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Abismo – Capítulo 8

Tudo pareceu voltar ao dia que acordei, naquela cama de hospital ouvindo o som irritante das máquinas, enquanto o cheiro de etanol me incomodava. Eu não queria estar aqui, mas ao mesmo tempo, desejava poder manter os meus olhos fechados e apenas sonhar. Sonhar com a paz no meu lar, com o meu filho a dormir sereno nos meus braços, com uma família para o acolher e amar. Simplesmente desejava me manter assim, mas o meu corpo estava sereno de mais e eu temi pelo meu bebé, eu não o quero perder. Abri os meus olhos devagar e observei o teto por alguns minutos, este momento era tão familiar, que tudo parecia um pesadelo. Por momentos, tive a sensação que não estava grávida, que não tinha perdido a memória, que o Paulo não me odiava, que tudo estava bem. Até que tentei a minha memória e tudo parecia o mesmo. Levantei a minha mão livre, confirmando o tamanho do meu vente e olhei em meu redor. Foi difícil não me sentir emocionada, quando vi a minha amiga dormir na cadeira ao meu lado, ela nunca me abandonaria.

— Finalmente estás acordada. – Uma voz masculina, cortou o silêncio do quarto assustando-me. – Não queria te assustar, desculpa.

— Está tudo bem Mário, o que aconteceu? – Voltei a observar, o sono sereno da minha amiga.

— Desmaias-te, e trouxemos-te a correr para o hospital. Não deu tempo sequer de esperar por uma ambulância, porque estava a perder sangue, mas agora está tudo bem.

— E o meu bebé? – Olhei-o receosa, num entanto com uma calma, que não sabia como explicar.

— Ele esta bem, é um lutador nato. – Sorriu aproximando-se de mim. – Tive de passar por teu noivo, para poder entrar no quarto, só familiares são permitidos.

— E o Paulo?

— Ele não veio, na verdade ele não quis vir, lamento…

— Obrigada, mas não precisas de te lamentar. – Voltei o meu olhar para o teto, tentando acalmar o turbilhão, que corria solto no meu peito. – Já imaginava que ele não estaria aqui, ele não se importa, nunca se importou. Mesmo assim, foi ele que escolheu o nome para o meu filho, pensei que ele finalmente o aceitava.

— Nunca vi o Paulo assim, nem reconheci as suas atitudes, ele mudou muito num curto espaço de tempo.

— Isso eu não sei dizer.

O silêncio instalou-se no quarto, sem que ninguém tivesse coragem de o quebrar. Não sei quanto tempo passou, nem que horas eram, mas o silêncio era tão bom, tão reconfortante…

— Vou ver como a D. Marília está, já volto.

— Ela não foi para casa?

— Não, esta no quarto ao lado…

— Como… Como assim no quarto ao lado? – Moderei a minha voz, assim que percebi que podia acordar a Carina. – O que ela tem? O que aconteceu?

— Ela está bem, apenas ficou muito nervosa e teve de ser sedada. A tua amiga também ficou nervosa, mas apenas aceitou um calmante, não queria se afastar de ti. Tens aqui uma boa amiga.

— É como uma irmã para mim, a minha única família.

— Os teus pais…

— A minha mãe morreu, já faz alguns anos, ela estava doente e precisava de um transplante, mas o rim nunca chegou. – Interrompi-o já respondendo à pergunta, mesmo que ela não tivesse sido feita. – Eu conheci a Carina num dos inúmeros tratamentos da minha mãe, ela acompanhava a sua avó, ficamos amigas na sala de espera. Quando a minha mãe morreu, fui acolhida pela família dela, foram uma grande ajuda.

— E o teu pai?

— Nunca o conheci, nem mesmo sei o seu nome ou como o procurar. – Recordei-me de todas as vezes que perguntei sobre ele. – A certa altura da minha vida, deixei de me questionar, não tinha tanta importância assim. Até que a minha mãe adoeceu e logo depois morreu, mas a esta altura era impossível encontra-lo. Talvez esteja morto, ou nunca ouviu falar de mim, prefiro pensar assim, do que o imaginar a abandonar-me. Assim como o meu filho, vai a ser abandonado, pelo seu pai.

— Agora percebo. – Caminhou para a janela, fazendo-me notar que já era dia.

— Que horas são? Quanto tempo estive desacordada.

— São dez horas, estives-te a dormir por catorze horas.

— Tanto tempo? – Estava surpresa. – Antes catorze horas, do que cinco meses.

— Parece ter sido difícil.

— Dormir não, acordar é que foi complicado.

O silêncio retomou quase no mesmo instante, até que ele se abastou e foi ver como a minha sogra estava. Eu sentia-me cansada, ainda meia adormecida ou melhor anestesiada de todas as emoções. Eu quase perdi o meu filho, estive em perigo e o Paulo nem me acompanhou ao hospital. Ele não se importa connosco, ele nunca se vai importar, mas a D. Marília é tão querida comigo, será que devo ir embora? Talvez fique, mas em outro quarto, longe do Paulo e de tudo que me lembre dele. Ou talvez deva retomar à casa da Carina, longe de todas as possíveis lembrança e estados de humor, longe de recuperar o meu passado. Pelo menos até o meu menino nascer, eu preciso de tempo, eu preciso de calma. Contudo ele ainda vai aceitar o meu filho, se eu me manter longe?

— Helena, graças a Deus estás acordada, assustaste-me. – Suspirou aliviada, tocando no meu rosto. Quando é que ela acordou e se aproximou de mim? – Foi por isto que não queria que te aproximasses do Paulo, eu sabia que ias sofrer, eu não quero que mais nada aconteça contigo ou com o meu afilhado. Por favor, volta para a minha casa, nos cuidamos de ti…

— Eu percebo Carina, talvez fosse mesmo melhor voltar…

— É sim, vais ficar bem lá e cuidamos juntas desse bebezinho e… – Interrompeu-me, mas logo eu a interrompi também.

— Porém isso não vai acontecer, não agora. – Falei calmamente, não sei se ela me entenderia,  a verdade é que nem eu me estava a entender neste momento. – Agora o Martin é tudo o que tenho, mas eu não o vou afastar da sua família, não vou bloquear qualquer oportunidade que ele tem, para ficar junto do seu pai. O Paulo hoje foi horrível, ele escolheu o nome para o nosso filho e depois retirou a sua escolha, crucificando-me por isso.

Olhei pela janela, agora aberta e suspirei, buscando a paz e harmonia que tanto fazia falta na minha vida. Tudo enquanto a Carina me observava perplexa, acho que ela já não me reconhecia. Se eu me lembrasse de tudo, acho que nem eu mesma me reconheceria, mas por enquanto, apenas tudo é estranho.

— Eu o odiei por agir assim e me odiei ainda mais, por achar que tudo ficaria bem, mas depois recordei… recordei um passado, que para ele não é estranho. Eu posso ter esquecido tudo, mas ele não esqueceu Carina, para ele o passado esta bem vivo e agarrado a uma verdade dolorosa. Quando ele deu o nome ao nosso filho, ele ainda não existia, nos planeávamos criar uma família, ficar noivos… a cada recordação que revive na minha mente, algo se acende dentro de mim, algo que me liga ao passado, a um sentimento que já existiu. Depois tudo explode, no momento em que volto à realidade e não sei mais quem sou ou o que sinto. Isso é algo com que eu tenho de lidar, essa é a minha vida agora e eles fazem parte da minha vida.

— Não faças isso Lena, não te destruas, por favor amiga. – Limpou uma lágrima, que teimava em escorrer. – Tu sabes o quanto é perigoso, que para a próxima podem não sobreviver, por favor…

— Vai dar tudo certo Carina, por favor, apenas fica ao meu lado e me ampara quando eu cair. Pode parecer uma decisão estúpida, posso nem fazer sentido, mas nada na minha vida tem feito sentido mesmo. E mesmo assim, continuo a achar que o Paulo não é um malfeitor, mas mais uma vítima. Devo estar a ficar maluca, só pode… mesmo assim eu quero tentar, eu vou arriscar.

— OK. – Respondeu triste, ela sabia que não valia a pena insistir. – Mas por favor, tem cuidado. Tu precisas de estar aqui, para poder cuidar desse rapazinho, para o amares e mimares, para seres a melhor mãe do mundo.

– Obrigada Carina. – Abracei a minha amiga.

— Tudo pela felicidade da minha irmã e do meu afilhado.

Aquela não foi uma conversa fácil, mas era a única escolha sensata que eu podia fazer, chega de pensar só em mim, de pensar apenas na minha dor. Havia muito mais para sentir, muito mais para viver. Nos tínhamos sobrevivido apenas à primeira prova, mas havia muito mais por vir, muito mais para enfrentar.

— Ouvi dizer que fizeste uma escolha difícil.

Ouvi a voz do Mário, soar no meu quarto, era o terceiro dia que estava aqui internada, mas ele nunca deixava de me visitar. Ao contrário do Paulo, que nem perguntar por mim ele era capaz. O que raio, eu terei feito, para ele me odiar assim?

— Uma escolha difícil? Não sei, elas já são tantas… – Falei sem olhar para ele.

— Vais voltar para a casa dos Melros, quando tiveres alta?

— Essa não foi a decisão difícil, há coisas ainda mais difíceis.

— Que coisas? – Perguntou curioso.

— Coisas. – Dei de ombros, ainda observando o teto, coisa que fazia muito ultimamente.

— Como? – Insistiu.

— A verdade. Descobrir a verdade, enfrenta-la… isso será muito, muito pior.

— Pois… – Aproximou-se da janela e olhou a paisagem pensativo. – Porque sempre voltas para o Paulo, se ele diz claramente que te odeia?

— Porque ele é o pai do meu filho, porque eu quero que o meu filho, tenha algo que eu fui privada. Porque sei que o Paulo, também está a sofrer… é complicado… tudo na minha vida é complicado.

— Mas não tem de ser. – Respondeu aproximando-se de mim.

— Nem tudo é um mar de rosas, Mário, a vida pode ser muito dura e difícil de enfrentar.

— Eu sei, mas a minha proposta ainda esta de pé, não precisas de esperar pelo Paulo. Sabes que ele nunca te vai voltar a amar, que não vai amar essa criança, mas eu podia cria-lo. – Olhei-o surpresa, ele não estava a brincar naquele dia? – Casa-te comigo, eu assumo o teu filho.

— Mário, eu não…

— Não respondas agora, vamos conhecer-nos primeiro. – Interrompeu-me. – Se aceitares podemos-nos casar assim que o Martin nascer, até la tens tempo para pensar, só te peço que penses com carinho.

— Obrigada.

Felizmente o assunto morreu ali, mas ainda mantivemos uma conversa banal, até que a visita acabou e ele teve de ir embora. Nos dias seguintes, também recebi a sua visita, a visita da minha sogra e da Carina e do seu marido. Por mais que não gostasse de hospitais, o ambiente era calmo, o ar era respirável e eu podia finalmente relaxar. Quando tive alta, foi como se o medo me assombrasse, como se o mínimo sopro me fizesse voltar para cá. Depois sentia o meu amor crescer, junto com a minha coragem, sempre que o sentia em mim, sempre que sentia a sua vida crescer dentro de mim. Apesar que era inevitável não sentir a dor, a cada lugar que passava, junto com cada lembrança que retomava. Cheguei no quarto e tudo parecia igual, como se mais ninguém tivesse cá estado, desde o meu internamento. Sentei-me na beira da cama, absorvendo todos os sentimentos dos últimos dias, questionando cada uma das minhas decisões.

— Porque esta tão pensativa menina? – Perguntou a D. Maria, assim que entrou no quarto.

— Estava a pensar, se não devia me mudar para outro quarto.

— Outro quarto? – Perguntou admirada. – Porque a menina quer se mudar?

— O meu suposto noivo odeia-me, odeia o nosso filho e abomina a minha presença nesta casa. – Eu não que privar a D. Marília e a D. Lilian de estarem com o meu filho, de acompanharem de perto a minha gravidez. Contudo eu não posso obrigar o Paulo a fazer o mesmo, pelo meu filho, devo evitar certas situações… devo evitar o Paulo e os conflitos que possa ter com ele, devo evitar a verdade.

— Eu compreendo, mas por hoje porque não fica aqui? Amanhã pode conversar com a D. Marília, ela pode a aconselhar sobre a sua decisão e sobre o menino Paulo. Se depois disso ainda quiser mudar de quarto, então eu preparo o quarto.

Depois disso ela apenas saiu, deixando-me sozinha, perdida nos meus pensamentos mais sombrios. Então simplesmente levantei-me, tomei um banho bem demorado, vesti uma roupa confortável e deitei-me na cama. Sem esperar o sono envolveu-me e eu pude descansar, felizmente o meu bebé deixava-me descansar, pelo menos por uma parte da noite.

Já era de madrugada quando acordei, o Martin estava demasiado agitado para me deixar dormir e um desejo incontrolável por manteiga de amendoins, fazia a minha boca salivar de desejo. Quando senti algo se mexer ao meu lado da cama, assustada virei a minha cabeça devagar, aproveitando a pouca luz da lua. Não sei porque motivo tinha receio de ligar o candeeiro, ao até mesmo porque me sentia aterrorizada. Provavelmente não havia nada ao meu lado, era apenas uma sensação sem motivo, criada por quem estava sensível e tinha acabado de acordar. No entanto, estava enganada mais uma vez e um Paulo adormecido descansava calmamente ao meu lado. Era estranho encontra-lo ali, num entanto não podia deixar de me sentir feliz por isso. Talvez algo tivesse mudado, talvez ele começasse a aceitar o nosso filho, talvez só talvez, algo dentro dele tivesse mudado naquele dia. Pelo menos sonhar ainda era possível, mas a fome neste momento é mais forte e eu preciso urgentemente de manteiga de amendoim.

Calmamente sai da cama e caminhei o mais silenciosa possível para fora do quarto. Desci as escadas e entrei na cozinha, encontrando o objeto do meu desejo guardado o frigorífico. Sem esperar um segundo, peguei num frasco, peguei também em vários tipos de queijo, compotas, chocolate, pão, bolachas e fruta. Era difícil não salivar ao imaginar a mistura de sabores, que veriam dali, mas o melhor ainda era poder provar um a um. Cortei um pedaço de queijo e mergulhei-o no pote de amendoim, antes de o levar a boca. Depois, foi a vez de molhar um quadrado de chocolate preto, seguido por morangos, banana, pão com queijo creme, e uma bela sandes de bolachas com compota. Tudo regado com uma dose generosa de manteiga de amendoim e como aquilo era bom.

— O que fazer aqui? – Ouvir a voz grossa atrás de mim, quase me fazendo cair do banco que estava sentada.

— A comer. – Respondi sem me virar.

— O que estás a comer? – Ouvi os seus passos, indicando que se aproximava de mim. – O que raio estás a misturar? Isso é nojento.

— Não, isto é ótimo. – Disse enchendo a boca com um pedaço de queijo, com manteiga de amendoim e chocolate.

— Isso nunca poderá ser bom, ainda ficas doente.

Tentou tirar a comida da minha frente, mas eu logo o impedi, voltando a encher a minha boca com mais.

— Não se rouba a comida de uma grávida, nunca estás a ouvir?

— Tu vais ficar doente assim, acabas-te de voltar do hospital, não queres voltar para lá… pois não?

Ele olhava para mim com dúvida, mas eu não podia deixar de sentir que aquela era uma atitude fofa, da sua parte. Chegava a ser nostálgico, mesmo que não soubesse o porque, a sua atitude fazia sentir-me bem, feliz.

— Não. – Respondi por fim.

— Então é melhor parares. – Disse recolhendo a comida na minha frente, guardando-a nos devidos lugares, antes de voltar para arrumar a bancada. – Vamos subir?

— Antes de subir, posso comer mais uma coisa? – Perguntei ansiosa.

— O quê? – Perguntou grosso, parece que o homem das neves voltou.

— Gelado de morango, com manteiga de amendoim.

— Gelado com… estás louca? Porque raio queres comer isso?

— Eu não quero. – Ele olhou-me confuso. – O teu filho é que quer, ele acordou-me a pedir manteiga de amendoim e eu tive de obedecer.

— E não podia ser uma combinação mais normal, não? – Perguntou enojado, indo mexer nos armários novamente.

— Desejos de grávida, ninguém os compreende, mas devemos realizar todos e eu agora quero gelado com manteiga de amendoim.

Ele parou para me observar por alguns momentos e depois pegou em tudo o que precisava, para montar um belo gelado de morango, com manteiga de amendoim como calda. Uma verdadeira delícia, que me fazia gemer de satisfação, enquanto ele me observava encostado no armário. Assim que terminei, ele voltou a arrumar tudo em silêncio e me puxou pela casa até ao nosso quarto.

— Porque estás aqui? – Perguntei, assim que ele fechou a porta.

— E porque não estaria? Este ainda é o meu quarto, tenho o direito de entrar e dormir nele, certo? – Não sei como decifrar o seu olhar naquele momento, era muito estranho vê-lo agir assim.

— Sim, mas… tu nunca dormiste aqui antes. A única vez que nos cruzamos neste quarto, foi quando me provocaste.

— Pois, mas isso mudou. – Respondeu frio aproximando-se da cama, para se deitar. – Dormir bem, faz parte de ser um grande empresário, agora deita-te e vamos dormir.

Fiquei a observa-lo enquanto se deitava, enquanto me perguntava o que raio tinha acontecido com ele, porque agia assim? Quando ele resmungou novamente para me deitar, eu simplesmente indiquei a casa de banho, quando voltei já ele já dormia calmamente do seu lado da cama. Suspirei ao relembrar as suas palavras, que homem mais complicado, porque ele simplesmente não me conta a verdade. Não me diz, o que vai na sua cabeça e no seu coração. Cansada, deitei ao seu lado, aconchegando-me nos lençóis.

 

 

Continua…

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