Abismo – Capítulo 3

Acordei cedo na manhã seguinte, já me habituando ao meu estado de grávida esfomeada e com uma bexiga do tamanho de uma ervilha. Ainda ensonada, fui logo fazer as minhas necessidades, antes de matar a minha fome de urso. Deixei a minha higiene para depois, pois a minha fome não podia mesmo esperar e o meu bebé também já se remexia exigindo alimento. Quando terminei, voltei para o quarto e procurei alguma roupa que podia vestir, depois do meu banho. Quando abri o guarda-vestidos fiquei espantada, com a quantidade de roupa que o mesmo tinha. Muitas eram roupas de marca, modernas, elegantes e provavelmente bem caras, mas nenhuma servia para o meu estado atual.

— É oficial meu bebé, a mamã está gorda. – Ri sem humor do meu comentário. – O que eu vou vestir? Não tenho nenhuma roupa de gravida e não posso usar sempre o vestido que a Carina comprou, para eu sair do hospital. Preciso de ir as compras, será que o código do meu cartão multibanco, ainda é o mesmo?

Perguntava-me, enquanto me sentava na cama e olhava em volta, acho que era a primeira vez que observava atentamente o quarto. A decoração do mesmo era simples, apenas com os moveis básicos, de estilo simples em cru, as paredes eram bege e decorado com alguns acessórios coloridos. Foi então que eu reparei no enorme espelho, escondido atrás de algumas echarpes, caminhei na direção do mesmo, retirando os lenços um por um. A cada echarpe que tirava e deixava cair no chão, revelava um corpo e uma imagem que eu não conhecia. Formas que havia mudando com o tempo, com a doença e com a gravidez.

— Quem és tu?

Perguntei observando os olhos amendoados sem brilho e sem vida refletidos no espelho, o meu corpo estava tenso e o meu filhinho continuava agitado no meu ventre, como se tentasse me confortar. O ar quente típico da época, parecia ter ficado mais frio, provando-me um ligeiro desconforto e um mau pressentimento que parecia não querer ir embora.

— Pareço um fantasma, sem vida e sem graça. – Acariciei a minha barriga tentando conter as lágrimas que queimavam nos meus olhos. Enquanto observava a minha pele clara, que agora mais parecia uma folha de papel branca e opaca. – O que aconteceu? O que escondes de mim? Que segredo é esse, que ninguém pode saber e que escondes tão bem, que para isso tivestes de apagar seis anos da minha existência. E mesmo assim, deixas-me um restinho… uma pequena amostra do fruto de um passado, de uma felicidade que não conheço e que vai mudar a minha vida para sempre. Como podes ser tão covarde, como?

Chorei, sentindo o frio do vidro contra o meu corpo, junto com um ligeiro ardor na minha mão direita, resultado de ter batido com ela diversas vezes contra o mesmo. Esperando que por milagre o espelho, desse lugar a uma porta que me levasse a outro tempo e a outro lugar, onde o vazio e a dor não existiam. Onde a verdade era a lei, o amor era a força e a felicidade era um bem adquirido à nascença. Deixei o meu corpo deslizar de encontro ao chão e chorei mais uma vez, chorei pela minha dor, pelo meu passado perdido, pelo meu filho, por todos os que magoei e que iria magoar. Quando finalmente me acalmei, abastei os meus longos cabelos castanhos do rosto e procurei por alguma roupa que me servisse. Peguei numas velhas e largas leggings, que dobrei para ficarem abaixo da barriga e um grande e velho suéter, provavelmente de homem pelo tamanho. Depois da minha depressão enterrei-me no sofá, com o comando na mão e vários sacos de comida de plástico e sumos.

— Olá amiga. – Gritou a Carina feliz assim que entrou em casa e se separou do marido. – Assim vais ficar gorda, a comer tantos disparastes. Eu não quero o meu afilhado obeso.

— Cala a boca Carina, o meu filho esta ótimo e eu preciso de ganhar peso. Já viste o meu aspeto, pareço um esqueleto com pele. – Disse tirando o balde das pipocas, de cima da minha barriga, para o colocar na mesinha ao meu lado.

— Não sejas ridícula, tudo bem que nunca poste propriamente magra, mas também não estás mal assim, só precisas de um pouco mais de carne.

— Só um pouco mais de carne, Carina? Sério? – Perguntei já irritada, perante a expressão calma dela. – Se eu não estivesse grávida qualquer um, dos elegantes vestidos do meu armário, seriam largos. Autênticos sacos de batatas, como eles ficariam no meu corpo e tu dizes que eu só estou um pouco marga? Estás toda?

— Que camisola é essa? – Desconversou na hora.

— É uma camisola que eu encontrei no meu armário, deve ter ficado lá esquecida. Espero que o Xavier não se importe, mas era a única coisa que tinha para vestir. Além disso é bem confortável, dava um ótimo pijama. – Vi a minha amiga engolir em seco, de repente ela estava irrequieta no sofá, como se alguma coisa a incomodasse. Será que ela esta desconfortável, por eu estar a usar uma peça de roupa do seu marido? – Não sei porque, ela dá-me um certo… como ei de dizer, acho que conforto não é bem a palavra certa, mas também não sei explicar.

Continuei testando o nível de desconforto no seu rosto, apesar de não perceber se o motivo seria apenas ciúme, ou se existia algo mais, por trás daquele sorriso torto e dos olhos que não eram capazes de me encarar.

— Ah… será que o Xavier precisa de ajuda? – Disse atropelando as palavras. – Eu vou ajuda-lo a preparar o jantar, descansa um pouco enquanto.

Dito isto levantou-se e seguiu para a cozinha o mas rápido que podia, sem correr e sem olhar para trás. Não me dando a oportunidade de comentar o seu estado ou até mesmo, de fazer alguma pergunta. Ela manteve o mesmo estado de espírito, durante todo o jantar tentando fugir a qualquer pergunta minha. O que me estava a deixar, ainda mais intrigada e irritada com a sua reação.

— Quando é que eu vou conhecer o Paulo? – Perguntei no fim do jantar, de forma direta e sem rodeios, eu sabia o quanto ela andava a evitar aquele assunto.

— O quê? – Engasgou-se com a sua bebida.

— Eu quero ver o pai do meu filho o mais rápido possível, eu preciso de resolver a minha vida antes dele nascer.

— Mas…

— Sem, mas nem menos, mas Carina. – Interrompia. – Isso é algo que eu preciso de fazer, que eu vou fazer pelo meu filho, eu não posso continuar dentro desta casa a mofar. Eu sei que tens medo, que me queres proteger do meu passado, das consequências do mesmo. Que me queres afastar do Paulo e eu nem consigo imaginar o porquê, mas eu sei que preciso de fazer isto. Eu preciso de vê-lo, de recomeçar a viver novamente, de tomar as rédeas do meu destino.

— Helena tu não podes, tens de cuidar da tua saúde, tens de pensar no teu filho e não fazer coisas precipitadas. Já imaginaste o que pode acontecer? E se tens uma recaída, se desmaias ou pior, tu não podes…

— Chega. – Gritei levantando-me repentinamente da mesa. – Se não me vais ajudar, eu arranjo maneira de chegar até ele, custe o que custar. Por isso, vais ajudar-me ou não?

O cómodo ficou em silêncio por alguns momentos, enquanto eu fitava a minha amiga. Mais uma vez eu vi-a a ficar agitada e a se acalmar ligeiramente com apenas um toque do seu companheiro. O Francisco Xavier era sem dúvida, a sua alma gémea e isso ficava, claro para mim a cada segundo que os via juntos e comprovava a cumplicidade dos dois.

— Amor, talvez ela esteja certa. – Prenunciou-se, pela primeira vez sobre o assunto. – Lembras-te do que falamos ontem a noite e enquanto me ajudavas, a preparar o jantar? Talvez a verdade não seja tão má assim.

— Eu lembro-me, mas…

— Já chega de, mas amor. Confia nela, se calhar o trauma do passado não passa apenas de uma discussão estupida. Talvez ela tenha saído da cidade, por causa de algum trabalho na empresa e depois talvez tenha sido vítima de carjacking. Ela pode ter desaparecido por tantos motivos, porque te leva a pensar que o Paulo, é o centro de todo o mal? Talvez ele seja mais uma vítima, tal como ela o é.

— Não o defendas, a vossa solidariedade de homem, não está a ajudar nesta situação. Ela é como uma irmã para mim, eu não posso a deixar sozinha e não posso a deixar cair. Eu terei falhado se isso acontecer. – Discutiam como se eu não estivesse mais ali, o seu olhar suplicava por ajuda e compreensão, enquanto ficavam cada vez mais brilhantes por causa das lágrimas que se formavam.

— Eu não sou nenhuma boneca de porcelana. – Disse por fim, quebrando a cumplicidade dos dois. Enquanto, observava a primeira discussão do casal, julgava eu, não podia ter certezas sobre isso. Aproveitei para me voltar sentar-me na cadeira e continuei. – Eu não quebro tão facilmente, ainda mais quando uma vida depende da minha, nada de mal vai acontecer connosco eu não vou permitir. Confia em mim, irmã.

Supliquei com os olhos chorosos, enquanto ela pensava de olhos fixos nos meus, até baixar a sua guarda e desistir.

— Ok. Amanhã depois da tua consulta do psiquiatra, se estiver tudo bem, eu levo-te até ele.

— Obrigada. – Disse por fim, feliz por finalmente ter o seu apoio.

— Essa camisola… não era do Xavier. – Disse de repente, levantando-se da mesa enquanto, juntava a louça suja. – Ela era do Paulo. Eu lembrei-me quando falaste que ela é confortável, como um pijama.

— Como assim? – Estes dilemas estavam a deixar-me sufocada, eu descobria a cada dia uma ligação e um passado tão forte que me assustava.

— Eu vi-te… tu as vezes usava essa camisola, como um pijama… – Fez uma pausa, observando-me de canto antes de continuar. – Quando o Paulo não estava em casa e por algum motivo tinha de passar a noite fora, esse era o teu pijama. Disseste-me que essa peça te trazia conforto, como se pudesses senti-lo ao teu lado, quando a usavas. E depois do que ouvi hoje, ela ainda tem o mesmo poder sobre ti, a tua mente pode o ter esquecido, mas o resto do teu corpo… certamente não o fez.

Dito isto, saiu da cozinha deixando-me a mim e sozinha com o Xavier, ainda a digerir aquelas palavras. Ao contrário de mim, ele levantou-se calmamente e foi terminar o serviço que a mulher deixou a meio.

— Ela ama-te como se fosses a tua irmã de sangue, talvez até mais do que isso. – Disse ainda de costas, enquanto lavava a louça. – Quando desaparecestes ela entrou em pânico, deu queixa na polícia, visitou hospitais, clínicas, procurou por becos e até nas morgues. Fartou-se de tentar confortar o Paulo, de o acusar de não te amar, de ser irresponsável, imaturo e sei lá mais o quê. Ela teria sido despedida se não fosse pela D. Marília, a mãe do Paulo.

— Eu não sabia. – Olhei nervosa para as minhas mãos juntas, tentando mais uma vez conter o choro. Como uma gravidez, pode pôr uma pessoa constantemente em extremos, como se passasse a vida na beira de um abismo. E eu nunca fui muito do tipo de chorar, nem com a morte da minha mãe eu chorei tanto, como nos últimos meses. – Desculpa eu…

— Não precisas de pedir desculpas, ela voltaria a fazer tudo novamente e eu sei que fazias o mesmo por ela. – Disse ao mesmo tempo que limpava as mãos ao pano da loiça, depois de terminar as suas tarefas. Ao fim de alguns minutos em silêncio, pousou o pano na bancada e apoiou-se na mesma cruzando os braços. – Eu não te culpo por nada, nem nunca te vou culpar, eu sei da importância que tens para a minha esposa. Conheço a tua história, o teu passado e sei que nada do que aconteceu foi de propósito. Alguma coisa aconteceu naquele dia, seja o que foi, apenas tu sabes e não podes dizê-lo. Talvez o Paulo também saiba de alguma coisa, mas ele não se pronuncia sobre nada, apesar de que pelo que eu sei, ele também mudou.

— Como assim mudou? – Ele observou-me algum tempo, observou a porta por onde a mulher tinha saído e depois tomou coragem para se aproximar de mim. Abastou a cadeira ao meu lado e sentou-se bem na minha frente, tomou as minhas mãos nas suas e continuou.

— Eu não sei muito, não o conheço muito bem. Nos passávamos muito tempo juntos, mas ele normalmente não vinha, era muito raro quando isso acontecia. Por isso o que eu sei, soube-o através da Carina ela sempre conviveu mais com ele, do que eu. – Fez uma pausa e mexeu se desconfortavelmente na cadeira, como se aquilo o incomodasse.  – Depois que desaparecestes, ele tronou-se uma pessoa reservava, fria, vive do trabalho e não se conhece traços da vida pessoal. Há quem diga, que desistiu de ter uma vida privada, depois que sumiste.

— Achas que ele ainda me ama? – Sussurrei com a voz trémula e o coração a bater a mil a hora.

— Esse pode ser um dos motivos.

— E qual seriam os outros? – Perguntei curiosa.

— Esses, iremos descobrir quando recuperares a memória.

Sem dizer mais nada levantou-se abandonando-me ali, sozinha e perdida num turbilhão de pensamentos. Eu desejava recuperar tanto a minha memória, da mesma forma que temia cada vez mais pela verdade. Eu não sabia que a porta que eu estava prestes a abrir, podia trazer uma verdadeira tempestade junto. Contudo não abri-la e viver na sombra da pessoa que um dia fui, era um tormento tão grande, que me deixava sem ar. Eu não queria ser cobarde, eu não podia ser cobarde, não apenas por mim, mas também pela criança que carregava no meu vente. Amanhã seria o dia, eu finalmente abriria a porta do meu passado e o enfrentaria as cegas. Engraçado é que apesar de todo o medo, eu sentia-me em paz com a minha escolha e acreditava que no fim da tempestade, eu descobriria um lindo arco-íris.

Continua…

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