um cheiro familiar e o meu coração deu um salto. No entanto, eu congelei com a visão da mulher loira na minha frente, os seus olhos verdes me fitavam com curiosidade e um pingo de irritação. Tive de piscar várias vezes, para entender o que via na minha frente, mas o meu cérebro parecia ter bloqueado. Eu via uma versão mais velha e madura da minha melhor amiga. Os seus cabelos loiros estavam presos numa trança lateral, o seu rosto era fino e a sua pele era branca como a neve. As suas calças de ganga e os seus sapatos abertos de salto faziam as suas pernas parecer magras e compridas, enquanto a sua blusa justa, realçava de leve as suas curvas.

— Carina? – A minha voz saiu incerta, eu ainda duvidava do que via e não percebia, como tantos anos podiam se ter passado em apenas cinco meses.

— Nunca mais me assustes assim. – Falou calmamente, aproximando-se devagar da minha cama. – Como foste capaz de desaparecer assim, por tanto tempo… tu não sabes o quanto me deixaste preocupada. Eu não sabia… eu não sabia, como estavas… se ainda estavas viva…

Uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto e os seus olhos fixaram-se na minha barriga. A sua expressão era de surpresa, mas ainda assim ela parecia saber bem mais do que eu, sobre o meu novo estado.

— Desculpa. – Pedi abaixando o meu olhar. – Eu não sei o que aconteceu, eu não me lembro de nada.

— O médico informou-me que estás com amnésia.

— Então é isso. – Respondi desanimada, mas ao mesmo tempo feliz por finalmente ter um nome para dar ao meu problema.

— Pareces bem, estou feliz… mas nunca mais voltes a fazer algo assim, eu fiquei realmente preocupada, imaginando mil e uma situações. – Voltou a falar irritada, elevando um pouco a voz, por momentos era como se ela fosse a minha mãe e eu uma criança que tinha acabado de fazer asneiras.

— Desculpa… – Repeti novamente, observando-a com calma, tentando buscar o mais pequeno resto de memória… – Pareces mais velha, mais madura, não sei explicar bem.

— Os anos passam amiga e os últimos meses… com o teu desaparecimento, o casamento e tudo não foi nada fácil, confesso. – Suspirou cansada, no entanto eu conseguia perceber no seu suspiro um certo traço de alívio.

— Casamento?

— Sim, não te esqueças que ainda sou uma recém-casada, a minha vida mudou.

— Recém-casada? – Engoli em seco, temendo pelas próximas palavras a serem ditas.

— Sim… – Tu não te lembras? – Acenei que não e ela pareceu congelar no lugar, foi a sua vez de engolir em seco. – Qual é a última coisa que te lembras?

— Da noite da nossa festa. – Disse segura.

— Que festa? – Perguntou arregalando os olhos, como se eu tivesse acabado de dizer algo surreal. Aquela foi a primeira festa que tínhamos dado juntas, por isso não devia ser difícil descobrir qual seria.

— A que demos no nosso apartamento, para festejar a nossa primeira casa e o nosso aniversário na empresa claro. Qual mais seria?

Via congelar e por momentos ela fechou os olhos, procurando algo que não era palpável. Eu não sabia o que estava prestes para vir, mas estava realmente assustada, com o que viria. Tudo naquele momento parecia-me irreal, mas aquilo estava a tronar-se normal desde que acordei, no dia anterior. Existe alguma coisa mais assustadora do que ver o seu pesadelo, se transformar em algo banal, no seu dia-a-dia.

— É pior do que eu podia imaginar. – Suspirou de forma pesada, como se tentasse livrar, de todo o peso que estava sobre os seus ombros.

— O que se passa Carina, explica-me por favor… eu não estou a entender nada, nada faz sentido, nada se encaixa…

— Eu não sei o que aconteceu, nem como chegaste aqui, que eu saiba nunca tinhas estado nesta cidade antes, nem mesmo com ele.

Ele? Quem é ele? A minha mente perguntou, mas a minha boca nem se mexeu, finalmente eu ia ter alguma resposta, mas infelizmente agora tinha muito mais perguntas, uma delas era onde eu estava afinal.

— E a festa que tu falas… – Continuou calmamente, enquanto fitava o chão, parecia estar à procura das palavras certas. – Essa festa aconteceu há uns seis anos, mais ou menos.

— Seis anos? – Quase gritei com a novidade, essa novidade era ainda mais surpreendente do que o coma e quase tanto, como a da minha gravidez.

Continua…

 

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