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Abismo – Capítulo 13

Mais um dia se passou e a minha vida continua numa roda viva, que gira sempre, em volta do mesmo círculo. Não preciso mais de apresentar o meu problema, muito menos o meu dilema, pois ela já é de conhecimento geral.

— Olá princesa. – Cumprimentou-o o Mário, assim que se aproximou de mim. – Que belo dia, para apanhar sol no jardim.

— Sim é verdade. – Sorri, ajustando o chapéu que me impedia, de apanhar uma insolação. – Senta-te e serve-te de um pouco de sumo.

Apontei para o jarro gelado, de sumo de laranja na mesa ao meu lado, felizmente a Maria tinha trazido dois copos. Pode parecer estranho, mas ela sabe que eu nunca fico sozinha num sítio, por muito tempo. Vantagens ou desvantagens de quem acabou de entrar no último mês de gestação.

— Obrigado. – Disse, sentando-se na espreguiçadeira ao meu lado. – E então, como se está a comportar esse rapazinho?

— Bem, um pouco chatinho as vezes, mas eu não posso reclamar muito ou ela não me deixa dormir. – Sorri, acariciando a minha barriga.

— Um malandrinho, estou louco para conhecer o pestinha. – Aproximou-se da minha barriga, tocando-a timidamente. – Muita gente está a tua espera homenzinho, eu estou muito ansioso pela tua chegada e quando cresceres vamos brincar muito. Vou te ensinar a nadar, a jogar futebol e a deixar as meninas louquinhas por ti. Vais ver aqui o papai…

— Papai? – Perguntei encarando-o.

— Porque não? – Sorriu de lado.

— Ainda tenho de me justificar? – Olhei-o com cautela. – Tu sabes o que eu penso disso, por favor não me faças repetir.

— Mas eu podia ser um ótimo pai…

— Sim eu sei e também acho isso, mas não precisas do meu filho para seres um bom pai. Podes ser um bom tio e construíres a tua própria família, afinal o Martin também precisa de primos.

— Vais me partir o coração assim, bela donzela encantada. – Dramatizou de forma cómica. – O que será de mim… ai o que será de mim, sem a minha doce princesa e o meu adorado príncipe…

— Menos Mário, não precisas de dramatizar. – Abafei o meu riso. – Sabes que eu preciso de tentar, eu não quero tirar a oportunidade do meu filho poder escolher. Independentemente da minha história com o Paulo, a do meu filho com o seu pai é um outro tema. E como o tema delicado que é, peço que respeites e sejas o tio maravilhoso que eu sei que podes ser.

— Não sei se te repreendo, ou se te agradeço. – Falou confuso, voltando-se a sentar.

— É complicado… Tudo é tão… nem sei o que dizer. Sufocante?

— É talvez seja isso mesmo…

Ficamos os dois calados por algum tempo, sentindo a brisa suave passar pelo nosso meio.

— Então estão aqui. – Disse a minha sogra, quebrando a paz que tínhamos construído. – Aproveito a tua presença Mário, para te dar um convite.

A sua felicidade estava estampada no seu rosto, tal como a surpresa no nosso, convite? Convite para quê?

— Epá convite, vamos ter alguma festa? – Perguntou animado, levantando-se para se aproximar da mulher. – Qual é a ocasião?

— Nada de especial, apenas vamos oficializar uma relação. Algo que já deveria ser sido feito a alguns meses atrás, não fosse a trágica interrupção.

— Como assim? – Perguntei, já adivinhando do que se tratava.

— Do noivado do Paulo e da Helena, claro.

Falou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Sem se aperceber, que o homem que acabava de receber o fino envelope, lutava para não o destruir na sua frente.

— O Paulo sabe disto? – Perguntou com algum rancor na voz.

— Vai saber assim que chegar em casa, caso contrário, certamente inventaria alguma viagem de última hora. – Falou com desgosto. – Que filho ingrato eu fui criar, onde será que eu errei?

— Tenha calma dona Marília, tudo ainda se vai resolver. – Tentei soar confiante, mas não tinha assim tanta certeza.

— Eu sei querida, vocês ainda serão muito felizes juntos e ainda darão muitos irmãozinhos ao Martin. – Falou tocando na minha barriga.

— Isso parece algo precipitado. – Resmungou o Mário. – Ainda não sabemos como ele vai reagir à festa, como saberemos se ele a fará feliz.

— Eu sei que vai.

Respondeu a D. Lilian, aparecendo ao nosso lado. Ela andava tão frágil nos últimos tempos, que mal a tinha visto. Felizmente não parece ser nada grave, mesmo assim, todo o cuidado é pouco para uma mulher com os seus 77 anos de pura sabedoria.

— Não sei, o Paulo é um… tremenda cabeça dura. – Continuou defendendo o seu ponto de vista. – Ele não a vai fazer feliz, ele nunca os fará felizes.

— Que falta de fé tens em mim, parceiro.

Foi impossível não sentir o vento gelado que nos esquartejou, assim que aquela voz grossa e extremamente fria nos atingiu. Respirei fundo e voltei a sentar-me, preparando-me para o furação que estaria prestes a chegar.

— É a verdade, apenas isso.

— A verdade? – Aproximou-se casualmente de nós, como se nada daquilo o afetasse. – Isso seria, se eu alguma vez, os quisesse fazer felizes.

— PAULO. – Gritou a minha sogra, o repreendendo como uma criança.

— Essa é a verdade mãe, por mais que a custe ouvir. É apenas a verdade, nua e crua.

Olhou para mim com os seus frios olhos castanhos, fazendo-me questionar se voltarei a ver um dia calor neles. Já foram tantas que pequenos flaches de memoria, acaloraram a minha mente de tantas formas diferentes. Momentos felizes, momentos carinhosos e até momentos escaldantes, mexeram com todos os meus sentidos. Me levando aos seus a uma velocidade alucinante, para logo de seguida conhecer o inferno. Sim ele era o meu céu e o meu inferno, mesmo assim ainda não tinha descoberto o motivo do seu ódio.

— Seja como for Paulo, o vosso casamento vai acontecer em breve. – Anunciou a sua avó, com o seu tom sério de sempre. – Na verdade a data já foi marcada, tal como a vossa festa de noivado.

— Como assim já foi marcado? – Rosnou, encarando as duas mulheres na sua frente.

— Simples querido… – Sorriu vitoriosa. – Foi só escolher uma data e enviar os convites, o resto são simples pormenores que os organizadores de eventos já estão a resolver.

— Como me pode fazer isto, mãe?

— Como podes TU, fazer isto com eles. – Disse, apontado com o queixo na minha direção. – Tu não és assim, nunca foste desta forma… o filho que um dia me deu um imenso orgulho, hoje é apenas uma desilusão.

Au… essa foi dolorosa, bem dolorosa. Sinceramente, acho que uma bofetada doeria muito menos. Observo atentamente a reação do Paulo, ele estava tão surpreso como eu e claro era nítido a sua dor. Infelizmente eu não o podia ajudar, tudo o que podia fazer era provocar ainda mais estragos, então apenas me encolhi no meu lugar.

— A festa de noivado é amanhã. – Avisou a D. Maria, quebrando o silencio perturbador. – Não te esqueças de aparecer, com um lindo anel de noivado e fazer o teu papel de noivo apaixonado. A não ser que queiras que a nossa família faça figura de idiota, em frente dos nossos maiores investidores.

Desafiou, deixando-o sem fala. Eu sabia que esta mulher era um osso duro de roer, mas não esperava que fossem mais baixo, só para o fazer cumprir com os seus propósitos.

— Eu vou estar presente. – Rosnou sem vontade.

— E vê se levas o teu sorriso, filho.

Uma gargalhada abafada, explodir na garganta do seu amigo de infância, que logo recebeu o olhar mortal do Paulo. Apesar que nem isso, o fez parar de rir. Porque raio ele estava a achar tanta piada, com esta cena? Ele não, percebia o que está em jogo? O quanto tudo isto, coloca a nossa vida e a nossa felicidade em jogo?

— Mário, para por favor. – Pedi.

— Que foi? – Tentou segurar um pouco o riso para falar. – Vais dizer que não tem piada, ouvir o Paulo nesta idade, ouvir um sermão da sua mãe… – Soltou uma gargalhada alta. – Como uma criança.

Terminou com dificuldade, no meio da sua explosão de risos. Por mais que a sua gargalhada pudesse ser contagiante, ninguém o seguiu. Muito pelo contrário, todos ficaram calados apenas o observando, enquanto o Paulo o matava com o olhar. Antes que o Mário termina-se a sua crise de riso, o Paulo afastou-se e entrou novamente em casa, seguido pouco tempo depois pela sua mãe e avó.

— Já chega Mário, por favor, para de provoca-lo. Nunca chegaremos a lado nenhum assim, sem falar que é totalmente desnecessário. – Repreendi-o assim que ficamos novamente sozinhos.

— Qual é Lena, vais dizer que não teve graça. – Disse finalmente se acalmando.

— Não, quando isso significa que serei obrigada a fingir um relacionamento. Que estarei numa festa de noivado… que me tornarei noiva de alguém que me odeia, que apenas vai estar comigo, para proteger o seu trabalho. Isso tem piada?

— Só vais casar com ele porque queres, eu dei-te uma opção de fuga, a tua amiga deu-te uma opção de fuga. Tu foste a única a rejeitar, todas as oportunidades que te deram. Se tu estás na beira do abismo, não foi porque te lá deixaram, mas sim porque quiseste.

Respondeu sério, recriminando-me pelas minhas escolhas… porque será que ele não compreende… porque ninguém percebe os meus motivos, as minhas escolhas. A dor que eu sinto cada vez que tento recordar algo em vão, que percebo que o meu filho, nunca será amado pelo seu pai.

— A escolha é minha e se fores realmente meu amigo, vais a aceitar. – Levantei-me com a graciosidade de um elefante. – Um dia vais perceber os meus motivos e nesse dia, eu estarei aqui para te ouvir.

Sem dizer mais nada, simplesmente afastei-me e entrei em casa, encaminhando-me de seguida para o meu quarto. Provavelmente esta não seria a escolha mais acertada, pois com certeza encontrarei o Paulo lá. No entanto, quando entrei o quarto estava no total silêncio, mas não sei se isso é bom ou mau. Então sem pensar muito entrei no quarto de banho e tomei um banho relaxante. Assim que terminei, passei o creme hidratante e vesti o robe que tinha pendurado. Assim que sai para procurar alguma roupa no closet, encontrei o Paulo sentado aos pés da cama.

— Olha quem temos aqui. – Levantou-se caminhando na minha direção. – Parece que finalmente conseguiste o que querias, vais obter tudo o que desejas, mas não esperes o meu amor e a minha atenção. Isso nunca será teu, eu nunca serei teu.

Sem dizer mais nada, simplesmente saiu do quarto deixando-me sozinha no turbilhão dos meus pensamentos. Não me querendo dominar pelo lado negativo da minha vida, caminhei para o roupeiro, troquei rapidamente de roupa e depois segui para a cama. Onde fiquei até adormecer, logo depois de comer a leve refeição leve preparada pela minha cuidadora. Ou como normalmente ela é chamada, D. Maria.

No dia seguinte acordei cedo e como tem sido habitual nos últimos dias, o Paulo já não se encontrava na cama. Talvez ainda o visse no quarto, mas na cama era raro o encontrar, mesmo que ainda existisse vestígios de ele ter estado cá. Devagar levantei-me da cama e fui fazer a minha higiene pessoal, assim que terminei vesti um vestido florido confortável e aproveitei para descer para o pequeno almoço.

— Bom dia D. Maria.

— Bom dia menina… – Cumprimentou-me distraída, enquanto terminava de por a mesa. – Menina? O que faz aqui? Porque não está na cama, a descansar mais um pouco? Mais uns minutos e já subia com a sua refeição.

— Eu quero comer a minha refeição aqui, estou cansada de estar na cama, felizmente são mais alguns dias e este rapazinho já nasce. – Acariciei o meu barrigão.

— Mesmo assim menina, tem de descansar. Ainda não está fora de perigo, tens de ter cuidado.

— Eu sei, mas também preciso de me mexer. Não consigo ficar mais tempo naquela cama, já me doí o corpo todo de ficar deitada. Sabe D. Maria, eu sinto falta de trabalhar, da rotina do dia a dia, da adrenalina de um novo desafio. – Suspirei pensativa, agarrando-me a última recordação que tinha daqueles dias. – Mesmo com todo o stress, com todas as complicações, aqueles eram dias felizes.

— E mais dias felizes por aí virão, querida. – Aproximou-se me mim e tocou a minha barriga com delicadeza. – Em breve será mãe, essa é a maior alegria que se pode ter, o maior desafio, a maior rotina… a maior dor, o maior stress, é tudo maior incluindo o orgulho.

— Orgulho. Que palavra bonita de se dizer, mas ao mesmo tempo… parece tão frágil, tão fácil de destruir.

— Sim é verdade menina, mas tudo o que se perde, também pode ser recuperado.

Aquelas palavras deixaram-me a pensar, ainda mais na minha situação. O meu passado podia ser recuperado, a minha vida podia ser recuperada e o amor do Paulo? Podia ela ser recuperado? Podia ele recuperar o orgulho que a sua mãe sentia por ele? Talvez. Ele apenas o tem de desejar e lutar por melhorar, talvez aí ele volte a ser o seu motivo de orgulho.

O dia passou rápido, mais rápido do que eu podia contar. Entre refeições banhos, sessões de massagem e relaxamento, depilação e cabeleireiro. Sem esquecer a maquilhagem e o luxuoso vestido, eu estava pronta para a batalha, a nova batalha por uma vida, que eu não sabia se tinha lugar. Contudo uma coisa era certa, se eu não conquista-se o meu lugar nesse mundo, então eu iria criar o meu próprio mundo… o meu lugar, o meu lar, a minha vida… tudo o que é e o que será, para sempre meu.

 

Continua…

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