Conto “O lar de Mariela”

Mariela era uma menina trabalhadora, empregada no velho restaurante do seu falecido pai, agora totalmente diferente das suas lembranças de infância. As velhas paredes rachadas na cor de lavanda eram agora brancas, adornadas com magníficos quadros de pintores famosos. O simples candeeiro do teto tinha sido substituído por um exuberante candeeiro dourado, repleto de pedras brilhantes. Demasiado excêntrico para o pequeno espaço, mas que conferia uma mensagem de riqueza, que só podia ser completada pelas magníficas toalhas em linho puro. Tudo era em demasiado, tudo apenas refletia o desejo de luxo, das suas meias-irmãs e da sua madrasta já aposentada e cheia de botox. No entanto, aquele era o familiar restaurante dos seus pais, o local onde ela brincava, sentada na mesa do canto. Era ali que pintava as mais belas borboletas, enquanto ria com as brincadeiras da sua mãe. Era naquele mesmo canto onde podia passar horas, ao som melodioso da voz da sua progenitora, que calmamente ajeitava os pequenos jarros com flores que perfumavam o lugar. Já na cozinha, o seu pai preparava os mais deliciosos pratos, simples, familiares, a típica comida de consolo servida ao fim de um dia de trabalho. Memórias de tempos acabados, agora substituídos por finos pratos, dignos de constar em um museu. Tudo sobre o gosto requintado de Maria Antonieta e da crítica Joana, que desfilam entre as mesas procurando defeitos e sorrido para os ricos clientes, a procura do seu par.

No meio de todo o luxo, Mariela era a pobre menina, vestindo o refinado uniforme, mais pesado do que algemas, que a prendiam aquele lugar. Sim, ela era livre de ir embora, mas eram as ricas memórias, que a deixavam parada, a trabalhar que nem uma escrava no lugar que tanto amou.

— Mariela, estes copos ainda estão sujos, os talheres estão com manchas e as pratas ainda não foram polidas. – Gritava a Joana tão firme, como se liderasse um exército em frente de uma batalha.

— Sim, senhora, vou tratar disso agora mesmo.

Anunciou apressada, correndo de volta para a cozinha em busca do material necessário. Já perto da hora do almoço chegou a Maria Antonieta, vestindo um dos seus vestidos de marca. Enquanto exibia a sua nova aquisição, um colar da mais fina joalharia, que custava mais, que um dos rins de Mariela. Poucas eram as vezes que a jovem sentia inveja das suas irmãs, da vida refinada que levavam, da atenção que só elas recebiam. Sem falar dos seus noivos que passeavam em carros último modelo, donos ou herdeiros de grandes companhias, famosos por ser vistos com as mais lindas mulheres. Mas logo ela se dava conta de que toda aquela beleza, era apenas uma fachada. O luxo era apenas uma conveniência, uma joia bonita, fria e sem sentido, que ofuscava mais do que valia. Da mesma forma, que o restaurante familiar que um dia amou, tinha sido vestido de ouro cravejado a perdas preciosas, que deslumbravam os olhos gananciosos, mas que era incapaz de encher os seus corações.

Naquele momento, sentindo-se um fantasma nas sombras, apenas aguardando os desejos dos seus senhores, Mariela deu-se conta da verdade. Ali já não era o seu lar, a casa que amou e que partilhou com tantas famílias. O espaço que a fazia feliz, onde brincou com os meninos da vizinhança, enquanto os seus progenitores usufruíam de uma refeição calma e reconfortante. Onde via os seus pais felizes, a dançar na cozinha, entre sorrisos e gargalhadas, enchendo todo o lugar. Então fechando toda a história, Mariela tirou o avental e, com um sorriso, despediu-se do seu passado e entregou o seu lugar, para nunca mais voltar.

Conto “O lar de Mariela”

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