Abismo – Capítulo 11

Conhecer a Helena foi das melhores coisas, que aconteceram ultimamente na minha vida. Quando o Paulo me falou sobre ela, eu fiquei apreensivo, imaginava-a uma mulher fria, calculista e ambiciosa. No entanto, não foi isso que eu encontrei. Quando a vi pela primeira vez, senti algo diferente, um sentimento familiar, como se a conhecesse desde sempre. Seria porque passei anos a ouvir falar sobre ela, sobre a sua doçura, o seu jeito simples de ser, o carinho que emanava do seu corpo. Não sei, mas foi isso mesmo que senti na hora que a vi, mesmo assim, não podia deixar as desconfianças do meu amigo de lado e a questionei sobre as suas intenções. Não demorei muito para perceber, que tudo podia ser um terrível engano, mas o Paulo é casmurro, o que significava que sem provas, ele nunca a perdoaria. Mesmo assim, eu sabia que ele a amava, isso era nítido na sua expressão e na forma que os seus olhos brilhavam, quando recordava o passado. Pena que o passado não trás felicidade e ele dificilmente vai baixar a guarda, na sua presença. Então eu resolvi o provocar, pedindo-a em casamento na sua frente, quando ela supostamente é a sua noiva. Como esperava, ele não reagiu da melhor forma e fugiu de cena, refugiando-se no seu quarto, com a desculpa de tomar banho. Aproveitei então a sua ausência, para testar a minha teoria e a conhecer melhor. E surpresa, surpresa… ela é realmente o tipo de mulher que eu estava à espera, é ainda melhor, madura e com personalidade. Não teria problema algum, em tela a vida toda ao meu lado, mas logo percebi que isso seria difícil. Principalmente, quando o meu amigo mexia tanto com ela e mais do que isso, ela parece possuir um grande sentido de lealdade. A maior resposta para essa conclusão, foi quando a vi desmaiar nos meus braços e percebi a sua perda de sangue. Foi difícil não me deixar levar pelo pânico, enquanto corríamos para o hospital, mas era ainda mais incrível a expressão calma e serena do Paulo, ao ver aquilo que acontecia. Naquele momento, duvidei de tudo o que acreditava e apenas vi um homem, vazio, sem alma e completamente doente. Se ele seria assim com ela, então eu não teria remorsos por a roubar, para lhe dar tudo o que realmente merecia.

— Tenha calma D. Marília, a Helena está bem. – Disse acariciando as mãos da senhora, sentada ao meu lado, na sala de espera do hospital. – Eles são fortes, vão passar por tudo isto.

— Oh meu filho, fico feliz por estares aqui e apoiares a minha menina. – Sorriu triste. – E mesmo assim, desejava que o Paulo tivesse a tua atitude de os socorrer, em vez de ficar apenas a olhar e a dizer maldades. Como eu fui dar à luz, um filho tão burro, porque ele tem de ser assim casmurro como o pai.

— O Paulo tem os seus motivos D. Marília, mas eu estou aqui com a senhora…

— E o médico que não chega. – Interrompeu-me aflita. – Eu preciso de respostas sobre a minha nora e o meu neto. Para quê tanta demora, Meu Deus.

Eu já não sabia o que mais dizer para a mulher, que era como uma segunda mãe para mim. A D. Marília e o senhor Alberto, sempre foram muito próximos da minha família. Tanto que o meu pai sempre dizia, que se um dia tivesse uma filha, seria a noiva do Paulo, ou visse versa. No entanto, nas duas famílias apenas nasceram meninos e eu sou filho único. Não por vontade do meu pai, que sempre sonhou com uma adorável menina, mas porque a minha mãe teve problemas após o meu parto e ficou estéril. Até hoje, não sei como nunca adotaram a tal menina, talvez esse seja um segredo que eu ainda não tive o privilégio de descobrir.

— D. Marília. – Chamou uma loira muito bonita, correndo para o nosso lado. – Como eles estão? Já teve notícias? O médico…

— Não querida, o médico ainda não disse nada. – Respondeu, interrompendo a linda mulher na minha frente.

— O que aconteceu? Porque ela desmaiou?

— Tem calma Carina, ficares nervosa não vai ajudar em nada. – Pediu um homem alto atrás dela, enquanto a abraçava por trás. – Olá, sou o Francisco marido da Carina, mas pode me chamar só de Xavier.

Apresentou-se esticando a mão, para a para a minha companheira de espera, mas em vez de um aperto ele recebeu um abraço duplo, já que a loira estava no meio dos dois.

— É o prazer querido, apesar que preferia que nos tivéssemos encontrado em outra ocasião. – Sorriu abatida.

— Infelizmente a vida é assim, mas não vamos ficar tristes, porque nenhum dos dois estão mortos. Temos dois guerreiros, lá dentro que não se vão deixar abater por tão pouco.

Gostava de ter a confiança deste homem e olha que só agora a conheci, quando a deixei deitada na maca, temi pelo pior. E ninguém foi capaz de me dizer o contrário, o caso era grave e quem sabe que consequência terá.

— Familiares da Helena. – Perguntou o médico aproximando-se de nós.

— Sim, finalmente somos nós. – Respondeu a jovem.

— Lamento informar, mas a paciente chegou aqui em estado grave e não sobreviveu.

Respondeu fazendo as mulheres explodir em lágrimas, enquanto o tal de Xavier abraçava a esposa com força, eu tive que segurar a D. Marília para que não desabasse no chão.

— Como assim doutor, ela não parecia estar tão mal quando chegamos, a hemorragia não parecia grave.

— Lamento, mas o embate foi muito forte, provocou algumas hemorragias internas e…

— Deve haver algum engano, por favor, confirme novamente.

Pedi, tentando me manter de pé, enquanto tentava acalmar a mulher nos meus braços. Eles não podem morrer, não assim… eu quero os conhecer melhor, poder segurar no pequeno Martin e os roubar do Paulo, se isso os fizer felizes. Se ele foi a sentença de morte dos dois…

— Não há engano nenhum, Helena Freitas, entrou no hospital a menos de uma hora e acabou de falecer a minutos…

— Freitas? – Ouvi a voz estrangulada, da loira se pronunciar. – Ela não é Freitas. O nome dela é Helena Meira, uma jovem na flor da idade, grávida do meu sobrinho.

— Grávida? – O médico voltou a olhar para a ficha, olhou novamente para nós e depois deu um sorriso nervoso. – Desculpe…

— Familiares de Helena Meira? – Ouvi outro médico chamar.

— Aqui. – Chamei o homem, enquanto fuzilava o velho na minha frente.

— Parece que ouve uma pequena confusão, peço desculpa. – Disse desaparecendo, o mais rápido possível da nossa frente.

— Como ela está doutor. – Perguntei, já que depois daquela falsa notícia, todos tínhamos medo da resposta.

— Ela está bem, conseguimos controlar a hemorragia sem problemas, a sua pressão está um pouco alta, por esse motivo temos de continuar a motoriza-la. Se tudo correr bem, dentro de alguns dias terá alta. – Um suspiro alto, saiu da boca de todos, enquanto o médico continuava a explicar o seu estado clínico. – O feto também não demonstrou sofrimento, pelo que acredito, que poderá levar a gravidez até ao fim sem problemas. Mesmo assim, acho melhor prepararem-se para um parto prematuro. Se o estado clínico da paciente não melhorar nas próximas horas, provocar o parto, pode ser uma opção a ser considerada. Até lá, recomendo que tenha muito descanso e que evite a todo o custo, emoções fortes.

— Obrigado Doutor. – Agradeci sinceramente por todos.

— Agora que esta tudo bem com ela, vamos atrás desse doutorzinho de meia tigela, que disse que a minha amiga morreu. – Disse a loira surpreendendo a todos.

— Eu vou contigo, como podem dar um susto destes a uma pessoa, eu não tenho idade para isso.

Assim as duas mulheres saíram disparadas atrás da administração, berrando com tudo e todos a sua passagem. Elas queriam justiça e acredito que o teriam feito se pudessem. Após ameaças e muitas trocas de palavras, a mãe do Paulo foi sedada e levada para um quarto, enquanto a Carina se recusou a todo o custo, ao mesmo tratamento. A única forma de a acalmar, foi com um calmante dado pelo seu marido, com a promessa que poderia ficar ao lado da amiga, até que esta acorda-se.

Poder ver a Helena acordada e conversar com ela, foi um grande alívio, tanto que me surpreendi a mim mesmo. Não esperava que a conhecer mexe-se tanto comigo, ainda mais, quando ela é noiva do meu grande amigo de infância. Mesmo que ele a rejeite, que diga que a odeia profundamente, eu sei que ele ainda não a esqueceu. No entanto, eu também entrei na jogada, mesmo que inicialmente o meu objetivo tivesse sido para o perturbar, já não é mais. Neste meio tempo, pude conhecer a mulher que ela era e quanto mais a conhecia, mais a queria conhecer. As conversas com a Helena fluíam facilmente, tanto que se não tivesse a certeza do contrário, acreditaria que já a havia conhecido no passado. Ou talvez tivesse sido em outra vida, isto se existir vida depois da morte. Esse é um tema que podia facilmente discutir com ela, se não nos lembramos de mais nada para falar, se bem que acho impossível que isso aconteça.

Felizmente o tempo passou rápido e ela logo teve alta, o que não me impedir de a visitar frequentemente. Não quando a D. Marília se tornou a minha aliada, abrindo-me a porta da sua casa, sempre que eu desejar. Apenas, ainda não aceita que eu roube a minha futura mulher do seu filho, mas isso logo vai mudar e eles são meus.

— Olá princesa. – Cumprimentei-a assim que entrei no quarto. – Será que vossa realeza, permite este humilde servo, de entrar nos seus aposentos?

Perguntei brincalhão, enquanto fazia uma vénia desengonçada. Como sempre após a minha pequena arte de bobo, ouvi a sua doce gargalhada e aproveitei para me aproximar dela, deixando um beijo na sua cabeça.

— Só tu para me fazeres rir, cada vez que entras no meu quarto. – Disse batendo-me de leve no ombro.

— As suas ordens princesa. – Fiz mais uma vénia ridícula, provocando mais uma gargalhada. – Como a nossa princesa se sente hoje?

— Estou bem, cansada de estar na cama, mas bem. – Suspirou, enquanto acariciava a sua barriga. – Acreditas, que nem a varanda me deixam ir? Depois do que aconteceu, só não me deixaram de fraldas nesta cama, porque não podem.

— A minha linda princesa, ia se transformar em um bebé girante. – Ri da carreta que ela fez.

— Uma bebé grande, a gerar um bebé mais pequeno. – Ficou pensativa por momentos. – Isso ia ser bem estranho.

— Concordo. – Rimos juntos. – E o Paulo? Ele voltou a te perturbar?

— Não posso chamar de perturbar, pelo menos não no sentido da palavra, que estás a pensar. – Desviou os olhos para o lugar vazio na sua cama e continuou. – Ele tem dormido aqui, todas as noites. Desde aquele dia que quase perdi o meu filho, melhor… desde que voltei do hospital, que ele tem partilhado todas as suas noites comigo. É estranho, desde que vim para esta casa, que eu mal o tenho visto ou ouvido a sua voz. Nem para perguntar sobre o meu estado ou o do nosso filho, ouço o seu nome pelos corredores e agora isto.

Ele deve-se sentir culpado pelo que aconteceu, por não lhe ter dado apoio quando quase perderam a criança, mesmo assim não sei se ele realmente ainda a odeia, ou apenas não quer deixar de a odiar. Seja como for, é tarde de mais para se redimir e nada a vai tirar de mim. Eles agora são meus e não vou deixar que a sua culpa me roube, o que tanto está a ser difícil conquistar. É bem mais fácil a fazer esquecer, do homem que ela um dia amou, se ele continuar a ser frio e arrogante. Já que ela, não se recorda do amante carinhoso e apaixonado, que um dia ele foi. Claro que eu sei dos seus flashes de memória, que a deixam mais frágil e venerável a sua presença. Por isso, tenho de a afastar dele, antes que recupere a memória. Antes que volte a ser, inteiramente dele.

— Sim é estranho, mas não podes deixar que ele te perturbe. Sabes que não podes te enervar, é muito perigoso e podes…

— Não sobreviver eu sei. – Suspirou cansada. – Só quero que tudo isto acabe, para sentir paz novamente.

— Tens a certeza, que queres ficar nesta casa? Ainda podes aceitar a minha proposta, fazemos a mudança hoje mesmo e damos início as preparações. Assim que o Mateus nascer, fazemos a cerimónia e eu registo-o como sendo meu.

— És um querido, mas não posso aceitar.

Aquilo doeu, mais do que podia explicar, mais do que estava à espera de sentir. Já que o seu não, era a única certeza que tinha, eu sabia que ela não ia facilitar, ou então, já teria ido morar com a sua amiga. Não sei o porquê, de me ter tornado tão possessivo, afinal mal a conheço, mas ela desperta em mim sentimentos… que eu não tenho como explicar. Apenas quero a proteger de todo o mal do mundo, é quase como se mantê-la a salvo fosse uma obrigação, um dever que eu devia cumpri com a minha vida. Diria que se fosse em outros tempos, eu seria o cavaleiro da minha princesa, só não sei se o Paulo seria o seu príncipe ou o dragão que eu teria de matar, para a ver sorrir. Seja como for, este é um desejo que se impregnou de tal maneira em mim, como o ar que eu respiro. E se para a proteger tiver que destruir uma amizade de anos, certamente que o irei fazer. Por mais estranho, que uma afirmação destas possa ser, acho que será a minha única opção. Porque eu me sinto assim? Será… amor?

— Sabes que a minha proposta se mantém, espero que penses com carinho nessa possibilidade e me dês uma chance de fazer feliz.

— Obrigada Mário, és um querido. – Sorri carinhosamente para mim.

— O que fazes aqui Mário? – Perguntou o Paulo, ao entrar no quarto.

— Vim visitar a nossa gravidazinha, queres motivo melhor? – Perguntei irónico, vendo a sua expressão se enrijecer.

— Não precisas entrar no nosso quarto, para o fazer. – Respondeu frio, observando o espaço, quase como se marcasse o seu território. – Porque não conversam na sala?

— Porque ela tem uma sala no quarto e é bem mais… prático, privado. – Alfinetei-o, enquanto vi as faíscas saírem-lhe pelos olhos. – Coisa de gente rica mesmo, não podiam ter construído quartos normais, quando renovaram o velho casarão? Eu sei que os velhos casarões de quintas eram bonitos e demasiado grandes, para o fluxo económico daquela época. Mesmo assim, mesmo que tivessem aproveitado o espaço ao máximo e melhorado a estrutura. Não deixa de ser um grande exagero, em vários sentidos…

— Diz o homem, que cresceu numa casa quase igual a esta. – Riu-se, enquanto de atirava para a cadeira mais próxima. – Que cresceu no luxo de ser filho único, mimado e a paparicado pela mãe.

— Não vás por aí. – Rosnei com raiva.

— Não fui eu que comecei. – Defendeu-se, abrindo um enorme sorriso gozador.

— Tu…

— CHEGA… – Berrou a Helena furiosa. – É por isto, que eu tenho de ficar trancada neste quarto? Pois lamento dizer, mas a partir de hoje, sou eu que dito as regras sobre o que posso ou não fazer. O que engloba tudo. Com quem eu vivo. – Virou-se para mim. – O que eu como ou quando como. – Foi a vez do Paulo. – Com quem eu falo, onde eu falo. Agora os dois, RUA…

Disse expulsando-nos do quarto, sem nos deixar dizer uma única palavra. Esse jeito dela é tão adorável, que eu me sinto ainda mais atraído por ela, mas continuo a achar, que há algo nela que me é familiar. Apenas não consigo recordar de onde, o que a torna tão viva na minha mente.

 

 

Continua…

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