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Abismo – Capítulo 7

Os dias passaram a correr e nada havia mudado, a minha relação com o Paulo continuava distante e nós mal nos víamos, o que faria falar. A única novidade nestes últimos dias, foi um nome que apareceu no meu caderno. A letra de certa forma, era-me familiar, no entanto não sabia dizer quem era o seu dono. A minha única hipótese de descobrir, quem o havia rabiscado, era perguntar à pessoa mais próxima. A reação da D. Maria foi muito estranha, ela chorou emocionada, observando o pequeno rabisco, misturado com os meus.

— Eu sabia, eu sabia que o menino não podia ser tão frio como aparentava. – Sorriu ao limpar uma lágrima. – É a letra do menino Paulo, reconhecê-la-ia a distância, desde pequeno que escreve como se estivesse a desenhar.

— Do Paulo? – Peguei novamente no caderno e observei a sua letra, sentindo o meu rosto molhar. – O Paulo escreveu isto? Ele escreveu um nome… o nome do nosso filho…

— Ele não é mau menina, ele nunca foi assim. – Aproximou-se de mim e segurou nas minhas mãos. – Ninguém sabe o que aconteceu, na noite em que a menina partiu e deixou o Paulo sozinho, ele nunca contou a ninguém. Infelizmente, a Helena também não se recorda, o que dificulta as coisas. Seja o que foi, o menino Paulo saiu muito magoado, espero que essa marca cicatrize em breve.

— Eu gostava de saber, porque ela me olha com tanto rancor, porque rejeita o nosso filho. – Suspirei. – Não é fácil seguir em frente assim, não saber o motivo de o ter magoado tanto e mais do que isso, ter de viver ao seu lado assim.

— Não se martirize, um dia a verdade virá ao de cima e tudo se vai resolver.

— Espero que sim. – Fechei os meus olhos, sentido o peso daquelas palavras.

— E qual vai ser o nome desse pequeno, que demora a vir ao mundo. – Ri com a sua observação, a notícia ainda era recente e já todas estavam ansiosas pelo meu parto.

— Martin, o nome que o pai dele escolheu. – Assim que terminei de falar, senti um forte pontapé na minha barriga. – Parece que mais alguém gostou, o meu Martin.

— Quem é o Martin? – Perguntou a minha sogra, entrando no quarto.

— O seu neto, o Paulo que escolheu. – Mostrei-lhe a página, com o nome escrito. – Não é um nome lindo?

— É sim querida.

Parecia que tinha acabado de reunir, um bando de mulheres choronas, quando a porta se abriu novamente e a matriarca da família se juntou a nós. Posso dizer que aquela foi uma tarde claramente animada, planeando o quarto que o meu filho ocuparia. Mais tarde, planeamos um jantar para comemorar, mas o Paulo inventou uma viagem de última hora e nem quis saber o motivo da festa.

Depois do episódio na varanda, ganhei para o meu conforto, uma pequena mesinha com duas cadeiras e um sofá, o que me permitiu desfrutar mais da paisagem e do sol. Para além que agora sabia que podia ir para lá, sabendo que me conseguiria levantar e não me arrastar ou suplicar por uma grua, para me erguer do chão. O mistério sobre a forma como cheguei até a cama ainda se mantém, apesar de agora acreditar, que tenha sido o Paulo a o fazer. Principalmente depois que vi o nome escrito, ele só poderia vê-lo se tivesse ido na varanda à minha procura.

Hoje o Paulo regressa da viagem e marcou um jantar aqui em casa, aparentemente ele trás um amigo de longa data. Não sei quem ele seja, nem se é apenas um amigo de infância ou algum parceiro de negócio. Seja como for não quero envergonha-lo, simplesmente não quero ser um peso para ele e errar na minha deixa. Calmamente, tomei um banho relaxante e de seguida escolhi um vestido bonito e confortável. Para completar a imagem, calcei umas sabrinas azuis marinho, como o vestido e sai do quarto. Quando cheguei ao topo das escadas, avistei o Paulo de costas para mim, ele ria de alguma coisa que o amigo dizia à sua mãe. Ele parecia tão feliz e descontraído, que a sua alegria me contagiou e fez o meu coração pular, apesar de saber que tudo vai terminar quando ele me vir. Respirei fundo e desci os degraus com cuidado, aproveitando a descontração que existia no ar, mas como previa tudo terminou rapidamente.

— Quem é esta donzela, carregando uma bola de basquetebol no ventre. – Brincou, chamando a atenção de todos para mim.

— Esta é a Helena, a noiva do Paulo. – Falou a minha sogra, aproximando-se de mim. – Já deves ter ouvido falar sobre ela?

— Sim já, mas não tive o prazer de a ter conhecido antes. – Sorriu galanteador, deixando-me confusa.

— Não perdeste nada. – Resmungou o Paulo atrás do amigo.

— Paulo! Ela é tua mulher. – Alertou a D. Marília.

— É? – Perguntou desdenhoso, com o sorriso torto e o olhar desafiador.

— Paulo Melro, não me desafies.

Ele tinha irritado a mãe e não era pouco, pois a mulher fumegava por todos os lados, irritada pelas constantes atitudes frias e hipócritas do filho. Infelizmente, não sabia onde aquilo ia nos levar, talvez não tenha sido boa ideia descer para o jantar.

— Se não a queres, posso ficar com ela?

Perguntou o homem, quebrando a tenção que se formava, por breves momentos todos nos mantemos em silêncio absorvendo a sua pergunta. O que ele queria dizer com aquilo? Quem é este homem e porque ele me parece tão familiar? Chega a deixar-me, com uma estranha sensação.

— E então? – Olhou divertido para o amigo. – Eu preciso de formar uma família rápido, isso é bom para os negócios, mas não tenho namorada. Tu tens e não a queres, então eu posso ficar com ela e como bónus, ainda levo um filho. Saímos todos a ganhar não?

Por incrível que pareça, ninguém se prenunciou perante a pergunta dele, mesmo assim foi difícil não notar o clima tenso. Eu esperava ver o Paulo protestar, dizer que ele não podia roubar o seu lugar, que não podia levar o seu filho. Pelo menos o seu filho… No entanto, ele continuou calado. Aquilo irritou-me e me fez pensar, se calhar mais valia viver com um estranho, do que com um pai e marido que nos rejeita.

— Não se brinca com uma coisa dessas, Mário. – Claro que a D. Marília viria ao meu socorro, ela nunca permitiria algo assim. – A Helena espera o meu neto e está comprometida com o ingrato do meu filho, este é o tipo certo de relacionamento que os espera. Só não sei porque estás calado Paulo, porque não defendes o que é teu? Eras capaz de deixar, que a tua mulher fosse levada, pelo primeiro homem que aparecesse na sua frente? És tão fraco assim?

— Fraco? – Riu sem graça. – Ela sempre fez o que quis, traiu-me e manipulou-me sem dó nem piedade. Porque a ia defender? Muito mais, revindicar algo que não me pertence.

— Ui, que clima tenso este. – Interrompeu. – Sendo assim, eu fico com ela Paulo, não te arrependas depois.

— Não o vou fazer.

Respondeu firme, no entanto havia algo no seu olhar, ele parecia em conflito consigo mesmo e isso era estranho. Fosse o que fosse, ele nunca seria sincero comigo se o fosse, já teria me contado o que aconteceu a meses atrás.

— Vou subir, preciso de um banho e trocar de roupa. – Antes de receber alguma resposta, subiu desaparecendo em seguida no corredor.

— Menos um, agora nós. – Virou-se para mim, com um sorriso de lado. – Quem és tu Helena? O que realmente aconteceu?

Olhei-o confusa, é engraçado, perguntando-me exatamente o mesmo sobre ele. Quem era e porquê me parecia tão familiar? Ele parecia não me conhecer, mas a sensação não passava, seria pelos seus olhos amendoados? Eles tinham exatamente, o mesmo tom cor de mel dos meus, tão semelhantes que podíamos passar por parentes. O que era uma hipótese, se eu tivesse família por aí, será que tenho?

— Eu? Sou a Helena Meira, o que aconteceu? Isso também gostava de saber, tenho andado desorientada desde que acordei do coma, não tem sido nada fácil.

— Essa história parece surreal, eu diria que parece o enredo de um filme barato. – Aproximou-se de mim, tentando-me intimidar.

— Eu diria o mesmo, se não estivesse ainda a viver esse pesadelo. – Suspirei e olhei à minha volta. – Podemo-nos sentar? É difícil estar de pé, com um barrigão destes.

— Claro. – Disse meio sem graça.

— Anda querida, vamos no sentar. – Acompanhou-me a minha sogra. – Mário não enchas a podre coitada de pergunta, estes dias tem sido difíceis e o Paulo não está a cooperar.

— Onde está a D. Lilian?

— Foi passar uns dias as termas, ela tem-se queixado um pouco, anda com algumas dores, sabes como é Mário a idade não perdoa. Felizmente as termas tem ajudado, por isso é um local de passagem, duas vezes por ano.

— É uma pena o nosso desencontro, mas haverá outras oportunidades.

— Certamente, se me deram licença, vou ver como está o jantar.

Dito isto, afastou-se em direção a sozinha deixando-nos sozinhos, chegava a ser constrangedor. Sim, constrangedor. Ficar frente a frente numa mansão luxuosa, com um homem lindo na minha frente, que por acaso é amigo do meu “noivo”. Eu posso estar gravida e hipoteticamente noiva, mas ainda sou mulher e sei apreciar um bom homem. Digamos que o Mário é um pedaço de mau caminho, alto, moreno, musculado… daqueles que nos deixam tontas vestidos e nos faz perder o ar e a razão despidos. Com uma calma descumunal, ele abastou os fios rebeldes do seu cabelo preto e levantou-se caminhando até ao bar. Uma vez lá serviu-se de uma bebida, antes de regressar ao seu lugar e me observar atentamente. Como sempre, quase como um tique nervoso, eu acariciava a minha barriga, sendo o meu gesto acompanhado pelos olhos de lince, do meu acompanhante.

— De quanto tempo estás?

— Quase oito meses.

— Hummm. – Disse pensativo fazendo-me suar, era difícil não tentar adivinhar o tamanho da faca que esperava ansiosa, para se cravar no meu peito.

— Acho melhor ir ajudar a D. Marília, ela…

— Ela tem empregadas suficientes, para cuidar do serviço. – Respondeu frio. – Agora eu gostava de saber, qual é realmente o teu esquema.

— Esquema? – Porque ele era o segundo homem, a achar que eu estava aqui para enganar o Paulo.

— Eu não tenho esquema nenhum, eu estou realmente grávida, qualquer médico pode confirmar isso. Isto se a minha barriga enorme, não for suficiente para o fazer e ainda acharem que eu consigo a movimentar de forma tão estranha. Também o facto de eu ter estado em coma pode ser facilmente confirmado, não só pelo hospital onde estive, como pela polícia local que registou a ocorrência. Nada do que eu passei é uma mentira, nada do que eu estou a passar é uma mentira, eu não sou doente, eu estive doente. – Respirei fundo, tentando manter a calma e raciocinar com mais clareza. – Sinceramente, não me importo com o que pensam de mim, eu já tenho demasiados problemas. Eu já sofri o suficiente, já sofro a cada dia por um passado que se foi, por ter perdido grande parte da minha gravidez. Podes imaginar o tamanho do choque, que eu levei quando descobri que estava grávida, quando nem me lembro da minha primeira vez. O que é acordar numa cama de hospital, quando ninguém acredita que vais acordar e mais que isso, sem ninguém que te ama por perto. O quanto pode ser assustador, viver o que estou a viver?

— Não, não sei.

Vi o quanto ficou perplexo com a minha atitude, mas isso não foi o suficiente, dizer o que me ia na alma, não foi o suficiente. Não é com um desconhecido que eu tenho de falar, não é o meu passado que eu tenho de encontrar. Sinto-me tonta, com a explosão de emoções que me rodeiam, sinto-me frustrada por ser tão fraca, em relação a tudo. O que eu posso fazer para melhorar, como posso fazer para me libertar de toda esta dor e frustração.

— Eu só quero que o meu filho tenha uma família, apenas isso. – Limpei rapidamente uma lágrima e tentei prosseguir o mais firme possível. – Eu nunca tive um pai, por isso a minha mãe era tudo para mim, mas também ela me deixou. Se não fosse a Carina, eu estaria sozinha na vida, não teria ninguém. Se eu estivesse nesta situação, sozinha…

— Não precisas de dizer mais nada querida, porque não estás sozinha, nem nunca te deixaremos só. – Estava tão envolvida na minha dor, que nem me apercebi que a D. Marília tinha voltado. – Vai tudo correr bem, nós estamos aqui querida.

— Obrigada D. Marília. – Suspirei aliviada e limpei a lagrima que queria cair, o carinho que me dava era tão reconfortante.

— Agora vamos aproveitar para festejar, já que o Martin em breve vai estar aqui connosco. – Sorriu animada.

— Sim, temos mesmo de festejar…

— Quem é o Martin? – Interrompeu-me, assustando-me. – Quem vai estar aqui em breve?

O Paulo estava de pé no topo das escadas, exibindo uma expressão de pura irritação. Não sei o que o deixou assim, mas foi o suficiente para me pôr os pelos em pé e estremecer o meu mundo. Isto é tudo tão difícil, que não sei como avançar, como o posso enfrentar, melhorar…

— O teu filho. Se passasses mais tempo com a tua mulher em casa, do que na empresa a trabalhar que nem um doido, saberias. – Respondeu irritada, enquanto o Mário apenas observava tudo atentamente.

— O meu filho? – Pareceu incrédulo, porquê se foi ele mesmo que escolheu. – Essa coisa não é minha, nunca será e nem por cima do meu cadáver, que se vai chamar Martin.

Um arrepio percorreu toda a extensão do meu corpo, explodindo no meu coração, um desespero tomou a minha mente. Sinto-me tão exausta, mesmo assim a minha mente trabalha a mil a hora, levando-me para outro tempo e outro lugar, desligando-me da discussão que se instalou a minha volta.

— Achas que um dia seremos pais? – Perguntou, enquanto brincava com a aliança no meu dedo. – Eu gostava de ter um menino, uma parte nossa.

— Uma miniatura tua, queres dizer. – Brinquei, aconchegando-me ainda mais no seu colo.

— Também seria bom, mas com os teus olhos. – Sorriu divertido, antes de me beijar.

— E qual seria o nome?

— Esse é o dilema, ainda temos tempo, afinal ainda nem fizemos o nosso pequeno. – Puxou-me mais para si, antes de beijar a minha mão. – E ainda temos de mudar esse anel de dedo, ele não pode ficar eternamente no dedo errado.

— Isso é um pedido de casamento?

— Quem sabe? Talvez seja, talvez não. – Sorriu de lado, aproximando-se da minha boca. – Queres ser a minha esposa, senhorita?

— Quero. – Respondi no mesmo tom sedutor e meio rouco, antes de ser beijada com paixão.

— Martin… o que me dizes a Martin, para o nosso primeiro filho?

— Gosto, e se for menina? Martina?

— É uma opção, mas ainda temos tempo para pensar.

Tão rápido como veio, aquela felicidade esfumou-se na minha frente, trazendo-me a amarga realidade. As vozes rancorosas do Paulo e da sua mãe ainda preenchiam o ambiente, enquanto o Mário tentava acalmar a situação.

— Ela é tua mulher foste tu que a escolheste, estavas a preparar o pedido de casamento e agora odeia-la. O que raio de aconteceu, onde esta o meu filho?

— Aqui na tua frente mãe, mais crescido e mais maduro, não um iludido sem sentido.

— Tu não eras assim, tu não és o meu filho. – Berrou ainda mais alto.

— Tenha calma D. Marília, por favor, Paulo talvez em outra hora com mais calma…

— Não vai haver outra hora, ela não é minha mulher, ele não é meu filho e não se vai chamar Martin. – Olhou-me com raiva. – Nem por cima do meu cadáver.

Uma forte dor de cabeça atingiu-me no mesmo instante, mas não tão forte como a pontada na minha barriga. Nunca me tinha sentido assim, nunca tinha tido uma descarga tão grande de emoções e uma dor tão forte, que me fazia gritar desesperada.

— Meus Deus Helena, o que tens querida? O que está a acontecer? – Perguntava preocupada.

— Ela só quer chamar a atenção, não é nada de mais. – Ouvi o Paulo, enquanto outra pontada de dor me atingia.

— O que é aquilo, é sangue? – Ouvi a voz alarmada do Mário, chamando a minha atenção.

— Ela só esta com o período, grande coisa. – A voz irónica do Paulo, chegou novamente aos meus ouvidos, o que não ajudava em nada naquele momento.

— Não sejas tolo, uma grávida não tem período, ela esta a sangrar. – Só de imaginar as próximas palavras da minha sogra, já me faziam desesperar. – É extremamente perigoso, eles podem morrer.

— Não há tempo a perder, Paulo pega as chaves, vamos para o hospital. – Pediu o Mário, pegando-me no colo.

— Eu não vou.

— Como? Como tu não vais Paulo?

— Eu não vou, simples assim mãe. Ela não é a minha mulher, ele não é o meu filho, eu não tenho motivos para la estar.

— Paulo…

— Esqueça D. Marília, temos de ir agora, ela esta a perder muito sangue. – Foi a última coisa que ouvi, antes de perder os sentidos.

 

Continua…

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