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Abismo – Capítulo 9

Viver com a Helena, é uma tortura. Eu a conheci, quando estava a preparar-me para assumir um cargo na empresa da família, após uns anos fora do país, a estagiar em outras empresas. Para que eu conhecesse bem a Melro & Silva e fosse reconhecido e respeitado pelo meu talento, não pelo meu nome. O meu pai fez bastante questão, que eu começasse por baixo. Segundo ele, foi assim que ele também começou, um passo de cada vez até atingir o topo. Tudo parecia estar a correr bem, ninguém percebia quem eu era e as vezes mal chegava a ser notado, o que me permitia conhecer quem se dedicava realmente à empresa e quem aldrabava o serviço. Pode parecer que uma empresa que vende viagens e escreve uma revista sobre o mesmo tema, não tem grande trabalho, mas enganam-se. Ser a maior agência de viagens do pais não é fácil, ainda mais quando queremos nos ampliar para outros países. Eu e o meu irmão Ricardo, seremos o sangue fresco da empresa, o impulso para esse crescimento e extensão da mesma. Apesar que neste momento, apenas eu esteja ingressando na mesma, o Ricardo apenas assumirá o seu papel daqui a dois anos e ficando com a parte mais prazerosa do negócio, a revista e as viagens de pesquisa.

— Em que está a pensar Paulo? – Perguntou o meu pai, assim que entrou em casa, vendo-me sentado no sofá pensativo.

— Olá pai. – Cumprimentei-o despreocupadamente, já que na empresa não o podia fazer. – Estava a pensar na empresa, nos funcionários.

— Nos funcionários, ou numa certa funcionária? – Riu maliciosamente, ele conhecia-me bem.

— As duas coisas. – Respondi sem graça, pensado nela, nos olhos amendoados que me tiravam o ar.

— Filho tem cuidado, ninguém pode saber a verdade, temos de seguir com o plano até ao fim. Andam a circular muitos boatos ultimamente, não podemos arriscar ou os nossos planos fracassam.

— Eu sei pai, temos de preparar a empresa para o próximo passo e não o podemos fazer, sem eliminar os podres das equipas.

Suspirei cansado, odiava mentir-lhe, mas temia ainda mais imaginar que a sua atitude doce podia mudar, só porque não sou quem digo ser. Não quero perder a mulher especial, que me dá formação de uma forma apaixonante, que me depende com a sua inocência e carinho. A única mulher, que mexe com todos os meus sentidos. Estou louco para a agarrar e beijar, quero a pedir em namoro, quero saber se ela sente o mesmo por mim, mas não é fácil assim.

— Exatamente por isso, que te tens de manter longe dessa jovem, ela não pode saber a verdade.

— Eu sei pai, mas é difícil. Ainda mais quando ela me defende tão linda, com uma garra que eu não vi em outra mulher.

— Estás apaixonado. – Riu da minha cara. – O meu filho, que nunca se apegou a nenhuma mulher, que diz que a empresa é mais importante que um rabo de saias. – Riu ainda mais alto. – Apaixonou-se por uma simples funcionária, órfã e trabalhadora.

— Também a achas trabalhadora? – Sorri esperançoso. – Capaz de desemprenhar um papel, muito mais importante na empresa? Ela podia…

— Eu nunca disse que ela era uma inútil, sempre soube do seu valor, por isso é que a escolhi para de acompanhar. – Interrompeu-me de forma fria e profissional. – Sei reconhecer um talento quando o encontro, mas não sei se ela está preparada para um papel mais ativo na empresa. Qualquer outro cargo acima, exige mais do que talento, exige força e sangue frio. É mais fácil um homem assumir um cargo de poder, do que uma mulher e não sei se ela teria capacidade de enfrentar os lobos, que desejariam o seu sangue espalhado pelo caminho. – Ficou pensativo por alguns momentos. – Ela é frágil de mais Paulo, ela nunca aguentaria e no fim, apenas te ias sentir culpado por a teres destruído. É melhor as coisas ficarem como estão, deixa-a em paz e segue com o plano, essa é a escolha certa a se fazer.

Ouvir aquilo foi como uma balde de água fria, ele nunca aceitaria o meu namoro, ele achava-a uma pobre coitada com talento, mas sem força de vontade. Já eu, era incapaz de ser da mesma opinião, eu não conhecia completamente a sua história, apenas sabia que era órfã e nunca tinha conhecido o seu pai. Sabia que ela tinha lutado, para conseguir aquilo que é hoje, tentando tirar o máximo de proveito nos seus estudos. Ela sabia quem era, uma mulher forte, guerreira, segura de si e apaixonante, como podia ficar indiferente a ela? Eu era incapaz e logo tive a prova disso, depois que ela me defendeu novamente perante os nossos colegas, simplesmente não resisti e a convidei para sair. O beijo aconteceu nessa mesma noite, bem como o pedido de namoro, que ela aceitou para a minha felicidade.

— Paulo precisamos de tomar medidas, este erro pode comprometer o futuro da empresa. – Disse o meu pai, andando pensativamente pela sala, após me chamar ao seu gabinete. – Quero convocar uma reunião para a próxima semana, vamos anunciar para toda a empresa o teu cargo de vice-presidente e herdeiro da Melro & Silva. Quero que prepares uma lista de funcionários, capazes de te acompanhar no progresso e faças entrevistas para substituir os incapazes.

— E o problema do setor…

— Vou despedir toda a equipa. – Respondeu, interrompendo-me. – Não podemos perdoar tal erro, se mostramos fraqueza os nossos adversários devoram-nos, sem dó nem piedade.

— Mas pai, não podemos despedir um departamento inteiro, são 10 pessoas, não são 1 nem 5, são 10.

Tentei argumentar, ele não podia despedir a Helena, não a podia levar para longe de mim. Não agora que a verdade vai ser descoberta, mais do que nunca preciso a ter por perto, não posso correr o risco que ela desapareça para sempre.

— Já tomei a minha decisão e foi exatamente por isso, que pedi para não te envolveres com essa jovem. Não a podes por a frente dos negócios, a nossa oportunidade é agora e ela nunca te conseguiria acompanhar.

— Não pai, ela…

Precisava faze-lo mudar de ideias e teria o feito, se o telefone não tivesse nos interrompido. Depois de me ter feito sinal, para eu me calar atendou a chamada e com apenas duas palavras desligou.

— Eles chegaram, vamos dar a notícia do despedimento. Se quiseres podes voltar para casa hoje, prepara tudo o que te pedi e depois podemo-nos reunir para discutir os planos e os pôr em prática.

Dito isto saiu, deixando-me sozinho na sala. Ele vai a despedir. Repeti vezes sem conta na minha cabeça, até que percebi que tinha de agir, sai do escritório do meu pai e fui para a sala de reuniões. Ao chegar lá, abri a porta devagar, não chamando a atenção de ninguém, além do meu pai que me olhou irritado.

— Por este motivo, a equipa fica oficialmente demitida foi efeito imediato.

Concluiu o seu discurso, como se tivesse acabado de apresentar uma palestra importante. Por outro lado, os sussurros desaprovadores e chocados começavam. Bem como o choro baixo de algumas mulheres, que temiam pelo seu futuro e o das suas famílias. No entanto, ninguém era capaz de enfrentar o meu pai, todos o temiam, sabiam o quanto ele era rude e implacável nos negócios. O despedimento coletivo de toda uma equipa, era a prova do quanto ele era exigente e não temia por tomar decisões. Mesmo sendo seu filho, eu também temia esse seu lado.

— Senhor…

— Senhor Alfredo, não acho que esteja a ser junto. – Uma voz suave interrompeu-me, suando firme no ar pesado, surpreendendo tudo e todos. – Despedir toda a equipa por um simples erro não é o correto, não ajuda nem um pouco a valorizar a empresa. Principalmente se o seu objetivo para nos despedir, é para não deixar decair o seu valor da companhia.

— Não me desafie menina. – Rosnou com raiva, ele odiava ser enfrentado pelos seus subordinados, ainda por cima em frente da equipa que acabou de despedir.

— Eu não o estou a desafiar. – Respondeu de forma serena, enfrentado o meu pai de igual para igual. – Se o senhor acredita que a empresa pode crescer, despedindo dez pessoas sem só nem piedade. Então o senhor não é o líder que julga ser, não é melhor do que nós que cometemos um simples erro, pois o seu erro causará um dano muito maior na empresa.

O silêncio instalou-se de tal forma, que ninguém ousava se quer respirar. Eu diria até, que tinham caído alguns graus naquela sala, se o ar condicionado não tivesse a funcionar devidamente.

— Como o Senhor irá garantir, que a nova equipa não comete o mesmo erro? Que eles são melhores do que nós? Conhecimento e experiência ganham-se com o tempo, são um dado adquirido, não pode ser oferecido ou comprado. É com os erros que podemos melhorar, crescer e evoluir como profissionais, não ao ser despedidos. A única coisa que vai ganhar com o nosso despedimento, é que os seus rivais tenham a oportunidade de ganhar funcionários, com uma capacidade superior. Com experiência, talento e sobretudo conhecimento sobre outras empresas. Sobre o modo como operam, clientes, investidores… Quer mesmo arriscar a um despedimento coletivo, Senhor Alberto?

Inteligente. Não me podia sentir mais orgulhoso da minha mulher, quero ver se depois disto o meu pai ainda a vai achar fraca e vulnerável.

— Podem regressar aos seus postos de trabalho, a reunião acabou.

Olhei furioso para o meu pai, ao perceber que todos se levantavam de cabeça baixa, enquanto suspiravam derrotados. Ele não podia fazer isto, não quando ficou calado, com cada argumento dado pela Lena.

— E o despedimento?

Perguntou séria, mantendo o seu olhar fixo no seu oponente. Fazendo toda a equipa parar, para observar a sua ousadia, curiosos pela resposta que ela receberia. Pior que ficar no desemprego, o meu pai não podia fazer, por isso, ela não tinha realmente mais nada a perder. No entanto, para mim a sua atitude, só me fazia a valorizar cada vez mais.

— Foi cancelado.

Foi impossível, alguém ficar indiferente ao suspiro de alívio, que explodiu naquela sala. Uns festejavam alegres, enquanto outros, apenas sorriam tentando manter a postura profissional. Havia também alguns que se arriscavam em um abraço reconfortante e orgulhoso. Olhei novamente para o meu pai, que observava tudo silenciosamente, com a expressão séria de sempre. Até que simplesmente se afastou, caminhando para a porta de saída, cruzando-se comigo ao pé da mesma.

— Afinal eu estava enganado, parabéns. – Sussurrou, para que mais ninguém ouvisse.

 

Naquele dia, não pude deixar de a convidar para um jantar, eu queria festejar a sua vitória. Dar-lhe os parabéns, por calar o grande e intocável presidente Alberto Melro, contar-lhe a verdade que veria ao de cima, em apenas alguns dias. Mesmo assim, eu não podia deixar de temer pelo futuro, temer pela verdade. E se ela não me perdoasse? Se terminasse o nosso namoro? Apesar de todas as dúvidas, apenas uma certeza girava à minha volta, se não for eu a contar, o fim está bem mais próximo. Quando eu achei que ela não podia me surpreender, eu recebo exatamente o contrário. Porque não só ela foi capaz de me perdoar, como também me apoiou em cada um dos momentos que se seguiram. Depois de aceitar o nosso namoro, o meu pai ainda lhe ofereceu um lugar ao meu lado. Para que juntos, levássemos a empresa para o patamar, tão sonhado por todos nós. Tudo corria bem, até que o meu pai morreu e eu tive de assumir o seu lugar na empresa, não foi fácil, mas a Lena estava ao meu lado. Nós já morávamos juntos e só faltava a pedir em casamento, só ainda não sabia como o iria fazer.

Infelizmente como tudo na vida, a minha bolha de felicidade estourou, levando a empresa no seu encalço. Depois disso, apenas o pesadelo ficou, associado a um futuro negro, sem luz no fim do meu túnel. Nesse mesmo dia, eu expulsei a Helena na minha casa, apagando cada traço da sua passagem pela minha vida. Mesmo assim… por mais que me afundasse no trabalho, por mais que tentasse corrigir o passado, eu não era capaz de ser feliz. Era impossível, não me torturar com tudo o que aconteceu, mas ainda era mais difícil a perdoar e poder descansar. Quando finalmente, tudo se parecia estar a encaixar, ela voltou. Voltou para me assombrar e infernizar os meus dias, mas sobretudo as minhas noites.

Não digo que não fiquei mexido com a sua presença, pois sem dúvida, eu estaria mentindo com todos os dentes que tenho na boca. Principalmente porque eu me arrepiei todo, apenas com o som suave da sua voz. Não precisava de mais nada, para fazer o meu coração bater desenfreado, para os meus sentidos ficarem em estado de alerta total. Infelizmente, ela sempre exerceu esse poder sobre mim, essa paixão que nenhum mar no mundo conseguia extinguir. Eu teria certamente corrido para os seus braços e chorado que nem um bebé, se não me recordasse do passado, mas essa é uma ferida que não vai fechar facilmente.

Manter a raiva estampada no meu rosto, ao vê-la tão diferente, cansada, magra, sem brilho… deixava-me fraco, um inútil sem força de vontade, até que finalmente vi o seu vente volumoso, ela estava grávida. Como ela volta, estando grávida de outro, esfregando na minha cara a sua traição, o seu verdadeiro carater. Como tem coragem de olhar para mim, com aqueles olhos frágeis, vacilante, quando sou eu… quando a verdadeira vítima de tudo isto, sou eu. O problema é que ela sabia, sabia do meu coração fraco, que a amava apesar de tudo. Só que desta vez não ia ser assim, eu não seria enganado uma segunda vez, mas fui.

Nunca me senti um desespero tão grande, como no momento em que ela simplesmente desmaiou na minha frente. E eu tive de correr, para impedir que o seu corpo, bate-se desamparado no chão frio do meu escritório. Naquele momento eu bloquei, imaginei-me a perdê-la novamente, junto ao fruto do nosso amor. Só que ela na verdade não merecia o meu amor e aquele bebé, não era meu, mas um dos frutos da sua traição.

— Helena acorda, eu não vou ser enganado por um falso desmaio. Helena? – Toquei na pele fria do seu rosto. – Helena? Meu Deus Helena, acorda de uma vez, por favor… Lena… RUTE… RUTE… SOCORRO, RUTE… Helena, abre os olhos por favor, meu amor, abre os olhos… RUTE… RUTE…

— Chamou senhor? – Perguntou aflita entrando no meu escritório, sem mesmo bater. – O que aconteceu?

— Chama uma ambulância, RÁPIDO. – Gritei aflito, sem desviar os olhos da mulher desfalecida, nos meus braços.

— Ambulância? – Ouvi a voz da Carina que logo apareceu na porta, ao ver a amiga desmaiada, ela correu até nós. – HELENA, meu Deus Helena, acorda por favor. Não me faças isto novamente, por favor acorda amiga, já passaste tempo suficiente no hospital.

Hospital? Porque ela esteve no hospital? Será que ela foi maltratada, pelo seu amante? Seja como for, isso não é comigo. Ela não é mais nada minha, é apenas uma desconhecida grávida, nada mais.

— O que esta a acontecer aqui? – Perguntou a minha mãe, ao perceber a confusão que acontecia na minha sala. – O que aconteceu Paulo? Quem é essa mulher? Helena?

Com a aproximação da mulher que me deu a vida, eu afastei-me da Helena, não queria dar a ideia errada. Não podia deixar, que ela creditasse que o filho era meu, ou que ainda existia entre nós. Principalmente, quando não lhe queria contar a verdade, eu certamente perderia a presidência da empresa. O meu irmão, não vai ficar com o meu lugar, com o que eu conquistei e construí. Com tudo, o que o meu pai e o meu avô deixaram para mim. Já bastou eu os ter desiludido por causa dela, já me sinto frustrado, penas por os imaginar a revirarem-se no caixão. Esta mulher, já roubou demasiadas coisas de mim, a companhia não vai ser mais uma.

 

Continua…

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