Cloe Fenix

Abismo – Capítulo 5

Porque a realidade pode se comparar a um pesadelo, mesmo que nós estejamos acordados? Tudo porque aquela maldita porta, não é capaz de se abrir, nem de ranger… parece que foi soldada, para que nunca revelasse o seu segredo e mesmo assim, parece que a solda não é perfeita. Então sem motivos aparentes, ou por todos os motivos do mundo, um pequeno sopro de ar é libertado. Tão simples, mas tão poderoso que é capaz de me derrubar e destruir, mas também de me trazer uma grande alegria e magia. Que abismo eu fui escolher? Porque a porta que não quer ser aberta, parece querer me destruir.

— Ela parece tão pálida, eu diria que a pulsação está boa, mas… é melhor ela ser vista por um médico, ainda mais estando grávida. – Ouvi uma voz feminina, exclamar preocupada, mas eu não queria acordar, não ainda.

— Eu sabia que não ia dar certo, tu és um demónio que engravidou a minha querida irmã. Iludiste-a com um falso amor, com uma falsa felicidade e tudo porquê? Para a destruíres? Para a roubares de mim? Nunca vais tirar a minha irmã de mim, a Lena apareceu na minha vida, para se tornar a minha melhor amiga e a irmã que o meu coração escolheu. Eu nunca vou deixar que me tires isso, muito menos devia ter deixado, que ela se apaixonasse por ti, que a levasses embora para a tua casa. Tu és um mostro, sem coração que não merece a felicidade de ter uma mulher como a Lena e o filho que está para vir. Um pequeno guerreiro, que sobreviveu a tudo e que manteve a sua mãe viva depois de tudo que lhe aconteceu.

— Não fales do que não sabes.

Ouvi as palavras rancorosas do Paulo, ele parecia esconder tanto, por trás daquela voz. Parecia realmente magoado e sofrido, era por isso, que eu ainda tinha mais medo, medo de voltar para a realidade. Medo do segredo, escondido por trás daquela maldita porta.

— Eu sei muita coisa, mesmo não sabendo tudo.

Continuou discutindo com ele, ela parecia querer libertar a sua raiva, mas mais do que isso. Talvez ela apenas precisa-se de canalizar toda a sua frustração, principalmente porque não era difícil me proteger dos perigos que me rodeavam. Ainda mais, quando o maior perigo que enfrento, é um segredo tão bem guardado, que está selado por trás de uma porta blindada.

— Ela podia ter morrido, o meu afilhado podia nunca ter crescido e eu, nunca saberia de nada. Ela seria enterrada numa campa qualquer, vazia e fria, sem ninguém para lhe levar flores. Sem ninguém que chorar-se a sua morte, enquanto eu a procurava, me culpando de tudo e pior… culpando-a por ter desaparecido, sem ao menos me avisar. Ela perdeu tudo, pai, mãe, qualquer réstia de família que o seu sangue carregasse, apenas sobrando-lhe o coração. E o que tu fizeste? Pegas-te no coração, que ela amavelmente te entregou e pisas-te bem fundo nele. Não sei porquê e nem quero saber, apenas quero a proteger, criar uma vida nova para ela. O problema, é que no meio disto tudo existe um bebé, que tal como a minha amiga, ele merece conhecer o pai. É a compaixão que ela tem pelo filho, pelo sentimento de crescer sem um pai, que eu aceitei a trazer aqui. Que eu pensei que estaria tudo bem, que apenas cinco minutos não seria um problema. Claro que tinha de estar enganada, não demorou dois minutos se quer e já a tinhas deitado por terra. Canalha.

— Então é por tua culpa, que ela entrou na minha sala? Eu já devia estar a contar, claro que ela tinha de ter uma espia na minha empresa, não podia ser de outra forma. – Senti algum sacarmos no seu riso. – Devia ter percebido isso mais cedo, mas nunca é tarde para corrigir um erro. Estás despedida.

Senti um pequeno desespero, acrescer no meu peito, quando ouvi aquelas palavras. A minha garganta começava a fechar-se e a escuridão envolvia-me novamente. Não… não posso deixar-me levar, não posso deixar a minha amiga sofrer por minha causa, eu tenho de lutar. Não posso deixar os outros lutarem por mim, não posso ser fraca. Se eu fui capaz de acordar do coma, se eu fui capaz de sobreviver, então tenho de continuar e lutar.

— Ninguém vai ser despedida. – Ouvi outra voz feminina declarar, para meu alívio. – O que aconteceu com a minha nora, Carina?

— Nora? – Riu-se sem humor. – Quem é nora de quem, mãe? Ela nunca foi, nem nunca será a minha esposa.

— Isso veremos. – Fez uma pausa. – Agora Carina, fala-me o que sabes, sobre o estado da minha NORA.

Abri lentamente os meus olhos, enquanto a Carina contava como me tinha encontrado e qual era a opinião do médico sobre a minha saúde. Estavam todos tão atentos as palavras da minha “irmã”, que nem se aperceberam que tinha acordado.

— D. Marília, eu agradeço por defender a Helena e por proteger o meu emprego, mas…

— Eu não quero ouvir nenhum, mas… eu ouvi que chegue hoje e já tomei a minha decisão. – Disse a mulher elegante de cabelos castanhos. – A Helena vai se mudar hoje, para a minha casa e o Paulo vai cuidar dela.

— Como assim, eu vou cuidar dela? – Respondeu exaltado. – Eu não vou tomar conta de ninguém, ela não é, nem nunca será a tua nora e aquele filho não é meu.

— Cuidado com a forma que usas, para falar com a tua mãe. – Respondeu a mulher mais velha, de cabelos grisalhos, sentada numa poltrona mais abastada. – Ela não te deu uma escolha, deu-te uma ordem e vais a cumprir.

— Nem pensar avó, eu não…

— Devias ter pensado nisso antes de a engravidar e de os trazeres para a nossa vida, agora é tarde. – Sorriu orgulhosa, enquanto a sua postura demostrava a autoridade, que só uma matriarca da família sabe ter. – Tu vais cuidar deles sim e quando o meu bisneto nascer, fazemos um teste de ADN, caso ainda tenhas dúvidas sobre a sua paternidade. O que não adiantará de muito, porque até lá já estarão casados, pelo civil pelos menos. Deixaremos a festa pela igreja, para depois do parto, assim teremos mais tempo e calma para planear tudo.

— Não me pode obrigar avó. – Apertou o copo com tanta força, que ia jurar que tinha ouvido um estalido fraco do vidro.

— Se queres continuar no posto que estás, sim eu posso. – Sorriu com o desafio, sem tirar os olhos do neto, levantou-se devagar e aproximou-se dele. – Não te esqueças, que eu ainda detenho 40% das ações da empresa, a tua mãe detém outros 30% e os restantes 30% então divididos entre ti e o teu irmão. Que poder tens, para me dizeres não?

O Paulo não disse uma palavra, apenas engoliu de uma só vez o líquido âmbar do seu copo e olhou para mim. Os seus olhos transmitiam uma raiva, tão forte que eu podia ver as chamas escurecerem os seus lindos olhos. E as feições do seu rosto de tronarem rígidas, provocando-me arrepios desagradáveis pelo meu corpo. Como um ato de proteção, a minha amiga que observava a cena calada, tapou o meu corpo com as mãos. Enquanto, as duas mulheres de costas para mim, se posicionaram na minha frente, tapando a minha visão.

— Que seja… – Resmungou dirigindo-se ao bar, para voltar a encher o seu copo.

— Não é preciso. – Disse com a voz trémula, chamando a atenção de todos.

— Helena, ai meus Deus… Helena, por favor não me assustes assim. – Pediu ajudando-me a sentar. Para quem estava tão preocupada, demorou muito tem a perceber que tinha acordado.

— Eu não vim aqui para pedir cuidados, apenas queria conhecer o pai do meu filho, saber quem ele era e que tipo de pai poderia ser. Quero que o meu filho, tenha o que eu não tive… um pai que o amasse e estivesse sempre presente. – Respirei fundo fazendo uma pausa e depois continuei. – Mas o Paulo, não quer ser o pai desta criança, ele recusa-se a admitir que este bebé, é sangue do seu sangue. Eu não sei o motivo, não me lembro de nada… quando eu acordei e vi a minha barriga. Eu… eu… – Respirei fundo, afastando a lembrança do gosto amargo e da dor que senti, quando descobri a gravidez. – Pensei que tinha sido violada, eu ainda não tinha descoberto, que o passado tinha sido apagado, não sabia nada sobre a amnésia. É difícil para mim explicar este momento, o que senti quando te vi Paulo, eu não me recordo de ti. Não sei o porquê de existir toda essa raiva, tanta dor e sofrimento. Realmente eu não sei nada, nem quero nada de ti. Se não fosse por este bebé, provavelmente nem teria mexido no passado, mas ele existe. Como mãe é minha obrigação protegê-lo e dar-lhe tudo o que ele pode precisar, mas eu não lhe posso dar o amor de um pai. Tal como a minha mãe, mesmo lutando tanto, nunca conseguir me dar o amor de um. Ao mesmo tempo não quero que o meu filho tenha um pai por obrigação e sim um que o ame. Esse é o único motivo que aqui me trouxe, a única coisa que para mim era importante saber, infelizmente parece que a história se repete.

— Não te preocupes querida, a história não se vai repetir. – A mãe do Paulo, aproximou-se de mim e sentou-se ao meu lado para me encarar olhos nos olhos. – Ele apenas está em choque, com o tempo tudo se vai resolver, mas a distância agora não ajuda.

— Confia na sabedoria, desta velha idosa. – Sorriu a outra mulher, sentando-se à minha frente. – Eu conheço o meu neto, vi a vossa relação começar, mas não sei porque terminou. Acredito que tenha sido um grande mal-entendido, por isso tudo vai se resolver em breve.

— Mas eu… não posso fazer isso com ele, com o meu menino, não seria justo.

Abracei a minha barriga, imaginando o quanto doloroso podia ser, um pai rejeitar a atenção do seu próprio filho. Mais ainda, sentir-nos odiados pelo nosso próprio pai. Prefiro que ele não tenha pai, a ser odiado por ter um.

— A vida raramente é justa, minha filha. – Segurou nas minhas mãos, tentando-me confortar. – Porque acreditas que ela será agora, separando dois amantes, quando uma criança está para chegar ao mundo.

— Eu não sei. – Lamentei abaixando o meu olhar.

— Tu podes ter esquecido do passado, mas o meu neto não se esqueceu e não vou deixar que ele o apague, só porque quer. Não vou deixar, que a vossa relação morra em vão, ainda mais quando o meu bisneto está a caminho. Já agora, é um menino certo?

Perguntou com os olhos brigantes e um sorriso terno no rosto, ao menos alguém nesta família estava feliz com a notícia. O meu filho podia não vir a ter um pai, mas ao menos teria uma avó e uma visa-avó, que o iriam amar. Isso já era mais, do que eu alguma vez tive, só espero que seja o suficiente.

— Sim é. – Acariciei a minha barriga feliz, recebendo um pontapé em resposta.

— Um menino bem agitado. – Sorriu emocionada, tocando timidamente na minha barriga. – O Paulo também era assim, a minha barriga parecia um estádio de futebol. Aqui entre nós, ainda bem que ele era o único jogador em campo.

Ri com a sua piada, sentindo-me integrada pela primeira vez, era bom sentir aquele carinho e amor. Como eu já não sentia a muito tempo, foi inevitável não me lembrar a minha mãe e como ela ia adorar o neto. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto, enquanto acariciava a pequena medalha, que a minha mãe me tinha dado antes de morrer.

— Sentes saudades dela? – Perguntou a Carina puxando-me ao seu encontro, enquanto as duas mulheres engataram uma conversa animada sobre quartos e bebés.

— Muito e ainda mais agora.  – Deitei a cabeça no seu ombro e suspirei. – Queria que ela estivesse comigo nesta fase, que me desse os seus conselhos e que me estragasse de mimos.

Mordi de leve o meu lábio tentando não chorar, eu precisava me abstrair de todos aqueles sentimentos. Quando senti o seu olhar intenso sobre mim, rapidamente olhei na direção do Paulo, encontrando os seus olhos sobre o copo. Quantos ele já teria bebido? Engoli em seco apercebendo-me, que daqui em diante veria aquele olhar frio, todos os dias. A minha vontade, era de sair a correr e me esconder na primeira esquina que encontrasse. Aquele homem parecia um predador, prestes a atacar a sua presa indefesa, eu seria o prato principal e o meu filho a sua sobremesa. Senti os meus olhos arder com as lágrimas por derramar, realmente não sabia como um dia fomos amantes. Muito menos sabia, como teríamos um casamento com amor. Acho que de alguma forma, vou ter de tirar essa ideia da cabeça das duas mulheres, como me vou casar com alguém que mais do que não me amar… ele me odeia seriamente.

Os meus pensamentos foram interrompidos, pelos paramédicos que entraram pela sala, seguidos pela secretária “modelo”, com quem a Carina havia discutido. Rapidamente puseram-se ao meu lado, enchendo-me de perguntas, enquanto me examinavam. Um silêncio incomodo fez-se no comodo, enquanto todos observavam o trabalho dos dois homens ao meu redor. Ao mesmo tempo, que eu podia jurar que o olhar do Paulo estava diferente, a sua raiva não parecia estar destinada a mim. Talvez seja apenas impressão, mas parece realmente que algo está diferente, ao contrário do olhar da sua secretária. Os seus olhos verdes estão fixos em mim, mas não é apenas raiva que eu vejo neles. Um certo nojo, parece surgir no seu olhar quanto fixa na minha barriga. Aquela mulher parece esconder algo, é como se desejasse alguma coisa e eu fosse um obstáculo no seu caminho. Sinceramente não vejo o que ela possa desejar, que seja ainda meu. A perda de memória, uma barriga que mais parece uma bola de basquete e uma gravidez potencialmente de risco, não me parecem boas opções. Não são motivos de inveja para ninguém, talvez ela me odeie por algo do passado, mas isso só daria motivos a rancor… sinceramente não sei definir o seu olhar e muito menos os seus motivos, ainda assim, acho-a demasiado sensual para uma secretária. Talvez pela sua estrutura de modelo, alta, magra, escultural, o seu vestido justo e a saia curta. Como modelo de passerelle, ela estaria perfeita, mas para um escritório, talvez… só talvez, fosse um grande exagero.

Passei o resto da tarde no hospital a fazer analises, era exaustivo ficar lá, ainda mais se estava bem, mas era pelo meu filho que eu aceitava. Na manhã seguinte tive alta, mais uma vez foi-me recomendado muito descanso e pedido para evitar emoções fortes. Essa parte quase me fez gargalhar na cara da médica, que emoções são demasiado fortes, para alguém que perdeu a memória? Estava a sair do hospital quando ouvi alguém chamar por mim, quando me virei deparei-me com um senhor baixinho, forte e com farda de chofer. Isso ainda se usa?

— Bom dia menina. – Acenou-me com o chapéu. – O meu nome é Tobias e sou o motorista da família Melro, a senhora incumbiu-me de a levar, para a mansão.

— Há… obrigada. – Respondi sem jeito. – Mas antes preciso de passar na casa da minha amiga, preciso de fazer as malas e…

— Não precisa menina, as suas coisas já estão no seu quarto. – Interrompeu-me. – Ontem mesmo foi feita a mudança, a menina Carina tratou de tudo, não precisa de se preocupar.

Fiquei surpresa, apesar de achar que já devia estar à espera, claro que a Carina cumpriria as ordens dadas, ainda mais com o emprego em jogo. Também, tanto a mãe como a avó do Paulo, não pareciam pessoas de meias medidas. Elas eram mulheres de ação e definitivamente, não aceitavam um não como resposta.  Como as faço desistir da história, do casamento? Não será tarefa fácil, mas mais difícil, vai ser lidar com o Paulo no dia-a-dia. Ao menos posso o tentar evitar, trancando-me no quarto, quando ele voltar do trabalho.

Estava tão concentrada nos meus pensamentos, que nem prestei atenção ao meu redor. A viagem foi super calma, o que facilitou a minha introspeção, enquanto podia ver o profissionalismo dos empregados da família Melro.

— Já estamos quase a chegar. – Informou-me.

— Obrigada. – Pensei por momentos e resolvi arriscar. – O Sr. Tobias já trabalha a muito tempo, para a família Melro?

— Só Tobias está bom menina. – Respondeu, amigável. – Trabalho lá a quase 20 anos, o Sr. Alberto contratou-me para transportar a sua mãe, a D. Lilian e a sua esposa a D. Marília.

— Eu lembro-me do Sr. Alberto, ele não era propriamente uma pessoa fácil de se lidar, era um patrão bem rígido.

— Sim, profissionalmente o Sr. Alberto era uma pessoa muito rigorosa, apesar de ser um marido e pai exemplar. O Senhor dava muito valor à família, eles estavam acima de tudo e a empresa, sempre foi uma forma de ele dar o melhor aos seus. – Fez uma pausa, focando-se no caminho. – Um atraso, não o afetava apenas profissionalmente, mas também afetava a sua família. Não guarde rancor por ele, aquele homem apenas desejava passar mais tempo, ao lado da esposa e dos filhos.

Depois daquilo não fui capaz de dizer mais nada, apenas fiquei perdida no passado, num passado que conhecia, mas a muito tinha ficado para trás. Foi quando eu vi a casa, ou melhor a mansão… esta não deve ser a casa certa, porque eu não me lembro de ter entrado em nenhum avião, para poder atravessar o atlântico e aterrar na casa branca. Apesar que esta casa, tem um estilo mais europeu e moderno, mesmo assim ela é bem impressionante. Posso dizer que é demasiado, para uma pobre rapariga. Talvez ainda não seja tarde, para voltar atrás e sumir da vida deles, afinal o Paulo nem quer ser pai. Então porquê, eu me estou a sujeitar a tudo isto? A todo aquele odio e rancor, que eu nem sei como vou aguentar. Que eu não sei o que fiz, para o poder merecer. Será que não estou a cometer um erro? O que a minha mãe fez comigo foi altruísta, não me ter permitido conhecer o meu pai, foi difícil. Por vezes eu sentia-me furiosa com ela, por ter de aguentar tanta maldade das outras crianças, apenas porque eu não tinha um pai. Era horrível, mas logo tudo passava e eu a perdoava, afinal não existia ninguém no mundo que desejava mais, me ver feliz.

 

Continua…

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