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Abismo – Capítulo 10

Se eu achava que me ia safar facilmente do retorno da minha ex., não podia estar mais enganado, não quando a minha mãe e avó entraram em cena. As duas sempre gostaram bastante da Helena e me incentivavam, a pedir-lhe em casamento, coisa que eu quase fiz. Nem quero imaginar os estragos, se isso tivesse acontecido. O que mais me surpreendeu, foi a história rebuscada que a Carina contou. Era difícil não achar, que elas andavam a ver novelas mexicanas em excesso, se bem que a Helena nunca demostrou grande gosto por dramas. Ela dizia, que a vida dela já era um drama mais que suficiente, para se perder ao algo ficcional. Não digo o contrário, mas que esta história toda de coma e perda de memória, cheira muito mal, pior que um saco de ginástica usado. Preciso de arranjar um detetive, para tirar toda esta história a limpo, se existir algum tipo de mentira pelo meio, eu vou descobrir. Se ela pensa que o seu “infortúnio”, me vai amolecer, está muito enganada. Disse bebendo mais um copo de uísque, não sei em quantos já ia, pois apenas podia confirmar, que precisaria de uma nova em breve.

— Ouve-me bem Paulo. – Disse a minha mãe, ao aproximar-se de mim, mal a Helena foi levada. – Eu só vou dar uma ordem e quero que a mesma seja comprida, caso contrário a empresa passa hoje mesmo para as mãos do teu irmão.

— O que quer, mãe? – Rosnei, ela sabe onde mais dói, sem nem mesmo conhecer a história.

— Hoje mesmo mudas-te para o teu antigo quarto, onde vais ficar com a tua “NOIVA”. Eu e a tua avó vamos cuidar de tudo, para que se casem, logo depois que o meu neto nascer. Até lá, tu vais cuidar da TUA mulher, comprar as alianças e cuidar da vossa nova casa.  Não quero que o meu neto cresça em um apartamento, a menos claro, que queiras viver comigo depois do casamento. Caso contrário, é bom que compres o vosso próprio lar e vendas aquele buraco que chamas de lar.

— Isso parece-me, bem mais que uma ordem? – Resmunguei, ainda mais irritado.

— Não, é apenas uma ordem.  – Respondeu calma. – O resto são instruções, para que a possas cumprir.

Dito isto saiu da minha sala, deixando a minha avó para trás. Calmamente a patriarca da minha família, aproximou-se de mim, tocou carinhosamente o meu rosto e sorriu.

— Meu querido neto, não sei que problemas tiveste no passado com aquela jovem, mas eu vejo nos teus olhos que a amas. Por mais que tentes lutar contra esse sentimento, vais ver que é uma batalha perdida. – Sorriu ainda mais, enquanto limpava uma lágrima, que caia pelo meu rosto. – Aproveita esta segunda chance que a vida te dá e sê feliz meu neto, cuida do amor da tua vida e do fruto que está a crescer dentro dela. Não queiras acordar um dia e ver que é tarde de mais, ela já enganou a morte uma vez, não esperes por uma segunda ou terceira, para perceberes o teu erro.

E tal como a minha mãe, ela saiu deixando-me sozinho no breu da minha sala, com uma garrafa de uísque quase vazia. Vacilante, caminhei até a minha secretária e liguei para a Rute, que atendeu no segundo toque.

— Sim, Senhor? – Falou com a voz doce e serena.

— Rute traz-me outra garrafa de uísque e é melhor trazeres algo mais forte também, se não encontrares nada, manda comprar na loja mais próxima.

— De acordo senhor Paulo, para quando?

— Para ontem Rute, para ontem.

Sem dizer mais nada desliguei, esta seria uma longa noite e a manhã, seria ainda mais longa. O que era de se esperar, com uma bruta ressaca, que estava para chegar. Espero que a Rute chegue logo, para poder trancar-me sozinho, com o meu melhor amigo. Decididamente, não estou a fiz de ver mais ninguém hoje, nem tenho paciência para isso.  Meia hora depois, finalmente ouvi a minha secretária bater na porta, trazendo consigo algumas garrafas.

— Precisa de mais alguma coisa Senhor? – Perguntou, mal acabou de acomodar as garrafas nos seus devidos lugares.

— Não Rute, poder ir para casa. – Respondi sem a olhar.

— O Senhor tem a certeza? Eu podia ser uma boa companhia e…

— Eu disse que podes ir embora, Rute. Não preciso de uma ama seca, para cuidar de mim, o que me faz falta agora, eu já tenho.

Sei que posso estar a ser rude, mas realmente eu preciso de ficar sozinho, para digerir tudo o que acabou de acontecer nesta sala. Apenas com a companhia do meu único amigo de luta, o álcool.

Como é obvio no dia seguinte acordei, todo torto no meu pequeno sofá, que não parecia tão pequeno com a Helena deitada nele e uma ressaca tão grande, que até o som de uma mosca podia me incomodar. Levantei-me devagar, dirigindo-me depois ao meu bar, onde guardava algumas garrafas de água e comprimidos para a ressaca, parece um lugar estranho para guardar comprimidos, eu sei. No entanto, com o passar do tempo percebi o quanto isso, podia ser eficaz. Tanto para me fazer não beber muito, como para curar o último excesso. É aquela mulher ainda me vai fazer morrer de cirrose, mesmo que não me ache um alcoólatra, sei que se não tiver cuidado, serei um em poucos anos. Assim que a Rute chegou, pedir-lhe um café bem forte e a minha agenda do dia, infelizmente mesmo desejoso por me deixar na minha cama fofa, não podia deixar os meus compromissos de lado. Então simplesmente adiei os mais exaustivos, que precisavam da minha total concentração e despachei os mais simples, para não atrasar. Assim que finalmente pude dar o dia por terminado, sai do escritório e libertei a Rute das suas funções. Infelizmente, logo percebi que a minha noite não seria tão serena como desejava, já que de hoje em diante o meu lugar seria ao lado da mulher, que me quebrou em mil pedaços. Sinceramente, não sei quanto tempo fiquei sentado naquele carro, tentando ganhar coragem para ir para casa. Quanto tempo se passou, tentando imaginar como seria os meus dias, daqui em diante. Apesar que mesmo com a dolorosa verdade, ainda havia algo que me fazia pensar… talvez, não foce tão mau assim.

— Porque tenho de ser tão fraco? Nem pareço um homem agindo assim, que raio de maricas eu sai, cobarde e sentimental. – Soquei o volante com força, antes de encostar a minha cabeça no mesmo e suspirar. – O que fizeste comigo Helena, porque tiveste de destruir tudo.

Depois de alguns minutos assim, decidi ligar o carro de enfrentar o desafio que me aguardava. Afinal não resolveria nada, ficando a lamentar-me naquele parque de estacionamento vazio. Não sei quando cheguei a casa, estava de tal maneira em modo automático, que nem vi o percurso que fiz até a casa da minha infância. Pode parecer exagero, mas sempre gostei do conforto e liberdade que uma casa grande pode nos dar, principalmente quando somos jovens e esta casa deu-me tudo durante esse tempo. Espaço para correr e brincar com os meus amigos e família, as melhores festas de aniversário, os melhores esconderijos, privacidade quando queria namorar alguma menina. Claro que a Helena foi a única mulher que ficou mais tempo nesta casa, a única que realmente apresentei à minha família como sendo minha e de mais ninguém. Era estranho pensar que depois de tanto tempo, estávamos novamente aqui, no mesmo quarto, mas em circunstâncias completamente diferentes.

Sai do carro quando percebi o estranho movimento, que havia pela casa, todos pareciam aflitos e a procura de algo. Assim que a nossa governanta me viu, correu para a minha beira aliviada por me ver.

— O que se passa Maria? Qual é o motivo de tanta confusão?

— A menina Helena desapareceu, ninguém a encontra em lado nenhum da casa.

A Lena desapareceu? Será que ela nos roubou outra vez, ou apenas desistiu de me tentar dar o golpe?

— Ela pode ter saído para apanhar ar, não ligue ela volta.

Respondi calmo, tentando ignorar os sentimentos que explodiam dentro de mim. Como eu odeio o poder, que ela exerce sobre o meu coração.

— E se ela não voltar menino? E se aconteceu, alguma coisa com ela? – Perguntou aflita.

— Ela vai voltar, a menos que as coisas dela tenham desaparecido?

Se desapareceram, duvido que seja a única coisa que não esteja mais no seu devido lugar. O que mais ela terá levado, para além da minha razão.

— Não. – Ficou pensativa por momentos. – Não vi nada fora do lugar, tudo estava como da última vez que entrei no quarto, para deixar uma refeição para a menina. Mas… e se lhe aconteceu realmente alguma coisa? A menina Helena está grávida e ainda não se lembra de nada, se ela se perdeu?

Porque raio ela teve de voltar? Para tirar a sanidade, a todas as pessoas nesta casa? Para nos roubar a nossa paz e nos destruir depois?

— Tenha calma Maria, tudo vai correr bem e em breve ela vai aparecer. Prepare alguma coisa para ela na cozinha, que quando tiver fome ela aparece. Agora vou subir para o meu quarto, preciso de tomar um banho e trocar de roupa.

— E se não aparecer menino? – Insistiu irritando-me.

— Então eu como a tua comida deliciosa, no lugar dela.

Sem dizer mais nada, subi para o meu quarto e entrei no lugar silencioso e cheio de recordações. Realmente podia ver várias coisas dela espalhadas pelo lugar, o que não deixava de ser nostálgico, mas ao mesmo tempo irritante. Principalmente porque me lembrava o dia que ela partiu, para sei la onde, depois da nossa discussão. Falando nisso, preciso mesmo de contratar um investigador, preciso de descobrir a verdade o mais rápido possível. Enquanto caminhava para o quarto de banho, percebi algo estranho vindo da varanda, quando a abri, encontrei o motivo de tanta preocupação.

— Como esta mulher, pode dormir num local destes?

Perguntei-me agachando-me ao seu lado, enquanto observava o seu rosto sereno, levemente corado pelo sol já fraco. Não deixei de observar o resto do seu corpo, depositando por fim os meus olhos na sua barriga redonda, que não resistir a tocar. Assustei-me quando a mesma se mexeu, desferindo-me um golpe certeiro na mão. Não sei se o meu garoto se assustou, ou simplesmente estava irritado comigo, por ser a primeira vez que lhe dava atenção.

— O meu filho… – Ouvi-me dizer pela primeira vez em voz alta, sentindo o meu rosto se molhar. – Eu sonhei tantas vezes contigo aí dentro e agora não sei, se és realmente meu, ou de um canalha qualquer.

Por momentos, fechei os meus olhos tentando conter os meus pensamentos e o que acontecia dentro do meu peito. Foi quando senti algo ao lado do meu corpo, quando observei atentamente, vi que era um pequeno caderno de capa dura e peguei no mesmo. Conforme o ia vasculhando, percebi que era um pequeno diário cheio de apontamentos, sobre pequenas lembranças, dúvidas e acontecimentos do dia a dia. Quanto lia aquilo, não deixava de pensar e se tudo foi um engano, se ela realmente perdeu a memória? Ao mesmo tempo que pensava, que ele podia ser mais uma parte do seu esquema maquiavélico.

— O que te aconteceu? Porque tiveste de destruir tudo, não eramos felizes que chegue? Eu não te dava o suficiente? – Perguntei como se ela me fosse responder, a todas as perguntas que me assombravam. – Eu te amava, como nunca amei ninguém nesta vida e não sei se um dia, voltarei a amar alguém da mesma forma. Tu eras tudo para mim, o meu ar, os meus sonhos, os meus pensamentos, a minha vida. Agora, quem sou eu sem ti?

Suspirei cansado e olhei para o seu tingido de várias cores. Quase me sentei ao lado dela, para ficar a observar uma paisagem tão serena e calmante, mas ela não podia continuar ali.

— Vamos levantar dorminhoca, tu precisas de dormir numa cama de verdade, ou vais acordar toda dorida.

Sem esperar uma reação, levantei-a com cuidado do chão e caminhei, com ela nos meus braços até a cama, onde a depositei com cuidado. Cobria-a, mas antes não conseguir deixar de tocar na sua barriga mais uma vez, imaginando como seria se aquele filho fosse meu. Assim que garanti que estava bem aconchegada, voltei para a varanda e pegue no caderno, esfolheando-o mais uma vez. Até que encontrei vários nomes de menino, um mais estranho do que o outro.

— Realmente não te lembras de nada, ou realmente o filho não é meu? – Senti as lágrimas arderem nos meus olhos, mas logo tratei de as limpar. – Martin, esse devia ser o único nome deste caderno, o nome do nosso menino. Martin.

Pousei a caneta e o caderno ao seu lado na mesinha, saindo de seguida do quarto para avisar a Maria que a tinha encontrado. Não queria a casa em tanto alvoroço por nada, principalmente porque ela nem tinha saído do quarto. Assim que vi o alívio estampado no rosto da mulher voltei para o quarto, precisava mais do que nunca de um bom banho, para me limpar de todos os problemas e finalmente relaxar.

O problema é que a minha sorte é tanta, que não foi isso que aconteceu. Ver a mulher que me conquistou acordada, aproveitando o conforto que lhe podia dar, deixou-me irritado. Apesar de não saber, se estava mais irritado com ela, ou se comigo mesmo. Mais uma vez, deixei transparecer a minha irritação e toda a nostalgia que sentia, não me deixar passar sem a provocar. Era como se o passado estivesse de volta, como se as boas recordações que sentia, me envolvessem e o desejo cresce-se novamente em mim. Ver que ela também se sentiu nostálgica, que possivelmente também se recordou do passado, agitou o meu coração. No entanto, a dúvida era cada vez maior, estaria ela a mentir?

— Estou? Gostaria de contratar o vosso melhor detetive. – Disse observando a Helena, a dormir novamente.

— Quando gostaria de agendar a entrevista, para analisarmos o caso? – Perguntou a voz do outro lado.

— Para hoje mesmo de preferência. – Um breve silêncio se instalou na linha, antes de ser substituído pelo som ágil de dedos a pressionar as teclas de algum teclado, provavelmente de um computador. – O nosso detetive estará livre hoje as 20 horas, se estiver de acordo, enviarem uma mensagem com o local de encontro para o número indicado.

— Por favor.

Assim que respondi a algumas perguntas, a chamada foi encerrada e eu sai do quarto. Deixando o meu passado mais uma vez para trás, enquanto pegava o carro em busca de respostas.

 

Continua…

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