Abismo – Capítulo 6

Hoje eu sentia-me como se tivesse entrado em num filme, num daqueles filmes malucos americanos, onde tudo é doido e tudo é paz e amor. Não sei se faz sentido, mas o que realmente faz sentido na minha vida agora? Será que também fiquei assim, na primeira vez que visitei esta casa? Que conheci as mulheres que a dominam, que reguem esta família, a empresa. Duas mulheres com uma força, como nunca vi. Apenas fiquei alguns minutos com elas, mas foi o suficiente para entender, para sentir que elas seriam as melhores pessoas do mundo. Que sempre estariam lá, para mim e para o meu menino, por elas não estaria mais sozinha. Não que a Carina me fosse abandonar, ela nunca me deixaria sozinha por vontade própria, nós somos “irmã” por escolha. Eu apenas, não estou a precisar de uma irmã agora e sim de uma mãe, a minha mãe. O problema é que ela partiu a muito tempo e deixou-me sozinha neste mundo, mesmo não tendo sido por vontade própria. Apesar que na realidade, eu não fui deixada para trás pela minha mãe, o verdadeiro culpado, a pessoa que realmente me abandonou, foi o meu pai. E agora é a vez do meu filho, ser abandonado pelo seu.

— Chegamos menina. – Falou enquanto abria a porta, tirando-me dos meus pensamentos. – A Maria vai a receber, ela é a governanta da casa, qualquer coisa que precisar é só pedir-lhe.

— Obrigada.

Sem dizer mais nada, desci do carro devagar e encaminhei-me para a entrada da casa. Subi os três degraus que me separavam, da enorme porta branca envidraçada e aproximei-me da mesma com o intuito de a abrir. No entanto, a mesma abriu-se antes que a pudesse tocar, relevando uma mulher alta, de cabelos pretos curtos e olhos castanhos.

— Bom dia menina Helena, eu sou a Maria a governanta da casa. Foi incumbida de a receber e de acompanhá-la até ao seu quarto. Qualquer coisa que precisar, estou inteiramente ao seu serviço.

— Obrigada, mas pode chamar-me só de Helena por favor. – Respondi meia atordoada.

— Sem problemas meni… Helena. – Corrigiu-se. – Vamos subir e conhecer o seu quarto?

— Sim.

Respondi seguindo-a calada, ainda só tinha visto um pouco da sala e do jardim… sinceramente, cada vez tinha mais duvidas se devia correr ou ficar, ainda mais agora eu tinha medo, muito medo. As mesmas mulheres que pareciam quer me integrar na família delas, também podiam me tirar o meu bebé. Esta foi a primeira vez que senti, que o apoio delas podia ser uma faca de dois gumes. Sem dúvida, teria de ter muito cuidado, pois nunca conseguiria ficar com o meu menino, se eles decidissem disputar a sua guarda. Também que juiz em seu juízo perfeito, rejeitaria uma família rica, com um vasto património e com segurança. Quando eu não tenho casa própria, a minha conta bancária não deve ter nem um terço do dinheiro, da do pai do meu filho. Para além, que eu perdi parte da minha memória, agora preciso cuidados extra, não posso viver sozinha porque pode ser perigoso.

As incertezas eram a cada minuto que passava, maiores e mais problemáticas, o que me fazia sentir perdida, mas sobretudo desemparada. Estou com a sensação de que viajei para outro tempo, para outra era onde os bastados não são admissíveis, as famílias ricas têm grandes casarões e dinheiro guardado por baixo do colchão. Tal como os antigos faziam, por não confiar nos bancos. O meu estado é tão caótico que nem vejo o caminho que sigo, pareço uma sombra que vagueia atrás de outro ser humano. Tudo porque aquela hora, eu não pude dizer não e agora arrependo-me por ser tão fraca, não posso ser assim. Não posso perder tudo o que me resta, só porque uma fatalidade aconteceu. Eu tenho de mudar… não, eu vou mudar, pelo meu filho e por mim. A minha dor, há de ser a minha força e o meu filho a minha luz. O mais importante é conseguir que ele seja feliz, pois a minha felicidade hoje em diante é a mesma, do que a do meu pequeno.

— Este é o seu quarto. – Interrompeu os meus nobres pensamentos, de autoajuda, fazendo-me olhar para a porta castanha ao seu lado. – As suas coisas e as do menino Paulo, já estão guardadas no closet. Qualquer coisa que precisar é só chamar por mim, existe um telefone no quarto para esse efeito, os códigos estão ao lado.

— Desculpe-me D. Maria, se eu percebi bem, o Paulo vai dormir aqui também, comigo? – É um erro certo? Por favor, diz que é um erro.

— Sim.

Respondeu como se não percebesse a pergunta e a resposta fosse tão obvia, que se tronava tola. Mesmo assim, eu não acho que esteja errada em perguntar, afinal o Paulo agora é um desconhecido para mim. Um desconhecido, que por ironia do destino é o pai biológico do meu filho. É normal certo? Não querer partilhar o meu quarto com ele, mesmo que seremos pais e que estejamos “noivos”.

— Este é o quarto do menino Paulo, o mesmo onde sempre ficavam, quando passavam a noite por cá. O que passou a acontecer com menos frequência, depois que foram viver juntos, o que não agradou a D. Lilian.

— Afinal eu já tinha cá vindo, várias vezes. – Falei mais para mim, do que para a mulher.

— Sim, a menina já fazia parte da família. – Respondeu, mas logo pareceu se lembrar de algo e a sua reação mudou, parecia desconfortável com algo.

— E a D. Lilian não gostava do nosso relacionamento? – Perguntei com receio, uma vez que ela foi quem mais insistiu, para eu vir morar nesta casa.

— Não se confunda menina, a D. Lilian é uma mulher amorosa, que ama a sua família e os seus netos. Ela sempre gostou de si e ainda a considerava sua neta. – Sorriu. – Ela é uma pessoa antiga, muito ligada as tradições e costume, sabe como é. As vezes as pessoas da idade dela, não aceitam bem o tipo de relações, que existem atualmente. Ela não gostou que fossem viver juntos, apesar de aprovar a vossa relação, aliás, ela foi a primeira a querer te conhecer e a dar os parabéns ao neto pela escolha. Apenas não gostava que vivessem juntos, antes de serem casados ou mesmo noivos. A D. Lilian é uma mulher muito integra e compreensiva, quando a conhecer melhor vai perceber os seus motivos. Acredite em mim menina, a D. Lilian raramente se engana, se ela vos esta a juntar novamente, é porque tem de ser assim. Agora precisa de descansar, tome um banho e durma um pouco, mais logo trago alguma coisa para comer.

Sem dizer mais nada retirou-se e deixou-me sozinha. Devagar abri a porta, revelando um quarto luxuoso em tons terra. Junto á entrada, existia um pequeno sofá castanho, com duas poltronas a condizer e uma pequena mesa de centro em vidro. Separando o quarto da pequena sala de estar, existia uma parede feita de ripas de madeira e no seu centro um grande quadro, com uma paisagem serena e reconfortante das montanhas. O quarto era composto por uma grande e confortável cama, duas mesinhas cabeceira e uma chaise long. De cada lado da cama existia uma janela que dava acesso à varanda. Caminhei até a porta mais próxima e abri-a, encontrando o closet cheio, com a nossa roupa.

— Porque tudo parece tão nostálgico, as roupas assim juntas, o cheiro, o toque… – Fechei os olhos por alguns segundos, enquanto sentia o meu filho mexer. Antes de continuar a percorrer o espaço, com calma. – Só faltam aqui as tuas roupinhas, tenho de perguntar a D. Maria onde as deixaram.

Aproveitei o momento, para tirar uma roupa confortável para vestir depois do banho, adivinhem o que escolhi. A o raio da camisola do Paulo e umas leggings confortáveis, aquela camisola persegue-me sem eu saber. Mesmo depois de ter comprado tanta roupa ontem, ainda é a única peça que me faz sentir confortável. É estupido, mas não consigo me livrar da conexão que sinto com ela. Sai do closet e segui para a outra porta que existia no quarto, esperava que fosse o quarto de banho e uau… já devia estar à espera, claro que o luxo não podia faltar aqui também, era ridículo que assim fosse. Mesmo assim, não podia deixar de me espantar com a serenidade e a beleza da mesma, mesmo ao estilo de um spa moderno e confortável. Com lavatório duplo e uma enorme banheira de hidromassagem centrada no meio, que eu preciso de experimentar com urgência. Claro que foi isso que eu fiz nas horas seguintes, mas quando sai sentia-me outra mulher, fresca, relaxada e em paz. Não podia querer melhor, bem até que podia só preciso de comida.

— Humm, o que te apetece bebé? Uma sandes de atum? Umas panquecas cheias de fruta, compota e manteiga de amendoim? Uma gorda fatia de bolo de chocolate? Acho que estou a ficar ainda com mais fome, talvez não seja boa ideia pensar em tanta comida.

Quando voltei ao quarto, reparei que uma pequena mesinha tinha sido colocada num canto do quarto, mesmo ao lado da Televisão de 50 polegadas. Em cima da mesma estava um prato com uma sandes de presunto com queijo e um copo com sumo de ananás fresco.

— Bem, a mamã vai engordar filhote, mas do que o esperado. – Dei uma dentada na sandes, enquanto me sentava na cadeira. – Hummm, maravilha… não havia sandes destas no hospital, estou no paraíso.

Assim que terminei de comer, deitei-me na cama fofa e confortável, com um livro que sempre carrego na mala. Apesar que pouco pude adiantar a minha leitura, pois logo o conforto me deixou mole e os olhos pesaram, levando-me para um sono calmo e reconfortante. Assim que acordei, vi que a mesa já tinha sido limpa e no seu lugar, existia um jarro com água gelada. Peguei num copo cheio e voltei a sentar-me na cama, liguei a tv num programa de música qualquer e voltei a pegar no meu livro. Estava bem confortável, até que a porta do quarto se abriu, trazendo-me um cheiro familiar. Suspirei fechando os meus olhos, de agora em diante vou ter que me habituar a esta vida, mesmo assim, não sei se consigo.

— Vejo que já estás a aproveitar, a boa vida.

— Que mal eu te fiz, para merecer ser tratada assim? – Perguntei, sentindo as lágrimas arder nos meus olhos. – Para quê tanta frieza, tanto ódio?

— Não te faça de burra Helena, porque burra nunca foste. – Respondeu com raiva. – Eu nunca vou acreditar na tua história e que essa criança, seja minha.

— Eu não estou a mentir Paulo, não tenho motivos para isso. – Uma lágrima, escorreu pelo meu rosto. – Não imaginas o quanto pode ser desesperante, acordar e perceber que uma grande parte do nosso passado desapareceu. Ainda mais, quando percebi que vou ter de partilhar a minha cama, com um estranho.

— Para ficar claro, a cama é minha. – Olhou-me autoritário, como um patrão que coloca um empregado no devido lugar. – Não te familiarizes de mais com o lugar, pois em breve estarás na rua.

Dito isto afastou-se e caminhou devagar até ao quarto de banho, trancando-se de seguida lá dentro. Por mais que conseguir-se ouvir a água a cair, era nas suas duras palavras que eu pensava e no destino que me aguardava. Será que ele apenas nos abandonaria, ou tinha algo pior para mim, tirar-me o meu bebé. Nos minutos que se seguiram, tentei não pensar em mais nada sem ser no meu livro e no meu bebé. Apesar de não estar a conseguir avançar na leitura, sentir o meu menino a mexer-se acalmava-me. Até que o raio da porta se voltou a abrir, dando-me desta vez a visão de um corpo musculado, apenas com uma toalha à volta da cintura.

— Para onde estás a olhar?

Desta vez não havia raiva na sua voz, pelo contrário ele parecia divertido com a minha súbita timidez. Apertou melhor a toalha em volta da cintura e aproximou-se devagar da cama, sem tirar os olhos de mim. Quase como se eu fosse a sua presa e ele um feroz leão pronto para me devorar.

— Assim já te lembras do passado? Ou será, que precisas de uma ajudinha? – Lambeu o lábio, provocando-me sensações desconhecidas, mas bem familiares ao mesmo tempo. – Queres que eu te recorde do passado? Do nosso passado?

Senti todo o meu corpo estremecer com aquela promessa, mas ao mesmo tempo a minha visão escureceu e a minha dor de cabeça voltou com mais força. Eu não sabia, o que podia fazer para parar com aquela dor e sobreviver ao que parecia mais um tormento. Até que várias imagens pareceram surgir na minha mente e um Paulo molhado e sensual avançou na minha direção. Tirando-me o folgo e a razão, vi-o aproximar-se perigosamente de mim, tão sedutor que me deixou em chamas.

— E então, vamos brincar Lena? – Sorriu ainda mais sedutor, enquanto os seus olhos brilhavam. – Já estamos no lugar certo para isso e o ambiente, parece que está a aquecer, sempre aquece entre nós.

Estávamos tão próximos, que os nossos lábios estavam a centímetros de se tocar, a sua respiração fazia cocegas na minha pele e eu sentia-me bem poderosa. O desejo, o carinho e o calor que ele provocava em mim, que mexia com os meus sentidos, faziam-me sentir desejada. Sentia-me uma mulher de verdade, mas dito isto, o seu sorriso passou de sedutor a brincalhão e ele recuou lentamente, até descer da cama e se afastar em direção ao closet.

— É pena não termos tempo para isso, talvez mais logo.

Piscou para mim e continuou o seu caminho, mas não sem antes de deixar cair a toalha e entrar nu no closet. Depois disso a minha visão escureceu e eu senti-me perder os sentidos, apesar de ainda ter conseguido ouvir mais uma vez a sua voz.

— O que foi Helena, a fantasiar com o passado. – Ouvi o seu tom irónico, seguido por uma gargalhada. – Só mesmo nos teus sonhos, querida.

Acordei umas horas depois do sucedido, ainda atordoada pela lembrança. Deixei-me ficar na cama mais alguns minutos, até que a minha barriga roncou e eu vi-me forçada a sair da mesma. Para minha felicidade, a D. Maria já se tinha antecipado e um prato de sopa fumegante esperava por mim na mesinha. Saboreei-a com deleite e assim que terminei, dirigi-me
à minha bolsa e peguei no pequeno caderno que tenho no seu interior. Desde que sai do hospital tenho mantido um pequeno diário, com tudo o que tem acontecido. Os meus medos, os meus anseios, as minhas memórias e descobertas, tudo é apontado naquele pequeno caderno. E agora teria mais uma coisa para contar, mas não sei se foi real ou fantasia, talvez um pedaço de memória perdida. Ainda me sinto desnorteada, tenho o coração acelerado e o meu pequeno está agitado como eu. Senti-me sufocada e por isso abri a porta da varanda, mas logo a fechei atrás de mim, quando senti o vento frio tocar a minha pele.

— Sabe bem não sabe filho.

Fechei os olhos e deixei-me levar pelos sentidos, senti o cheiro a relva acabada de cortar e o sol fraco aquecer-me o rosto, que logo era arrefecido pela brisa suave e fresca. Sem pensar percorri devagar a varanda vazia, depois encostei-me na parede e deixei-me deslizar até chegar ao chão. Respirei fundo e observei as cores do céu mudar, pintando-o em vários tons de laranja e dourado, que se misturavam com o azul arroxeado do céu. Sentindo-me livre, abri o meu caderno e comecei a escrever, contando tudo deste momento que encontrei o Paulo.

— Havia algo estranho, no olhar da sua secretária, a tal de Rute. – Falei em voz alta, esse já se estava a tronar um hábito falar sozinha, ou melhor, conversar com o meu filho. – Não acho que ele seja a melhor pessoa para ficar ao lado do teu papá, aquele olhar… aquele olhar dizia mais, do que podia contar.

Suspirei e olhei mais uma vez o céu, confirmando que a noite estava cada vez mais próxima, tal como a sombra da minha alma. Mais uma vez, acariciei a minha barriga e percebi que ainda não tinha escolhido um nome, para o meu pequeno. Ele não podia nascer sem nome, ainda por cima, quando já faltava pouco tempo para o parto.

— Que nome te ficaria bem? Não sei, José? Duarte, Rafael, Gustavo, Henrique? Esse não, talvez algo diferente? Adolfo, Pascoal, Valter? Diferente de mais, não sei…

Pensei mais um pouco, rabiscando alguns possíveis nomes no meu caderno, por um momento fechei os meus olhos e me deixei envolver pelo ambiente. Sem me dar conta, o meu estado levou o melhor de mim e eu senti-me leve e serena. Tão leve que por momentos achei que estava a flutuar, até que devagar pousei numa fofa nuvem, quente e aconchegante. Não antes de sentir uma frisa quente, tocar de leve na minha testa e depois na minha barriga.

Abri os meus olhos e observei o teto por alguns momentos, olhei para o a outra ponta da cama e estava vazia. Teria ele dormido ao meu lado? Voltei a observar por mais uns momentos o teto, até que uma pergunta surgiu na minha cabeça. Como eu voltei para a cama?

 

Continua…

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