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Abismo – Capítulo 4

Hoje acordei cheia de energia, finalmente ia conhecer o homem que tem assombrado os meus dias e certamente obteria algumas respostas aos meus dilemas. Pelo menos assim eu espero e foi por esse mesmo motivo, que saí de casa bem cedo. Hoje seria o dia que a minha vida mudaria, de encontro a um novo destino, muito mais do que no dia que acordei do coma. Por esse motivo, que o meu dia se iniciou com uma ida ao banco, eu precisava de ter acesso ao meu dinheiro. Não posso viver às custas de outras pessoas, principalmente com um bebé a caminho, eu tenho de tomar poder sobre o meu futuro. Assim que resolvi todas as formalidades e depois de me assustar com a quantidade de zeros, que eu não esperava, na minha conta bancaria. Segui para o consultório do meu novo psicólogo, onde mais uma vez tive de responder as perguntas irritantes sobre os meus sentimentos e as minhas recordações. Eu odiava psicólogos desde a morte da minha mãe, sempre com a mesma pergunta irritante…

“O que sente, em relação a morte da sua mãe.”

O que raio uma criança com apenas 17 anos pode sentir, em relação a morte da sua própria mãe. O seu único parente vivo, o meu único apoio, o meu alicerce. Claro que toda a minha vida desmoronou naquele dia, mas isso também me tronou mais forte, mais capaz, mais lutadora. O que eu podia sentir sobre esse assunto? Que sentimentos eu ainda posso ter, sobre esse tema? E hoje… que sentimentos eu posso ter, sobre a minha vida? Sobre o facto que acordei de um coma de cinco meses, grávida, sozinha e sem memória. Eu nem sei mais quem eu sou, como posso saber o que realmente sinto sobre isso? A única coisa que eu sei, é que hoje o meu filho é o meu tudo e é por ele, que me tenho de levantar todos os dias. Tal como a minha mãe o fez, quando soube sobre a minha existência e não tinha o meu pai, ao seu lado para a apoiar.

Quando eu sai do “inferno” sobre a minha vida, fui para o shopping mais perto, eu precisava de gastar o tempo livre que me sobrava. Apesar que também, necessitava de fazer umas compras bem urgentes e necessárias, mas antes de tudo eu tinha de comer. Comer e ir à casa de banho, trona-se umas das maiores necessidades do mundo, quando se chega nesta fase. Depois de tratar de todas as minhas necessidades físicas, foi a vez de me perder no mundo da pré-mama. Na dúvida, comecei primeiro pela roupa de grávida, antes de me perder no pequeno mundo do bebé. Claro que comprar roupas para mim foi bem fácil, alguns vestidos, calças, blusas, sutiãs de amamentação. Agora na secção de bebé, a história foi completamente diferente, tantas escolhas, tantas peças fofas e minúsculas, que não sabia o que fazer. Felizmente a empregada foi bastante simpática e ajudou-me a escolher, em pouco tempo tinha três sacas com body, macacões, meias, sapatinhos, calças, camisolas, casacos, pijamas, babetes, fraldas de tecido. Uma verdadeira loucura, em tamanho reduzido.

— Olá amiga. – Atendi o telefone ao segundo toque.

— Como foi no médico Helena? – Perguntou preocupada e sem rodeios. Eu é que ia ser mãe, mas era ela que agia como uma, as vezes até se tronava engraçado ver as suas reações.

— Correu tudo bem, sabes como são os psicólogos, cobrem-te de perguntas e depois passam o resto do tempo a escrever e a murmurar coisas sem sentido.

— Não digas disparates Helena, sabes que ele só está lá para de ajudar. – Resmungou irritada.

— Eu sei Carina, mas eu estou bem. – Suspirei profundamente. – Não uses o meu estado contra mim, eu não quero usar a minha falta de memória, como uma desculpa para não enfrentar o meu passado. E também te peço, que não o faças. Se eu não resolver as minhas coisas, se não encarar os meus problemas de frente, eles só vão ficar maiores e maiores. Se isso acontecer, eu só vou ter duas opções, fugir deles para sempre ou os enfrentar e lutar. Sinceramente, eu prefiro resolver os meus problemas de vez, antes que isso, afete a vida de outro ser vivo.

— Ok… ok, entendi. – Foi a vez de ela suspirar. – Eu não vou mais lutar contra ti, vou fazer o que tu queres, só espero que estejas pronta, para enfrentares o touro pelos cornos. Pois acredita Lena, não vai ser nada fácil. O caminho que estás a escolher, está cheio de pedras e armadinhas, vai ser doloroso, podes até nunca mais te levantares desta, mesmo assim estás pronta?

— Sim eu estou. – Disse convicta.

— Ok, eu confio em ti. – Fez silêncio por momentos. – Vem para a empresa, eu vou tratar de tudo, quando chegares avisa.

Dito isto desligou, deixando-me nervosa pela primeira vez, neste dia. Apesar do desconforto no meu coração, peguei num táxi e dei a morada da empresa. Apesar de terem se passado anos, para mim parecia que tudo tinha acontecido recentemente e que foi ontem, que eu entrei pela primeira vez naquela empresa. A entrevista tinha corrido muito bem e eu passei todas as fases, sem grande dificuldade. Só que eu simplesmente não sabia, o que ia enfrentar dali em diante. O senhor Alberto era um homem extremamente rigoroso, exigente e viciado em trabalho, sempre pronto a criticar o mais pequeno defeito. Ao ponto que apenas a sua presença na sala, era capaz de intimidar, não só pelo seu físico, mas também pela sua personalidade. O meu patrão era um homem alto, e de estrutura larga, cabelos pretos e olhos castanhos, com cinquenta e poucos anos. Ele tinha tomado o lugar na presidência da empresa, logo após o falecimento do seu pai, o fundador da Melro & Silva.

Perdi tanto tempo nos meus pensamentos, que nem me apercebi que já tínhamos chegado ao destino. Ainda avoada, paguei ao motorista e sai do carro observando o imponente edifício envidraçado. Por cima da porta da entrada em letras tridimensionais, em tons de dourado e prateado estava escrito Melro & Silva. Despertando do meu transe, peguei no telemóvel para avisar a Carina da minha chegada.

— Olá, já estou cá em baixo. – Falei prendendo a respiração.

— Então, vamos dar início ao espetáculo. – Disse sem grande animação na voz.

— Espetáculo?

— O Paulo, não te quer ver. Ele disse me isso, pouco antes de te encontrar no hospital e por esse motivo, eu não o avisei que tinhas voltado. Muito menos que hoje vinhas à empresa, para conversares com ele sobre o vosso filho. – Suspirou. – Felizmente a rececionista e o segurança são novos e por isso não te conhecem, então não corremos o risco de eles informarem alguém. Eu avisei-os que estava à espera de uma pessoa, que ia trazer uns documentos importantes, que eu tinha esquecido e pedi para te deixarem subir. Principalmente porque o meu chefe, não podia saber do meu suposto esquecimento.

— Ok. – Disse em modo automático, tentando processar tudo.

— Sobre até ao meu andar, é o mesmo de antigamente. Daqui, podemos seguir juntas para a presidência. – Baixou ligeiramente o seu tom de voz. – Temos de ser rápidas, antes que por acaso te cruzes com alguém conhecido. Estou a tua espera na entrada do elevador, mantei o teu rosto baixo e evita olhar para as pessoas, agora sobe.

Dito isto desligou, deixando-me ansiosa e ao mesmo tempo cheia de medo, relembrando toda a conversa da noite anterior.

— Um abismo, é tudo o que me espera.

Pensei em voz alta, quanto massajava a barriga, ganhando coragem para me atirar de cabeça. Naquele que possivelmente seria o meu maior pesadelo, ou talvez, o meu maior sonho, ou melhor a continuação do sonho esquecido. Em modo automático entrei na luxuosa receção, atenta apenas aos movimentos das pessoas, tentando não ser reconhecida. Talvez até tenta-se parecer invisível, o problema era mesmo o meu tamanho, nenhuma barriga de gravida escapa aos olhares dos outros. Principalmente ao olhar das mulheres que me rodeavam, ao menos esperava que ela fosse distração suficiente, para não verem o meu rosto. Estava tão distraída e ao mesmo tempo preocupada, que nem me apercebi que as portas do elevador tinham se aberto. Vi a Carina entrar silenciosamente no elevador e fechado de imediato antes que alguém me vise. Então mais uma vez eu perdi-me nos meus pensamentos, até que o elevador parou e um longo corredor branco se abriu aos meus olhos.

— Temos se ser rápidas já que aqui todos te conhecem, mas o maior obstáculo, está na frente da porta da fera. Como toda a toca do inferno, é guardada por um animal infernal, está não é exceção. Aquela mulher é uma víbora gananciosa, ou melhor uma viúva negra, que usa o seu corpo e charme para iludir os homens. Tudo para obter aquilo que quer e depois, quando eles não lhe são mais uteis, os descarta feito lixo. – Cuspiu com raiva. – Infelizmente não tu trabalhas-te tempo suficiente com ela, para a colocares daqui para fora, quando ela se revelou tu já tinhas ido embora.

— Eu…

— Seja o que for não precisas de dizer, já sofres demasiado por um passado que não conheces, não te tortures mais com ele do que o necessário. Eu nem queria trazer-te aqui, só o fiz porque sei o quanto tu és teimosa e o quanto sentiste a falta de um pai na tua vida. Principalmente… principalmente, quando a tua mãe faleceu e tu ficas-te sozinha no mundo.

— Eu não fiquei sozinha. – Disse fazendo com que ela, finalmente me encarasse com atenção, coisa que não fazia desde a noite anterior. – Tu estavas lá comigo. Tu e toda a tua família, vocês acolheram-me, deram-me um lar, uma família, amor, carinho, uma oportunidade… Tudo o que eu poderia querer, tudo aquilo que eu precisava e por isso eu tenho de fazer isto pelo meu filho. Porque também ele precisa de uma família, uma família de verdade, eu não lhe posso tirar isso. Por mais que eu saiba, o quanto pode ser importante e reconfortante, ter uma família que nos escolhe com o coração e não por obrigação.

— Ok eu percebi. – Olhou em volta, com uma expressão que era um misto de derrota e preocupação, antes de respirar fundo e continuar. – Agora temos de ir. Eu vou distrair a megera da Rute, quando ela tiver distraída corres em direção à porta da presidência, a grande em carvalho no funco do corredor.

— Ok.

— Por favor, não exageres. – Suplicou. – Podemos voltar a tentar noutra altura, quando tiveres mais… preparada.

— Eu estou bem. – Afirmei sem muita convicção.

— Ok. – Suspirou frustrada. – Vamos a isso.

Em pouco tempo, ela tinha cativado toda a atenção da mulher de cabelos longos pretos e corpo de modelo. Pouco a pouco, aproximei-me da porta, cada passo que eu dava de encontro a mesma, era como se me aproximar-se de um grande precipício. E mais do que isso, era como se bater naquela porta fosse o mesmo, que me atirar de cabeça num poço escuro e desconhecido. Tentando controlar o frenético bater do meu coração, eu fechei os olhos, cobri a minha barriga com as mãos e respirei bem fundo, várias vezes. Quando finalmente os abri, levantei a minha mão e bati na porta, meia desajeitada com os sacos de compras que ainda carregava. Assim que ouvi um resmungo, parecido com um entre, abri a mesma deparando-me com uma enorme sala de moveis escuros.

— O que foi agora Rute? – Resmungou frustrado. – Eu não pedi para não ser incomodado?

Se eu achava que o som daquela voz rouca, já tinha provocado estragos suficientes no meu coração, estava bem enganada. No fundo da sala, atrás de uma imponente secretária em “L”, estava um homem focado na tela do seu computador, enquanto digitava alguma coisa. O seu cabelo preto, estava perfeitamente aparado, o seu rosto mantinha uma expressão seria e sexy ao mesmo tempo, principalmente quando contraia de leve os lábios.

— Eu não sou a Rute.

Disse com dificuldade, enquanto avançava alguns passos para pousar os sacos que carregava, em cima de um dos sofás, que existia do meu lado esquerdo. Ao mesmo tempo que tentava aliviar a tenção, que caia sobre os meus ombros e o aperto que se tinha formado no meu coração. No mesmo instante em que larguei os sacos, um arrepio percorreu-me a espinha e todo o meu corpo começou a tremer, como se estivesse com frio. Olhei para o homem atrás da secretária, que mesmo sem se mover, vi adquirir uma expressão mais fria e o seu corpo ficar tenso. O ato parecia sobressair os seus músculos, por baixo da camisa branca, deixando-me a pensar como seria toca-los. Devagar ele levou a mão a sua gravata azul marinho e alargou ligeiramente o nó, parecia que a mesma o sufocava, a ponto de o estrangular. Ainda com a mão no nó, ele virou o seu rosto lentamente para mim, da mesma forma aterradora que acontece nos filmes de terror. Dando-me pela primeira vez, um deslumbre dos seus lindos olhos castanhos, que pareceram brilhar por um momento, antes de escurecerem.

— O que fazes aqui? – Rosnou como um cão raivoso.

— Eu… eu… – Gaguejei nervosa, sentindo o ar a escapas-me dos pulmões. – Eu… vim conversar…

— Nós não temos nada para conversar, a nossa conversa terminou no dia que foste embora. – Interrompeu-me demonstrando toda a sua raiva por mim, enquanto se aproximava sem desviar o seu olhar, do meu rosto. – Não tens nada para fazer aqui, eu não tenho mais nada contigo e nem quero ter. Para mim, tu estás morta… Morta.

Falou de forma fria e rude, tão perto que eu era capaz de o tocar, no entanto era como se um vento cortante estivesse entre nós. Parecendo desconfortável ele baixou o olhar, depositando os olhos na minha volumosa barriga, onde se demorou bastante tempo. Naquele momento eu entrei em pânico, afetada pelas suas palavras e pelas suas ações. Tanto que instintivamente cobri a minha barriga, com o instinto de proteger o meu filho, do mal que ele lhe podia fazer.

— Esse é o assunto, que tens para falar comigo? – Disse apontado para a minha barriga, enquanto ainda a observava. Se antes eu o achava tenso, agora parecia uma estatua, mesmo assim havia algo nele que eu não sabia explicar.

— Paulo?

Tentei fazer com que ele me olhasse, eu precisava de ver o seu olhar, de ver alguma emoção, positiva sobre o fruto daquilo que um dia tivemos. Alguma coisa que mostra-se que ele, ia amar aquela criança e que ia ser um bom pai para ele, algum tipo de emoção onde me pudesse agarrar.

— Vais dizer que estás arrependida e que o filho é meu, é isso? – Riu com escarnio, afastando o olhar do meu ventre, para algum lugar distante. – Eu não acredito eu ti, esse filho não é meu, não me vais voltar a enganar. Eu não sou mais o mesmo homem, que se deixou levar pelo teu jeito inocente e meigo. Eu já vi o teu outro lado, cai uma vez, não volto a cair. Nada que digas agora, ira mudar a minha decisão, por isso podes sair por aquela porta agora mesmo e não voltes nunca mais. Porque tu desde aquele dia estás morta, MORTA.

Naquele momento eu não sabia mais o que pensar, como eu podia me ter relacionado com um homem assim. Como ele podia dizer que eu estava morta, não existe palavra pior, para se dizer a alguém. Eu não sabia o que tinha acontecido, para ele me odiar assim, mas o sentimento que estava preso no meu peito era sufocante e doloroso. As lágrimas ardiam nos meus olhos, a minha respiração estava mais rápida, tal como os batimentos do meu coração. A minha cabeça latejava, em busca de alguma coisa útil, qualquer coisa que pudesse usar para me defender ou pelo menos entender o que tinha acontecido. Era tanta coisa, tantas emoções, tanta informação, que eu me sentia tonta e sem forças. Lentamente vi a minha visão escurecer e meu corpo ser vencido pela gravidade, mas antes de poder tocar no chão senti duas mãos, grandes e fortes em volta do meu corpo. E podia jurar que senti algum desespero, na voz que repetia o meu nome vezes sem conta, antes de apagar.

 

Continua…

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