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Abismo – Capítulo 16

Três meses se passaram, desde o nascimento do meu pequeno Martin. Como mãe, não podia ficar mais feliz e orgulhosa do meu pequeno, que infelizmente é a cara chapada do pai. Sim, ninguém pode me acusar de traição ou golpe do baú por usar uma criança, para obrigar o Paulo a casar-se comigo. Não quando todas as dúvidas sobre a sua paternidade se dissiparam e as suas avós, são as pessoas mais babadas do mundo. Sem esquecer que são elas, que estão a organizar o nosso destino, sem questionar a nossa opinião. São ela que estragam o meu pequeno com mimos, pegando-o no colo a todo o momento, ao mais pequeno sinal de choro.

Mesmo com todos os problemas e desafios que enfrentei, ainda estou a viver na casa da família do meu “noivo”. A diferença, é que agora dormimos em quartos separados e nos vemos menos, do que nunca. Eu sei que ele passa tempo com o filho, que o pega no colo, quando pensa que eu estou a dormir. Ou mesmo, quando estou ausente tomando o meu banho, ou me alimentando. Felizmente, hoje eu sei que ele quer ser pai, que o meu menino tem um pai. Um pai que quer fazer parte da sua vida e o amar. É uma bênção e não podia existir mudança melhor.

O estranho, é que até Mário também está diferente, meio ausente e tudo sem motivo aparente. A esta altura, pensava que ele estaria por perto, ajudando-me, dando-me forças, mas não. Apenas sumiu da minha vida e nunca mais visitou o seu “sobrinho”. Eu sei que ter o rejeitado, pode ter sido doloroso, ainda mais quando ele me viu a noivar com um homem que me odeia. Que não aceitava o nosso filho e que me condena, por um crime que não cometi. Se fosse no passado, ou se fosse a vida de outra pessoa, talvez eu pensasse num caso de abuso, de violência doméstica. Mas agora… agora, sinto-me mais sábia que ontem e acredito que se ele mudou uma vez, pode mudar novamente. Da mesma forma, que a atitude do Mário mudou hoje comigo.

Falar no Mário, recorda-me a última vez que o vi, num dos momentos mais complicados e felizes da minha vida. A felicidade é bem óbvia, agora o complicado teve várias formas. Primeiro, pela discussão que tive com o seu pai do meu filho, pela verdade que descobri e principalmente pela memória que recuperei. Por incrível que pareça, voltei a ser uma mulher completa, que agora olha para o abismo através de uma ponte e não de um precipício. Sei do que sou acusada e mais do que isso, hoje conheço a minha verdade e posso construir a minha defesa. Mesmo assim, posso dizer claramente que a minha vida mudou e que nada jamais será igual. Principalmente porque mais uma vez, senti que o homem com quem partilhei momentos inesquecíveis, me desiludiu profundamente. Chega a ser irónica essa frase, quando a apenas alguns meses, mal me reconhecia ao espelho.

Em segundo lugar, pela complicação do parto em si. Quando cheguei ao hospital, tive de ser submetida a uma cesariana de emergência. Um dos motivos era por estar inconsciente e o outro porque tinha perdido muito sangue. Felizmente, o Mário tem o mesmo tipo sanguíneo que eu, o que me permitiu receber uma transfusão de emergência. Já que por incrível que apareça, o banco de sangue tinha poucas reservas, para as inúmeras necessidades.

— Bom dia querida. – Cumprimentou-me, chamando a minha atenção. – Como está o meu bisneto?

— Muito bem D. Lilian. Acabou agora de mamar e depois adormeceu.

Sorri deixando o meu livro de lado, antes de me levantar e caminhar até ao pequeno berço branco. Observando a pequena jóia da minha vida, no seu sono sereno, alheio a tudo a sua volta. O silêncio que se tinha formado com a adoração do pequeno, era confortável e enternecedor. Tanto que parecia que nenhuma de nós tinha coragem, de se afastar daquela bolinha de fofura. Até que a idosa estendeu a sua mão, para tocar de leve na pequena mãozinha fechada, quase coberta pelo seu body azul bebé.

— Teve uma altura, em que eu pensei que este dia nunca chegaria. – Confessou afastando-se do berço. – Nos últimos meses, eu vi o meu neto se transformar em outra pessoa, alguém frio, calculista, sem fé na vida ou no amor. Comecei a acreditar, que um dia o ia perder para sempre, absorvido no seu trabalho e nas noites de bebedeira.

Suspirou cansada, antes de observar o bisneto novamente e se afastar até a cadeira mais próxima, ao lado da minha cadeira de amamentação. Ela estava extremamente pensativa, mas a sua postura nunca deixava de ser elegante e sofisticada. O que chegava a ser uma mistura um pouco estranha, neste mundo infantil pintado de azul, com pequeno aviões, balões de ar quente e papagaios pelo ar.

— O Paulo sempre foi um menino de ouro, responsável, educado, atencioso, confiante. Ele tinha tudo, o que desejávamos para o próximo herdeiro da empresa. O futuro parecia promissor, perante a sua presença. Mesmo na sua adolescência, enquanto se perdia com as mulheres, ele mantinha aquele brilho. Nada o parecia abalar, até que te conheceu…

Por momentos tive medo do seu olhar, que me culpasse por tudo o que tinha acontecido. Por “danificar” o seu neto e o seu futuro promissor, mas não foi isso que eu vi. Nenhum julgamento estava refletido nos seus olhos, apenas paz e amor. Sentei-me ao seu lado calada e continuei a ouvir a sua história.

— Ele mudou muito quando se conheceram, andava mais feliz, motivado, sonhador. O meu filho viu isso como um risco para os seus planos, para o futuro dos negócios. Já eu, via como uma oportunidade, como uma lição que o faria amadurecer, tornar-se mais responsável e integro.

— Em vez disso, eu o destruí… – Baixei o olhar para os meus dedos e repreendi uma lágrima de cair.

— Não, nada disso. – Observei-a confusa. – Tu não o estragaste, apenas mostras-te o que ele ainda precisava de crescer. Que ainda não estava pronto para superar todas as dificuldades, se nem mesmo é capaz de confiar na mulher que ama.

— Ele acha que eu roubei a empresa, que ia fugir com o meu amante…

— É por isso, que ele ainda tem de crescer.

— Porque a D. Lilian não duvida de mim? Porque não me condena, me expulsa desta casa e o incentiva a tirar o meu filho? De onde vem tanta confiança?

Eu temi quando percebi o que tinha acabado de perguntar, mas eu precisava de saber.

— Porque eu conheço uma armadilha, quando a vejo. Eu sei que amas o meu neto e que nunca lhe farias tal coisa. Porque tenho sabedoria que chegue, para avaliar a personalidade de alguém e sentir-me segura sobre o meu julgamento. Porque sei, o motivo de ainda estares nesta casa, mesmo depois de teres sido tão rudemente acusada. E isso, nada tem haver com dinheiro ou poder.

Sem dizer mais nada, levantou-se e saiu do quarto deixando-me pensativa. Saber que alguém acreditava em mim, que me via como alguém que tinha sofrido uma injustiça. Parecia surreal, mas ao mesmo tempo, deixava-me emocionada e feliz. Voltei a levantar-me e fui até ao pequeno berço, tocando de leve nos pequenos fios pretos, que em breve seriam uma vasta cabeleira.

— A mamã vai ter de tomar uma atitude. – Sussurrei, para não o acordar. – Não sei se vai dar certo, se o teu pai um dia me vai perdoar ou mesmo se vou conseguir provar a minha inocência. Não sei se vou conseguir alguma coisa ou destruir tudo, de qualquer forma, a mamã vai tentar.

Era estranho, mas aquela conversa tinha me dado a força necessária para avançar, para provar o que precisava. Construir a minha defesa e depois, seguir com a minha vida. Fosse como fosse, eu não queria voltar para trás, não queria me arrepender de nada. Apenas desejava continuar com a minha vida, cuidar do meu filho e ser feliz. Claro que não me tinha esquecido do motivo de estar nesta casa e ainda queria que o pequeno Martin, tivesse uma boa relação com o seu pai. No entanto, para que isso aconteça, não preciso de fazer parte daquela empresa, ou mesmo de continuar nesta casa.

— Hoje será o dia.

Afastei-me do berço preparando-me para uma nova vida, uma a nova etapa que se aproximava. Tudo ia ser diferente e apenas eu, podia ditar essa mudança. Rapidamente, comecei a preparar-me para ela, pegando e procurando tudo o que ia precisar, para a minha expedição rumo ao futuro. Assim que deixei tudo em ordem, tomei um banho rápido, vesti umas calças elásticas pretas, e uma blusa branca com botões no peito para facilitar o processo de amamentação, quando ouvi um resmungar baixo.

— A mamã já vai. – Sorri certificando-me, que já eram horas dele comer. – Onde está o guloso da mamã, onde?

Disse estendendo os meus braços na sua direção, enquanto recebi um sorriso presunçoso. Podia existir coisa melhor neste mundo, do que ser mãe? Do que receber o amor incondicional de um pequeno ser, que nos recebe com o melhor sorriso desdentado. Eu não acho, que possa existir.

Assim que terminei de o alimentar, coloquei-o para arrotar, troquei a sua pequena fralda fedorenta e voltei a deitado na caminha, deixando-o com o móbil ligado. Assim que confirmei que estava tudo bem, sai do quarto e procurei pela D. Maria, que estava distraída a arrumar a cozinha.

— Maria, posso lhe pedir um favor?

— O que é menina. – Perguntou, desviando a atenção da tigela que estava a secar.

— Preciso que olhe pelo Martin por um bocado, enquanto vou tratar de uns assuntos.

— Claro que cuido dele menina, tenho muito gosto de cuidar do nosso pequeno. – Sorriu para mim, enquanto limpava as mãos. – Vai demorar muito a voltar?

— Não sei Maria, de qualquer forma ele acabou de mamar, já arrotou e lhe troquei a fralda. Tem aqui um biberão de leite, que tirei se for preciso é só aquecer. Glutão como é, pode não querer esperar pela mamã leiteira. – Sorri, pensando nas suas bochechinhas gordas, sugando o meu leite com vontade. – Ele está no berço, deixei o móbil ligado para se distrair, o monitor de bebé está aqui. Qualquer coisa é só ligar, que eu venho a correr.

— Tudo bem menina, não se preocupe ele vai ficar bem. – Conferiu a câmara rapidamente, antes de me dar um sorriso tranquilizador. – O nosso príncipe está seguro, eu tomo conta dele, pode ir descansada.

— Obrigada.

Dei um beijo na sua bochecha, analisei o monitor uma última vez e sai pela porta rumo a um novo destino. Primeiro passei num médico, assegurando-me do meu estado de saúde. Aparentemente eu estava bem, mesmo assim não sai de la sem antes marcar um check-up completo. De seguida, peguei um táxi até ao meu banco, onde o meu gestor de conta me esperava. Assim que dei a reunião por terminada, segui até ao escritório do meu mais novo concelheiro. O advogado, que eu havia acabado de contratar, para me ajudar na minha nova orientação. Depois de bem aconselhada, sobre a minha situação atual, os meus problemas e possíveis soluções, voltei a pegar outro táxi e dirigi-me a empresa. Era estranho voltar aqui, agora que me recordava de tudo. Agora, que conhecia a maioria dos rostos, que me fitavam curiosos. O mais estranho é que esta visita era o primeiro passo, de toda uma jornada que começaria em breve. E que me fazia temer por um futuro incerto, eu estava a jogar um jogo arriscado, mas isso era necessário para seguir com a minha vida e a minha independência.

— Bom dia Rute.

Cumprimentei-a assim que cheguei à sua mesa, quando se é “noiva” do presidente da companhia, não existe qualquer pessoa que nos barre a entrada. Ainda mais, quando o nosso noivado foi divulgado nas midias sociais.

— Helena? – Ela pareceu desconfortável, com a minha presença, mas isso não me abalou, não agora.

— O Paulo está? Preciso de conversar com ele.

— Ah… Não o Senhor Paulo não se encontra na empresa, teve uma reunião e encontra-se fora de momento.

Ela estava estranha, a sua postura estava desestabiliza, como a de uma criança que tinha sido apanhada a fazer uma travessura. Apercebendo-se que eu a analisava, corrigiu a sua postura, aclarou a sua voz e continuou.

— O presidente não volta até ao final da tarde, quer que deixe recado? – Desafiou-me com o olhar, ela queria jogar e eu estava disposta a entrar no desafio.

— Tudo bem.

Consultei as horas, no velho relógio da minha mãe. Encontra-lo, foi uma das maiores vantagens que recebi, no momento que recuperei a memória. Uma vez que o tinha perdido, uns dias antes, da festa que antecedeu a minha perda de memória. Por esse motivo, não existia forma nenhuma de saber que o tinha mandado para conserto. Sorte a minha que não deram a peça como perdida, depois de ter passado o prazo de levantamento e não terem forma de me contactar.

— Eu vou esperar de qualquer forma. – Disse virando para a porta, que dava acesso a sua sala.

— Como quiser. – Respondeu fria. – Onde vai?

Levantou-se de repente, cobrindo a minha passagem com o seu corpo. Quem raio ela pensava que era? Se ela achava mesmo, que me ia impedir de passar, estava muito enganada.

— Rute, sai da minha frente. – Pedi calmamente, enfatizando cada palavra.

— Desculpa, mas não podes entrar ali.

Ajeitou-se melhor, tentando parecer ameaçadora. O problema era que para mim, ela parecia apenas uma perua emproada, a tentar se fazer passar por uma gata pressa. Fofa, confiante, independente, que com um simples miar, ou uma ronronada, tem um mundo aos seus pés.

— Porque não? – Desafiei-a.

Agora que começava a voltar ao meu estado normal, sentia muito mais confiante. Era como se tudo estivesse a retomar para mim, a minha confiança, a minha vida, a minha independência. Antes não me sentiria capaz de a enfrentar, possivelmente me sentiria intimidada, frágil. Felizmente tudo mudou, ser mãe deixou-me mais forte, madura e responsável.

— Porque o Paulo, não quer que ninguém entre na sua sala.

Ela estava-me a esconder alguma coisa, podia sentir isso, mas o quê? Será que o Paulo esta mesmo, em uma reunião? Melhor, será que ele está mesmo em uma reunião, fora da empresa? Não, ele não seria capaz de ter uma reunião privada, em pleno horário de expediente, na sua sala… se bem… que já testamos esse campo no passado, não na sala da precedência, mas na nossa sala anterior. Mudar-nos para esta sala foi estranho, principalmente devido a um episódio tão triste. Recordar-me da morte do homem, que seria o meu sogro, deixava-me com uma sensação estranha no ventre. Como um dia, nunca pensei sentir por aquele homem, frio e arrogante. Mesmo após ter aceitado o meu namoro com o Paulo, eu sentia que ele não me aceitava totalmente, o que era um desafio. Acho que foi nesse momento, que aprendi a gostar de desafios. Que me aprendi a superar-me e mais do que isso, havia uma figura paternal na minha vida, que eu queria que se sentisse orgulho por mim. Por isso, nunca fizemos nada íntimo naquela sala e por isso, que mesmo depois de tudo que aconteceu, nunca deixarei que ele manche o que nós tentamos proteger.

— Rute, sai da minha frente agora. – Disse, aproximando-me devagar. – Não volto a pedir.

— O que vais fazer? Atropelar-me? – Sorriu debochada. – Com esse corpo de trator, não duvido que o faças.

— Para atropelar um esqueleto, não é preciso nenhum trator, querida… – Ironizei, reduzindo ainda mais a distância entre nós. – Um ventinho fraco era mais que suficiente, mas se quiseres, sim eu posso te atropelar, com o corpo de uma mulher de verdade.

— Isso veremos.

Agora foi a vez de ela reduzir a distância entre nós duas, mesmo assim eu não me mexi, muito menos me deixei abalar. A guerra tinha começado e agora que tinha recuperado a minha memória, tinha muitos mais motivos para a ganhar.

Continua…

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