Cloe Fenix

Arte de escrever

Como descrever um cenário

Os cenários são uma parte muito importante de um livro, sem eles, a cenas passar-se-iam num vazio temporal e sem interesse. O uso correto de um cenário, contribui muito para a cena, pois não só lhe confere interesse, como pode também lhe dar mistério, humor, romance… Um cenário bem descrito, consegue levar um leitor para outro mundo, ajudando-o a mergulhar nas aventuras e dores dos personagens. No entanto, fica a dúvida como se descreve um cenário?

Cenários e ponto de vista (POV)

Quando de descreve um cenário é muito importante ter em consideração o ponto de vista utilizado. Se o POV é usado na primeira pessoa, devemos ter em conta a visão da personagem e os seus sentimentos. Se você entrar numa sala, não a vai ver como um todo, mas sim como parte de um todo. E sempre vai haver algo em especial, que capta a sua atenção. Este objeto ou pessoa que capta a sua atenção, pode ser forte o suficiente para o fazer não reparar em mais nenhum pormenor do espaço. Então o cenário em volta, é passado para segundo plano ou mesmo descartado, porque não é útil para o leitor. Principalmente porque não interfere, na visão do livro e o leitor não sentir a necessidade de saber mais. Porque está atento ao que se passa na cabeça do personagem.

Pode tentar este tipo de visão entrando numa sala, principalmente uma sala que não conhece. Por exemplo: se entrar pela primeira vez, num consultório de um médico o que vai ver primeiro? Provavelmente o próprio médico ou até mesmo o local onde se vai ter de sentar, só depois irá reparar nos pormenores, principalmente enquanto espera que prepare algo, que registe alguma coisa ou que lhe responda a uma pergunta. E se tiver nervoso? Ou até mesmo irritado? Acha que repara mais ou menos naquilo que o rodeia? Pois, isto depende de pessoa para pessoa e é aqui que entra o tipo de personagem que tem, observador, tímido, retraído…. Se o personagem é tímido e fixa o seu olhar no chão, não faz sentido descrever o que existe em cada parede ou comodo. De certa forma, faz mais sentido escrever sobre o que sente ou que tipo de chão ou tapete vê. Porque a sua atenção está focada ali, já que ele de forma metafórica se encolheu no espaço.

Já com um posto de vista na terceira pessoa, os cenários são vistos de uma maneira diferente. Já que a descrição não é só do que o personagem vê, mas do que pode ver ou deixou por ver e era importante que notasse. Escrever na terceira pessoa é praticamente a mesma coisa, que se sentar a frente de uma janela e observar uma cena, ou ver um filme ou peça. Muita coisa a ocorrer em simultâneo, mas nem tudo é notado pelo personagem. Por isso, pode facilmente descrever o movimento de uma rua de França ao longo do rio Sena, enquanto o personagem apena observa o rio pensativo alheio a tudo que o rodeia. A meu ver, existe um problema associado a este ponto de vista, já que o autor tem uma tendência maior, a exagerar nos pormenores. Este exagero muitas vezes torna o livro longo e aborrecido para o leitor.

Criar um cenário

Construir um cenário é quase, como construir uma casa. Imaginar cada parede, cada janela, porta, cor, objeto, textura, sentimento, calor…. Tendo em conta que podemos usar esses objetos, cores e texturas para transmitir emoções, sentimentos escondidos ou mesmo atribuir a algo positivo ou negativo. Um cenário pode ser algo totalmente inventado, como pode ser a descrição de algo que esta a ver. Podemos deixar a visão aberta, para que o leitor a imagine a sua maneira e completa na sua cabeça a imagem, ou fechada dando-lhe cada pormenor.

Uma das dicas que mais me foram uteis e ficou bem presente na minha cabeça. Foi criar o hábito de escrever num caderno, um determinado cenário ou cena que estaria a presenciar. Um dos exemplos que de brincar é com o por do sol. O que sente, quando olha para ele? Como descreve o que vê?

Eu diria que é uma imagem quente, que aquece o coração, antes que a escuridão caia sobre nós. Ao usar está expressão, estou a prever que algo de negativo pode acontecer, porque da escuridão pode vir muita coisa, já que o mal se esconde nas sombras. Já a luz nos dá energia, nos enche de esperança e nos dá força para continuar. Se temos um personagem que está em sofrimento ou em conflito por algo, podemos usar um cenário para intrigar o leitor, dando-lhe pistas sobre o que vai acontecer a seguir. Despertar memórias, envolver o leitor em intrigas mesmo sem envolver mais ninguém.  Um cenário pode ser usado de várias formas, não só para localizar o personagem na história, como também para tornar a história mais interessante, misteriosa e cativante.

Exemplo de construção de um cenário

Quando construo um cenário, começo por imaginar o tempo e espaço da cena. Se a cena se passa em um jardim, eu primeiro penso no que tem esse jardim, tem árvores, tem bancos, um lago, um parque infantil… é mais fácil imaginar algo que já viu ou viveu. Use e abuse das suas recordações, ou de imagens que possa encontrar em casa ou na internet e tente descrever as cenas como as imagina. Depois de imaginar o espaço, eu penso que dia a personagem vai encontrar, isso permite-me pensar do tipo de roupa que ela pode usar. Se o dia esta quente, pode usar uma roupa mais de verão, se está frio ou se esta nublado, imagino uma cena em que pode chover repentinamente a qualquer momento. Ao mesmo tempo, neste tipo de cenário as suas roupas têm de ser mais quentes, se não o for o caso, então algo se passou. A minha personagem podia ter fugido de algo, podia ter sido assaltada, podia ter dado o seu casaco para alguém. O facto de ter um personagem num parque, com roupa de meia estação ou mesmo de verão num dia frio e chuvoso. Pressupõem algo, isso alerta ao leitor que vem um mistério a caminho. Porque o cenário deu-lhe pistas, que não foram faladas pelos personagens. É uma forma de usar o cenário, como um diálogo invisível, que não é falado, mas sentido na história.

Esta forma de diálogo cria movimento na história, prende o leitor mesmo nos períodos mais monótonos, porque vai ter medo de perder uma pista importante. É uma forma de manter o leitor atento, até o último momento, até ao último ponto final.

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