Abismo – Capítulo 14

Mais uma vez, vi-me a acordar a meio da noite. Era assim, desde que voltei a dormir com ela, o mais pequeno suspiro, o movimento mais repentino. Tudo desperta os meus sentidos e me trazem de volta, do mundo dos sonhos, ou no meu caso pesadelos. O pior de tudo, é quando me apercebo que mais uma vez, me encontro a dormir abraçado a ela. Quantas vezes, isso já aconteceu? Quantas vezes já fiquei atento, a espera de alguma reação dela, desejando que não acorde e me surpreenda assim. Por quantas vezes fiz o meu coração tremer, enquanto ela se remexia na cama sonolenta, quase me apanhando a acariciar a sua barriga avantajada. Quantas vezes eu fui apanhado pela minha razão, enquanto agia por reflexo, sonhando com o passado.

Levantei-me da cama olhando-a por uma última vez, como eu gostava que tudo fosse diferente. Queria que os nossos dias de paz voltassem, queria a surpreender com um pedido de casamento e lhe dar uma festa de noivado verdadeira. Queria que o filho fosse nosso, o nosso Martin, mas… nem tudo pode ser como queremos e agora eu vejo-me a lutar pela razão, pela sanidade que perdi naqueles dias.

Assim que terminei o meu banho, vesti uma roupa confortável e fui correr. Precisava de limpar a minha mente e pensar em tudo o que tem acontecido nos últimos dias, talvez assim eu seja capaz de a enfrentar. De sobreviver a este dia, sem sair ferido ou ferir alguém. Apenas não sei como o fazer e ainda por cima, tenho a lapa do Mário constantemente atrás dela. Porque ele não percebe, que é tudo falso, tudo… que ela apenas quer dinheiro, que nos está a enganar a todos. Quando menos esperamos, quando finalmente baixamos a nossa guarda, ela vai atacar e nos deixar sem chão. Ela vai levar tudo, o dinheiro, os bens, o filho e o coração.

— Ela não é assim Paulo. Não sei porque tanto insistes em algo, que não faz sentindo.

Ouvi novamente ela a defende-la, dentro da minha cabeça, quantas vezes ele já fez isso? Quantas vezes, ele invadiu o meu escritório para falar sobre dela. Quantas vezes ameaçou que a ia levar, para bem longe de mim, que ia tomar a minha mulher e o meu filho?

— Tu não sabes o quanto estás a ser ingénuo, ela é uma ótima mentirosa, eu também caí na cilada dela antes. Eu sei por experiência própria, o quanto ela pode parecer inocente e doce. Antes de nos dar o bote e nos destruir, para sempre sem piedade.

— Como se eu fosse acreditar nisso. – Disse ignorando o meu aviso. – Ela não é assim, mas sabes uma coisa? Eu não vou gastar o meu latim aqui a defende-la, principalmente para alguém que não lhe dá o devido valor. Prefiro antes a conquistar e quando perceberes que cometeste um erro, ela já será minha.

Sem dizer mais nada saiu, deixando-me completamente sozinho, com um grande sentimento de raiva dentro de mim. Sempre fomos os melhores amigos, mas desde que ele voltou, que a nossa amizade já não é mais a mesma. Tudo parece um pesadelo e eu não me sinto capaz de voltar a ser o mesmo, de deixar para trás a pessoa rancorosa que sou hoje.

Assim que dei a minha corrida por terminada, vi que os já tinham começado. Vários empregados circulavam pela casa atarefados, a mando da mulher que comanda tudo, nesta casa e que me praticamente de me criou. A Maria sempre foi como uma segunda mãe para mim, infelizmente mais uma aliada, da mulher que me inferniza.

Subi as escadas encontrando o quarto vazio, tomei um duche rápido, vesti uma roupa qualquer e tranquei-me no escritório. O tempo foi passando entre relatório para assinar, email para ler e responder, artigos para aprovar. Tanta coisa, que o dia podia passar facilmente por mim, sem nem o notar. Infelizmente eu não teria assim tanta sorte, pois a minha paz foi interrompida pela minha mãe. A sua elegância e a exuberância das suas jóias, levavam-me de volta ao presente e a realidade que eu queria ignorar. A festa começaria em apenas algumas horas e o anel que eu havia comprado a quase um ano atrás, teria finalmente uso. Ainda não sei, porque nunca me livrei dele.

— Está na hora de te trocares Paulo, em breve os primeiros convidados começam a chegar. A Helena já está pronta, apenas está a descansar um pouco no quarto. Espero que tenhas comprado um anel bonito e não te esqueças da declaração. Quero que os nossos amigos se sintam emocionados, com o vosso amor e felizes pelo rebento que vem a caminho.

Sem dizer mais nada, ela saiu me deixando sozinho com a raiva a borbulhar dentro de mim. Arrastei a minha cadeira com força e caminhei até ao bar, onde despejei dois copos de uísque de uma vez. Ainda ia acabar com um caso grave de cirrose se não parasse, mas quem se importava com isso agora. Subi as escadas, encontrando a porta dos meus pesadelos. Assim que a abri, encontrei o objeto do meu ódio a dormitar sobre a cama, envolta de um fino tecido bege com pequenas pedras coloridas.

— Parece um anjo, mas é apenas um demónio desfaçado.

Constatei, antes de caminhar para o closet e vestir-me de forma apropriada para o evento. Terminando o meu look, com uma gravata do mesmo tom bege que o seu vestido. Que contrastava com a minha camisa azul marinho e o meu fato preto. Assim que terminei, afastei a roupa revelando um pequeno cofre escondido. Digitei rapidamente a palavra passe, assim que o clique que indicava que se tinha destrancado soou, deslizei a porta revelando uma pequena caixa de veludo bordo. Ao a mão a tremer toquei no macio invólucro, lembrando-me do dia que o comprei. Do sentimento que levava no meu coração e que ansiava por este dia. O dia em que a apresentaria a todos como a minha futura mulher, a futura mãe dos meus filhos e a minha companheira para a vida.

— Um sonho que virou um pesadelo.

Murmurei comigo mesmo, ainda observando a pequena caixa, quando um barulho me chamou a atenção. Rapidamente, guardei o anel no meu bolso e retomei para o quarto. Encontrando a Helena a tentar ajeitar o seu cabelo, que tinha ficado ligeiramente bagunçando com a sua sesta. Sem falar com ela sai do quarto e procurei o bar, onde eu tencionava ficar a beber grande parte da noite.

— Vejo que já começaste a festa. – Ouvi o tem zombador, do meu Ex melhor amigo. – Onde está a Deusa da noite?

— Deusa? – Olhei-o pelo canto do olho, porque ele tinha de estar aqui. – Acho que te enganaste na festa.

—Eu recebi um convite para uma festa, em que uma Deusa grega, ficava noiva de um demónio do submundo. – Riu-se com a minha cara de irritado. – Ela é uma Deusa tão graciosa, que ainda a quero tomar para mim. Pena não a ter conhecido antes, se assim fosse a esta altura do campeonato ela já seria minha mulher e o ser na sua barriga, o nosso rebento.

— Tu? – Rosnei, agarrando-o pelos colarinhos.

— Que foi? Não aguentas uma verdade. – Testou-me, fazendo a minha raiva aumentar.

— Não me desafies Mário. – Rosnei mais uma vez advertindo-o.

— Eu até faria isso, mas não me parece que as damas desta casa, vejam esta situação com bons olhos. Aliás, vem aí agora mesmo.

Soltei-o rapidamente, olhando na mesma direção que ele, encontrando a mulher que me deu a vida. Os seus olhos castanhos estavam focados em mim, transmitindo-me o seu desagrado com a minha atitude. A minha posição na empresa estava em risco e tudo por causa dela, pelo que ela nos fez.

— Paulo, eu avisei…

Alertou-me, mas logo se calou olhando para algo atrás de mim. Quando me virei, fui surpreendido com uma imagem angelical. A Helena descia calmamente as escadas, apoiada no corrimão enquanto com a outra mão, segurava a saia do seu longo vestido. O seu vestido bege, cheio de pequenos e delicados detalhes, brilhava com a luz tímida emitida pelos candeeiros. Enquanto o tecido fino, esvoaçava a cada movimento seu, dando-lhe o ar de uma ninfa… completado pela sua maquilhagem natural e o seu cabelo meio preso, que caia em pequenos fios encaracolados. Sem esquecer da sua volumosa barriga, que se destacava sem ficar apertava, adora… está graciosa… elegante, sim isso é o temo certo. Pelo menos não vou passar vergonha, por ter uma noiva feia ou sem graça e “gorda”.

— Princesa. – Fez uma reverência exagerada, baixando-se em seguida para beijar a sua mão. – É uma honra estar na sua ilustre presença, madame.

— Não exageres Mário.

Riu com a sua palhaçada, mas logo o seu sorriso morreu, quando os seus olhos me observaram. Estava à espera de ver algum sentimento nos seus olhos, raiva, desilusão, frustração, sei lá… qualquer coisa, que me disse se o que estava a sentir, mas não, ela apenas me ignorou. Deixando o seu suave perfume no ar, enquanto se afastava com a minha mãe, indo cumprimentar os primeiros convidados que chegavam.

A festa estava chata, quase insuportável. Não era fácil fazer o papel de noivo feliz e apaixonado, mantendo-me o mais longe possível da minha suposta amada. Enquanto o meu suposto melhor amigo, lhe fazia a corte todo galanteador, mesmo debaixo do meu nariz e na minha suposta festa de noivado. O que os convidados vão pensar? Ele não pensa o quanto isso vai ser prejudicial, para a minha empresa?

— Já chega de beber Paulo. – Repreendeu-me a minha avó, enquanto acenava com um sorriso para um dos convidados. – Deixa as bebidas para os convidados e vai apresentar a tua noiva, para os novos clientes. Antes que eles pensem que a festa, é do Mário e não tua.

— Talvez isso fosse um bom negócio a se fazer, pelo esforço que ele está a desempenhar.

Dei um longo gole na minha bebida, que desceu a queimar todo o meu sistema, mas nem isso me ajudou. Já nada me parecia ajudar, talvez eu devesse experimentar um coma alcoólico.

— Faz o teu papel Paulo e socializa mais com os teus, convidados. – Resmungou entre dentes, afastando-se para ir cumprimentar alguma velha amiga.

— Boa noite Paulo. – Cumprimentou-me uma voz doce, com um cheiro irresistivelmente bom. – A noite está bem agradável e a festa está ótima parabéns.

— Obrigado Rute.

Sorri, observando-a num justo vestido vermelho, que acentuava as avantajadas curvas do seu corpo. O seu decote generoso, deixava-a mais sexy e o seu longo cabelo preso num rabo de cavalo alto, deixava o seu fino pescoço saliente e apetitoso. Eu sempre achei a Rute uma mulher bonita e atraente, mas esta era a primeira vez, que a via como um objeto de desejo carnal. Não sei se pela frustração de alguém que não tem sexo a vários meses, ou pelo efeito do álcool, ou mesmo pela situação frustrante em que me encontro. A minha única vontade neste momento, é de a arrastar para o cómodo mais perto e me livrar de toda esta tenção num único e poderoso orgasmo.

— Obrigado, queres uma bebida?

Perguntei imaginado qual seria a melhor forma, para a arrastar dali e ter a minha deliciosa escapadinha.

— Sim obrigada.

Respondeu sedutora, acho que está não vai ser uma tarefa difícil. Difícil vai ser a afastar daqui sem ser notado, ainda não quando as três mulheres da minha vida, parecem cães de guarda vigiando os meus passos. Quando fazem vista grossa, para a “princesa” da casa que seduz abertamente, o seu companheiro sem se preocupar com os olhares alheios.

— Então Rute, eu queria conversar sobre um importante negócio que temos em mãos, mas não pode ser aqui. – Sugeri com segundas intenções. – Acho que seria melhor, termos essa conversa em privado, se é que me entendes.

Abri o meu melhor sorriso malicioso, enquanto ela mordiscava sensualmente, os seus carnudos lábios vermelhos. Claro que ela percebeu a mensagem, mesmo que eu tivesse completamente destreinado na arte de seduzir.

— Paulo. – Senti um arrepio percorrer o meu corpo, enquanto cada palavra do meu nome tocava a minha pele, explodindo no meu peito. – A D. Marília está-nos a chamar, ela diz que está na hora.

Pediu educadamente, enquanto encarava a minha companheira e quase amante… quase… palavra frustrante… porque tudo na minha vida, têm de ser quase?

— Desculpa Rute, mas a nossa conversa vai ter de ficar para mais tarde.

Pisquei para ela que sorriu timidamente, afastando-se de seguida. Tal como a minha “noiva”, que caminhava em direção a minha mãe. Peguei mais um copo de alguma bebida, despejei-o rapidamente pela minha goela e caminhei na mesma direção. Enquanto colocava as minhas mãos nos bolsos, para parecer descontraído, enquanto a pequena caixa queimava ao meu toque.

— Finalmente Paulo, vamos começar. – Chamou rapidamente a atenção de todos, antes de continuar. – Como sabem, está é uma festa para comemorar um grande evento, que vai acontecer na vida do meu filho mais velho. Infelizmente o meu filho mais novo Ricardo, não pode estar presente por se ausentar, em mais uma das suas fascinantes aventuras pela selva amazónica. Talvez venha a ser o próximo Tarzan quem sabe. – Encolheu os ombros, enquanto todos riam da sua piada sem graça. – O importante é hoje temos algo para comemorar e por isso vou passar a palavra ao meu filho.

— Boa noite a todos.

Cumprimentei meio incerto do que ia fazer, como ia me declarar a ela, sem parecer falso. Como se não a fosse trair a momentos atrás, trair? Não é como se eu desejasse este relacionamento, para começo de conversa, por isso não podemos chamar o meu ato de traição. Na realidade, para mim tudo terminou a meses atrás e tudo isto, não passa de uma armadilha familiar. Tudo era tão diferente, quando eu ainda era ingénuo, um apaixonado perdido nas garras da doce donzela indefesa.

— A um prazer, partilhar este momento de felicidades com vocês e partilhar…

O meu pesadelo. Acrescentei mentalmente, tentando-me lembrar de algo bonito para dizer. Algo que dissesse que a amava, que me queria casar com ela por vontade própria. Como um dia eu desejei, como eu planeava fazer… com todas as palavras, com toda a emoção e sobretudo com o anel que eu desejei lhe entregar. Com os sentimentos que eu criei, que eu queria partilhar.

Afastei o meu olhar de todas as pessoas na sala e fitei a mulher que um dia eu jurei, que seria minha. Memorias do passado começaram a surgir na minha mente, do dia que a conheci, do momento que soube que estava completamente perdido.

— A escolha feita para uma vida. Não é todos os dias, que temos a oportunidade de conhecer alguém especial. Alguém que nos defende, sem mesmo nos conhecer. Que luta pelo que acredita e não tem medo de enfrentar um desafio, principalmente quando o seu oponente seja o todo poderoso Alberto.

Algumas pessoas riram no meu comentário, mas eu ainda estava focado nos seus lindos olhos âmbar e nas memórias do passado.

— Conhecer-te foi uma oportunidade, que eu jamais esquecerei. Amar-te foi um privilégio, que um dia contarei, como a história de uma vida, aos bisnetos da minha mãe.

Olhei para a minha mãe que sorria feito boba, certamente imaginando a casa cheia de crianças. Esse é o seu maior sonho, posso ver isso nos seus olhos, quando ela toca a barriga da Helena. Quando a vejo sussurrar na sua barriga, os mesmo ajeitar algum urso no seu futuro quartinho.

— Eu podia te falar do céu e da terra, podia pintar o sonho e o luar. Mesmo assim, não poderia dizer tudo, sempre haveria algo por falar. Alguma coisa que eu ia querer acrescentar e nunca ficaria satisfeito, com a verdade que sairia da minha boca. Tu és mais do que eu posso falar, eu te amo mais, que um dia te posso explicar. Mesmo assim. – Tirei a caixa do meu bolso e a abri na sua frente, enquanto o meu joelho encostava no chão. – Helena, casas comigo?

Pedi, observando os seus olhos ficarem brilhantes pelas lágrimas não derramadas, enquanto um fino sorriso se formava nos seus lábios. A sua mão estava irrequieta como sempre, acariciando o seu ventre, um vicio que tinha ganhando nos últimos dias.

— Sim. – Aceitou com a voz embargada.

Sem esperar, tirei o delicado anel de noivado com um simples solitário da caixa e coloquei no seu dedo. Um simples nada, pode parecer pouco, comparado com todos os luxos desta casa. Muitos me consideraram forreta ou mesmo descobriram as mentiras por trás das minhas doces palavras. Apesar de tudo, aquele era o anel que mais se encaixava na sua personalidade, pelo menos a que eu conheci e amei no passado.

Assim que todos nos felicitaram, dei o evento foi terminado, alegando que a gravida precisava de descansar ou teria o nosso filho logo ali. Todos riram da minha piada, menos a minha mãe e avó que entenderam o duplo sentidos das minhas palavras. Já que a Helena estava envergonhada de mais, para se expressar. Sem nem mesmo a esperar, sai apressado para o escritório sem nem me despedir de ninguém. Estava decidido a experimentar o colo alcoólico e ia começar agora mesmo, a treinar para o efeito.

— O que queres Helena? – Perguntei assim que ela rompeu pela porta, sem mesmo se fazer anunciar.

— O que foi aquilo Paulo? Porque tiveste de ser tão bruto com os nossos convidados? A tua mãe e avó estão furiosas, mas neste momento, estão demasiado ocupadas em se desculpar com todos.

— Aquilo? – Perguntei irónico, aproximando-me dela. – Aquilo foi um pedido de casamento querida, não era isso que querias? Um anel no teu dedo, pois aí o tens. Apenas não esperes mais do que isso. Não tentes encontrar a verdade nas minhas palavras, pois tudo o que vais encontrar é ódio.

— Ódio? – Olhou-me com atenção, ela parecia confusa. Pobre tola, pensa que ainda me pode enganar. – Por favor, conta-me o que aconteceu. O que te fiz naquela noite? O que provocou tanto ódio e tanta dor.

— Estás a brincar comigo? Tu sabes bem o que fizeste, os estragos que provocaste.

— EU NÃO ME LEMBRO, QUERIA ME LEMBRAR, MAS EU NÃO SEI. – Gritou em prantos, começando a chorar.

— Vou fazer que acredito.

Toquei de leve o envelope, ainda por abrir, com as informações que tinha pedido ao detetive particular. Não fazia nem uma hora que ele tinha sido entregue e por isso, ainda não tive a oportunidade de o abrir. Mesmo assim, não podia deixar de imaginar tudo o que ele continha. A verdade que queria esfregar no seu rosto de menina angelical.

— O roubo de um milhão de euros na empresa, não te diz nada? Aquele dinheiro, que transferires-te para uma conta na Suíça. A sério que acreditaste, que um paraíso fiscal, cobriria os teus gastos? Nem num milhão de anos, isso vai acontecer. Mesmo assim, tive pena de ti e não te coloquei na cadeia, onde é o teu lugar.

Ela olhava-me perplexa, atenta a cada palavra dita, como se fosse a última vez. E eu a odiava ainda mais, por me fazer relembrar aquele dia. O dia que a expulsei da minha vida e do meu coração.

— Tu não mereces nada, nem uma palavras do que eu disse, nem esse anel que carregas no dedo. Eu sei que esse filho não é meu, certamente é do teu amante. Onde está ele agora? Fugiu com o dinheiro foi? Talvez esteja com outra mulher, uma com mais valor e com integridade. Aquela mesmo, que um dia pensei que tinhas. Lembras-te Helena, lembras-te do quanto eu te amei, do quanto tu destruís-te?

— AHHHHHH…

O seu berro irrompeu pelas paredes, quase destruindo a minha audição. Por momentos, imaginei um estado de histeria, em que ela negaria toda a história, ou simplesmente desistiria de mim. No entanto, não foi isso que aconteceu, nada podia ser com tinha previsto. Foi com horror, que a vi vergada sobre a sua barriga, gritando de dor e desespero. Logo o chão exibia uma mistura de sangue e algo transparente, como água. Mais uma vez, eu estava congelado no tempo, a ver outras pessoas entrar na sala e a ajudar. Via as suas bocas gesticular algumas palavras, mas nada chegava aos meus ouvidos. Sem ser os seus berros e o choro desesperado por ajuda. O que eu faço? Eles podem estar em perigo e eu… posso ser o culpado, por pôr as suas vidas em risco.

 

 

Continua…

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