Abismo – Capítulo 12

Se eu achava que acordar em coma era estranho, acordar ao lado do homem que diz me odiar é ainda pior. Ainda não tenho ideia do que aconteceu no passado, por isso não imagino o porquê de tanto ódio, mas também não conheço a força do seu amor. Mesmo com todos as leves lembranças, que eu me habituei a ter, com o passar dos dias, ainda é estranho imaginar um romance entre nós. Principalmente, porque neste momento, somos como dois desconhecidos a partilhar o mesmo quarto e a mesma cama. Mesmo o Mário que é o seu amigo de infância, mais antigo e fiel, tem essa dificuldade, ou pelo menos é isso que ele me leva a quer. Imaginem eu. Acho que as únicas pessoas que vem o nosso futuro casamento, como a escolha certa a ser feita, são as três mulheres que comandam esta casa. A minha futura sogra, a sogra dela e a governanta da mansão, as três pessoas que ainda acreditam no pai natal. Até seria uma piada bem gira, se eu não tivesse vontade de chorar.

— Olá amiga. – Berrou a Carina, assim que entrou no meu quarto. – Está um dia tão lindo lá fora, vamos tomar um chá ao jardim?  Humm, será que a D. Maria é capaz de fazer um daqueles típicos chás Ingleses, com mini sandes, brioches e bolos sortidos? Ou pelo menos, que saiba onde os pode comprar.

— Chá? Tu queres Chá Inglês? – Perguntei admirada, pousando o meu livro na mesinha em frente ao sofá. – Estás doente? Tu nunca gostas-te de chá e agora queres um chá com natas ou leite?

Perguntei irónica, tentando imitar o típico sotaque Britânico, mas sem muito sucesso é claro.

— É que hoje, deu-me uma incrível vontade de provar. – Disse, com um sorriso divertido no rosto?

— Incrível vontade? – Algo não está bem, a única vez… será? – Vai me dizer, que por acaso, só por acaso, a menina Carina Braga vai ter um rebentinho, para fazer companhia ao meu?

— Sim… sim… – Respondeu aos pulos, enquanto batia palmas. – Não é incrível?

— Sim, sem dúvida. – Levantei-me com dificuldade para lhe dar um abraço. – Eu só não pulo contigo, porque o Martin não deixa, está a ficar muito pesado este rapagão. – Levei um forte pontapé, na minha barriga. – Sim eu sei querido, a mamã não se pode queixar.

Foi impossível não rir, já era bastante engraçado falar com a minha barriga, agora receber respostas em forma de movimentos, fazia tudo ser ainda mais especial. Sem esquecer o tipo de voz, que sempre usava para falar com o meu bebé.

— Estou louca, para que o meu pequeno, também se comece a mexer. – Sorriu cúmplice, acariciando a sua barriga lisa.

— Aproveita enquanto podes. – Agarrei nas suas mãos, puxando-a para se sentar no sofá. – Eu não sei como era saber que o meu pequeno estava aqui, que crescia dentro de mim, mas posso dizer o que é o sentir vivo, no meu ventre. Essa é uma sensação que nunca na minha vida, poderei explicar por palavras, mas uma coisa é certa. – Sorri. – Tem alturas, que eu só queria que ele dormisse um pouco mais. É impossível dormir, quando têm as pilhas ligadas, quando isso acontece posso demorar horas, para finalmente descansar.

— Ouvi falar que a voz do pai, por vezes ajuda a acalma-los, não… – Tapou rapidamente a boca com a mão, quando percebeu o rumo da conversa. – Mas talvez a voz da madrinha também funcione, ou a do padrinho… posso o emprestar se precisares, ou até podemos gravar a voz dele, ou então podes pedir ao Mário…

Não sei onde ela queria chegar com aquela sugestão, mas certamente não seria coisa boa. Ainda mais, quando nos últimos meses cultivou uma raiva mortal pelo homem, que nega ser meu noivo.

— Porque pediria isso ao Mário?

— Porque achas que seria? – Sorriu de lado, ela estava a tramar algo, podia sentir isso. – Então… ele é tão atencioso contigo, faz o que tu lhe pedires e ainda… te fez uma ótima proposta.

— Carina, eu não vou aceitar uma proposta qualquer, de um desconhecido. – Respondi irritada.

— Ok, tudo bem que ele era apenas um desconhecido quando te fez a proposta, mas agora não é mais. Além disso ele disse que a proposta, ainda se mantinha, só tens de a aceitar para ele a cumpri. Então, estás à espera de quê? Que ele escolha outra mulher e desapareça da tua frente? Querida o Mário é um ótimo partido, é um excelente homem de negócios, é atencioso, inteligente, comunicativo, têm várias qualidades. Certamente dará um ótimo pai para o Martin, tenho a certeza que ele vai cuidar muito bem, de vocês dois.

— Eu percebo que não me queiras ao lado do Paulo, sei que o culpas por tudo o que aconteceu comigo e não te tiro a razão por isso. Mesmo que não o possa confirmar, de alguma forma eu sinto que ele foi uma das causas, para o meu acidente. No entanto, eu não o culpo. Seja o que foi que aconteceu, tenho a certeza que envolve uma escolha minha e não o posso responsabilizar pelas minhas escolhas.

— Mas…

— Não existe nenhum, mas… Carina, eu fiz uma escolha e não posso arrastar mais ninguém para os meus problemas.

— Não acho que o Mário, veja o teu estado como um problema. – Tentou argumentar, amuada.

— Pode não ver, mas certamente será um obstáculo a ser enfrentado no futuro. – Limpei disfarçadamente uma lágrima e continuei. – Eu sempre serei rotulada, pela mulher interesseira que deixou um homem pelo outro, porque não conseguia o que queria. Nunca serei devidamente aceite, pelos seus amigos e pela sociedade, sem falar nas implicações que surgirão por deixar está casa assim. E se a determinada altura, eu recuperar a minha memória? Achas que terei paz, por ter abandonado o Paulo dessa forma? Eu não acredito que terei, ainda acho que me vou sentir culpada, por alguma coisa.

— Lena, por favor… pensa bem sobre o assunto, acredito que estarás melhor ao seu lado.

— E provavelmente ficarei, mas não como esposa. – Olhei nos seus olhos. – Amor é um sentimento que não se pode inventar, ou existe dentro de nós ou não. Eu gosto do Mário, acho-o um excelente homem e um bom amigo.

— Mas não o amas. – Concluir, olhando para as mãos.

— Não, eu não sinto amor por ele, não dessa forma pelo menos. – Peguei nas suas mãos e sorri para ela. – Agradeço a tua preocupação amiga, do fundo do meu coração eu te agradeço, apenas não posso mentir. É impossível expressar um sentimento que não existe dentro de mim, eu realmente gosto do Mário, mas é como amigo, como um irmão que eu nunca tive. Agora com o Paulo… é diferente, há algo mais… – Suspirei. – É melhor pedir a D. Maria o nosso chá, antes que o meu sobrinho nasça com cara de bule de chá e bolinhos… – Fiquei pensativa, tentando imaginar a cena.

— Afilhado. – Disse, quebrado o meu raciocínio sem sentido.

— Há!!

— Não é sobrinho é afilhado. – Repetiu.

Levei alguns momentos a perceber o que realmente ela tinha dito, antes de explodir de felicidade e envolver em um abraço de urso. Onde ficamos por alguns minutos aproveitando o momento, antes de me arrastar para sair do sofá e caminhar até ao telefone. Assim que terminei de fazer o nosso pedido para a governanta da casa. Confirmando que ela, teria todo o gosto de saciar a vontade de duas grávidas gulosas, voltei para junto da minha amiga. Uma vez ao seu lado, ficamos a conversar sobre maternidade e decoração de berçários, quando fomos chamadas para comparecer ao nosso chique chá da tarde.

Foi impossível não salivar de ao ver todos aqueles doces, sandes e compotas. Tanto que quase não pude apreciar a magnifica paisagem e decoração, imposta por um jardim completamente verdejante e florido. O cheiro suave, que emanava das flores multicoloridas, era delicioso. Ainda mais, quando misturado com o cheiro de comida e uma grávida esfomeada. Os petiscos, estava elegantemente posicionada em uma mesa redonda, coberta com uma toalha de seda branca bordada e duas cadeiras confortáveis.

— Humm que maravilha… D. Maria, é um verdadeiro anjo caído do céu. – Disse a minha amiga, dando um beijo no rosto da mulher, que corou de vergonha.

— Que é isso, menina… – Sorriu timidamente. – Esse é o meu dever.

— Que dever D. Maria, nós não precisávamos de tanto, apenas um bolo, chá e umas sandes. – Sorri sentando-me na mesa, depois de também beijar o seu rosto. – Isto é um banquete, nem sei por onde começar.

— Parece tudo tão delicioso e cheira tão bem… – Disse cheirando o chá fumegante, que a D. Maria tinha acabado de verter na sua chávena. – Ai D. Maria, se me tratar assim, vou ter que me mudar para aqui durante toda a minha gravidez. O Xavier é que não vai achar muita piada, ele esta ansioso pelos desejos estranhos e repentinos, que o acordem a meio da noite. Já lhe disse que se vai arrepender, de um dia ter desejado tal coisa, em vez de dormir a noite toda descansado.

Gargalhou bem-humorada, arrastando as nossas risadas, com ela. Vai ser divertido, ver a cara de arrependimento do Xavier ao fim de alguns desejos, mas algo me incomodava com tudo isso. E sinceramente, não foi difícil descobrir qual a razão do meu desconforto.

— O que se passa Lena? – Perguntou a Carina preocupada. – Ficas-te estranha de repente.

— Não se passa nada Carina, é impressão tua, mas estes scones com geleia de morango estão divinos… – Gemi de prazer, colocando um pedaço na boca.

— Sim estão muito bons, mas isso não responde a minha pergunta. – Insistiu irritada, deixando o seu chá de lado. – O que se passa? É o Paulo?

— Já disse que não se passa nada Carina, está tudo bem e com o Paulo está tudo na mesma.

Passei um pouco de geleia em outro scone, devorando-o de uma só vez, sobre o olhar atento da minha companheira.

— Eu tenho cara de parva? – Perguntou séria, olhando-me nos olhos. – Porque se tenho, acho que te enganaste na morada. Eu sei que se passa alguma coisa, vejo isso na tua cara e sobretudo nas tuas ações. Ou achas que não percebi, que estas a tentar-te manter a tua boca demasiado ocupada com comida, apenas para me despistar.

— Achas isso, porque a tua gravidez ainda está no inicio, vai ver…

— HELENA MEIRA… – Chamou assustando-me. – Ou me dizes agora o que se passa, ou eu tiro a comida da tua frente e recuso que conheças o teu sobrinho.

— Não era afilhado?

— Era, até me tentares esconder o que se passa contigo. – Disse, roubando-me um bolinho de cenoura, da minha mão. – Agora fala.

— Isso é maldade. – Resmunguei tentando pegar em outro bolinho, mas ela foi mais rápida e tirou a bandeja da minha frente. – OK… Eu digo.

Suspirei derrotada, recebendo a bandeja cheia de bolos, como recompensa.

— Agora conta. – Recostou-se atenta, comendo uma mini sandes de abacate com ovo.

— Eu fiquei a pensar sobre o Paulo, como ele nunca se preocupou com os meus desejos e vontades, de certa forma acho que fiquei com inveja. – Contei, observando o meu chá meio bebido. – Não sei como lidar com isto, com a sua rejeição.

— Oh Lena. – Levantou-se da sua cadeira e caminhou até mim, abraçando-me com força. – Desculpa, eu esqueci-me completamente. O Paulo é um verdadeiro idiota, por não aproveitar o tempo que tem contigo e com o vosso filho. Um dia ele vai arrepender-se disso, mas vai ser tarde de mais. É impossível se recuperar o passado, por isso temos de aproveitar o presente e construir o futuro sem arrependimentos. Eu sei que temos opiniões diferentes, mas ainda acredito que devias o deixar.

— Por favor Carina, não fales mais sobre isso.

Ela suspirou derrotada e continuou a comer calada. Pouco a pouco o sol quente foi desaparecendo, tal como a comida, que ainda existia na mesa. Em breve, o homem que me assombrava como um fantasma, estaria em casa e mais uma vez, não sabia o que pensar sobre isso.

 

Continua…

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