O certo no incerto – Capítulo 12

Os dias passaram a voar e aquela conversa ainda mexia comigo, até um ponto que eu me perdia em mim mesma. Era verdade, que já se tinha passado alguns dias, desde a última conversar que o ouvi a ter, com a tal de Júlia ao telefone. Por mais que ele tentasse disfarçar, eu sabia de quem se tratava, era muito fácil de identificar. Principalmente porque era a única pessoa que lhe ligava, que o fazia atender a chamada longe de nós. Os homens são muitos fáceis de ler, agora de entender, isso já não é tão fácil e depois as complicadas somos nós. Bem… até que isso é verdade, somos bem complicadas, mas fogo também somos humanas.

— Então, quando vai ser a festa da Lia?

Perguntou o Filipe, enquanto desgostava um pouco de vinho. Como era o nosso habitual, estávamos a almoçar perto do seu escritório, rotina que mantínhamos pelo menos uma vez por semana, desde a festa.

— Vai ser este sábado. – Respondi sem graça.

— Hum sério? – Perguntou surpreso, apercebendo-se que eu não o tinha convidado ou tão pouco tocado no assunto nos últimos dias.

— Desculpa, eu não te convidei. – Respondi, quase como se lesse os seus pensamentos. – O Carlos pediu-me para eu não o fazer e eu compreendi. Afinal este é o primeiro aniversário que eles passam juntos e por isso ele quer que seja especial, para ambos.

— E eu seria um obstáculo para ele. – Resmungou.

— Ele apenas quer ser o pai, que eu recusei à minha filha, desde pequena. Eu não o posso censurar por isso, é um direito dele…

— Não, não é. – Respondeu friamente, interrompendo-me. – Ele perdeu esse direito assim que te traiu, o contrato que ele assinou determina que em caso de abandono do lar e traição, ele abdica de todos os seus direitos de marido e pai. Ele não tem direito a nada teu, nem a tua filha, só precisas assinar os papeis para seres oficialmente livre.

— Filipe, eu sei disso tudo e agradeço tudo o que fizeste, mas um papel não apaga o facto que ele é pai. Não apaga a ligação, que eles construíram nos últimos dias. Apesar de tudo, o Carlos é um pai maravilhoso, presente, atencioso… ele ama a filha e faz tudo por ela, eu não o posso privar de estar com ela. Eu não tenho o direito, de tirar à minha filha o seu pai, já o fiz uma vez e desta vez não vou cometer o mesmo erro.

— Ela é nova, ela logo vai esquecer sobre ele e acolher o homem que tu escolheres, para ser o seu pai. – Agarrou a minha mão, acariciando a mesma, com uma certa firmeza. – Escolhe-me, deixa-me ser o homem que te faz feliz, o pai que a tua filha precisa.

— Não é assim tão simples. – Como é que lhe explico, que ele não é capaz de provocar em mim, o que o Carlos provoca, com um simples olhar ou toque.

— Tudo pode ser simples, se deixares. – Puxou a minha mão ainda mais, na sua direção. – Eu vou te fazer feliz, muito mais do que ele te fez, eu combino muito mais contigo. A mídea vai enlouquecer quando souber, que o famoso advogado e a famosa escritora de romances, darão o nó em breve. Vamos ser tão conhecidos e famosos, que vamos precisar de contratar diversos seguranças para nos proteger de dia e noite. Assim que tivemos casados, podemos tratar de mandar vir os nossos herdeiros, que tal? Podemos assumir o nosso namoro assim que o divórcio sair, eu prometo que tudo vai ser bem rápido.

— Desculpa Filipe, mas eu não posso. – Disse retirando a minha mão.

— Porquê? – Tentou toca-me novamente, mas eu escondi as minhas mãos por baixo da mesa. – Porque rejeitas o meu toque, o meu amor? Eu fui te fiel por todos estes anos, mesmo depois de te teres casado com aquele desgraçado. Eu mantive-me afastado, para o teu próprio bem, mas agora que eu tenho outra oportunidade… agora que eu posso reivindicar o que é meu por direito, porque te afastas de mim?

— Desculpa Filipe, mas eu não sinto o mesmo por ti. – Vi o seu olhar desiludido, sobre mim. – Eu não te quero magoar, mas foi um erro esperares por mim, nós nunca daríamos certo. Somos apenas bons amigos, nada mais.

— Como podes dizer isso, se nem me deixas aproximar de ti. – Disse com raiva. – Até no baile, tu rejeitaste-me.

— Nós somos só amigos…

— Eu não quero, ser só teu amigo. – Elevou a voz, chamando a atenção de todos que nos rodeavam.

— Fala baixo, por favor. – Pedi, envergonhada.

— Porquê? – Ele parecia bem confuso e incrédulo. – Eu sou tudo o que precisas, eu sou rico, tenho uma carreira de sucesso, um nome no mercado. O que ele têm? Porque teve de ser ele?

— Tudo o que falaste, foi de dinheiro e status social, eu nunca quis nada disso. Porque achas que me escondo por trás de um pseudónimo, porque nem a minha fotografia, aparece nos meus livros ou bibliografia. – Perguntei fitando o homem confuso, na minha frente. – Eu não me interesso por dinheiro, fama ou posição social. O Carlos sempre foi perfeito para mim, porque ele sempre me aceitou como era. Ele sempre me amou, por quem eu era, não pelo que representava.

— Mas tu és mais do que isso, todos vão se apaixonar ainda mais, por quem tu és. – Ele parecia desesperado, por me fazer mudar de ideias. – Quando te conhecerem, os teus livros vão vender muito mais, vais ser muito mais rica, mais famosa…

— Chega, por favor, para. – Pedi, eu estava cansada, confusa e só queria descansar. Só queria um almoço descontraído e relaxante com um amigo, não um pretendente. – Eu não quero isso, nunca quis e nunca vou querer, não temos ideais muito diferente. Por mais que quisesses me fazer feliz, eu nunca seria feliz a viver como uma dondoca. Eu percebo que possas ter as melhores intenções, mas eu não sou quem tu pensas. Desculpa.

— Então quem és tu?

Ele estava totalmente desnorteado, não percebia de todo o motivo da minha rejeição e de certa forma eu também não, apenas sabia que não era o certo. Que ele nunca seria feliz ao meu lado, talvez se ele tivesse aparecido num momento de fragilidade, eu o teria aceite. Talvez hoje fossemos casados e a Lia o chamasse de pai, mas… no fim tudo seria uma ilusão, a felicidade nunca seria completa. Tal como naquela festa, cheia de luxo e aparências, de risos frios e conversas superficiais. A minha vida seria uma farsa, tal como o Carlos, eu seria iludida por uma falsa sensação de amor e segurança. Quando visse a verdade seria tarde de mais, a minha filha estaria ligada a um pai que não era o seu e eu a um casamento de aparência. Agora eu o compreendo, agora eu sei o que ele esta a sentir, depois de perceber o seu erro. A felicidade não se ganha, ela constrói-se passo a passo.

— Uma mulher simples, que pressa pela sua privacidade, pela sua paz e pela sua família. O sucesso, foi algo inevitável para mim, surgiu pelo meu sangue e suor. Esse é o meu trabalho, não quem eu sou. – Respirei fundo e aproveitei a pausa para beber um pouco de água. – Eu não escrevo pela fama, eu escrevo porque gosto, porque eu quero transmitir algo a quem lê, as minhas histórias.

— Isso não é igual? O teu sucesso, a tua fama é apenas uma consequência, ele…

— Sim é uma consequência, mas não significa que eu me tenha de sujeitar a ela. Eu te vi naquela festa, como sendo uma parte do teu mundo, um local onde tu pertencias. Ao contrário de mim, que me sentia deslocada, eu não pertencia ali. Tudo o que eu queria, era poder voltar para casa e tu insistias em apresentar-me, como uma escritora. Não era isso o que eu queria, eu nunca me poderia habituar aquele mundo. Podemos ter o mesmo status social, uma conta bancária parecida, um nome associado ao sucesso e mesmo assim, somos de mundos diferentes.

A conversa durou mais algum tempo, até que ele finalmente percebeu, que eu não podia aceitar um destino mais sofrido, que o meu passado. Só espero não ter perdido um excelente amigo e advogado.

Finalmente havia chegado a festinha da Lia e tudo seguia na perfeição, até ao último detalhe. A animação dela era contagiante e a ansiedade também, felizmente o Carlos levou-a para o passeio que tinham combinado. Assim podia cuidar de tudo com calma, sem ter que a distrair, ou me preocupar em esconder as surpresas. Logo com a ajuda da Sofia, da minha mãe e da minha sogra, resolvemos tudo o que faltava e ficamos à espera dos convidados, que logo começaram a chegar.

— Mamã… – Cumprimentou-me a minha pequena, ao entrar na sala. – Olha a boneca que o papá me deu…

Esticou na minha direção, uma boneca de trapos, quase tão grande como ela. Com cabelos compridos pretos, um lindo e simples vestido azul bebé, com uma fitinha na cinta branca e meias compridas as riscas.

— Que linda, agradeces-te ao papá?

— Sim… – Disse confirmando, também com a cabeça.

— Olha quem chegou? – Brincou a Sofia, ao entrar no cómodo. – Uma porquinha aniversariante, que precisa de um bom banho, para vestir um lindo vestido de princesa, que a madrinha comprou.

— Vestido de princesa? – Perguntou com os olhos brilhantes.

— Sim, que eu vou dar a outra menina, se não te despachares a ir para o banho.

Sem dizer mais nada a minha filha simplesmente correu, desaparecendo pelo corredor, provocando uma pequena risada em todos.

— Acho melhor despachar-me, ou vou encontrar uma verdadeira confusão, quando chegar ao quarto.

— Obrigada. – Disse vendo-a sair com um sorriso no rosto.

— A nossa filha é linda. – Ouviu o homem atrás de mim dizer. – Obrigado, por a educares tão bem, enquanto eu estive ausente.

— Obrigada, fiz o que pude. – Sorri tímida.

— Fizeste muito mais do que isso, porque se isto foi o que pudeste fazer, acredita em mim… – Sorriu, aproximando-se. – Se fizesses o teu melhor, serias a mãe do século, terias de passar a escrever livros sobre educação e não romances.

— Não exageres. – Eu não sabia o que fazer, como agir ou dizer, ele estava a deixar-me desconcertada.

— Não é exagero nenhum, linda… tu és uma mãe maravilhosa, a nossa filha é uma criança incrível e eu não podia estar mais feliz. – Tocou o meu rosto com carinho, provocando várias emoções esquecidas. – Aliás, até podia… se me perdoasses e aceitasses uma possível reconciliação, um novo começo.

O meu coração batia tanto que parecia que me ia saltar do peito, o ar parecia que não era capaz de entrar nos meus pulmões. Eu termia, só de pensar na sensação dos seus lábios nos meus, eu sofria pela antecipação e pelo terror do que podia acontecer. Eu tinha congelado, enquanto ele aproximava-se perigosamente de mim, com os olhos fixos nos meus lábios. Eu queria afastar-me, correr para longe dali, mas os meus pés pareciam pregados no chão. O desejo crescia dentro do meu ventre, tal como o medo absorvia toda a minha cabeça. Eu travava uma luta comigo mesma, que não parecia ter fim. Até que uma voz chegou aos meus ouvidos, quebrando toda a magia e a angústia que tomava o ar.

— Onde anda a minha princesa, a festa não pode começar sem a personagem principal. – Perguntou a minha sogra, ao entrar dentro de casa.

— A Sofia esta a cuidar dela.

Respondeu afastando-se de mim, enquanto eu recuperava a postura. Estava cada vez mais difícil resistir-lhe, em algum momento eu ia acabar por ceder. O problema era que a cada gesto, a cada aproximação, ele lembrava-me do meu Carlos, do homem por quem me apaixonei e casei. E como se não bastasse, ele parecia estar ainda melhor, eu não queria admitir… eu não quero aceitar que a distância e ainda pior, que outra mulher, fez do meu homem alguém melhor, mais maduro, responsável e atencioso.

— Os convidados, já estão quase todos aqui, estamos a organizar-nos para a surpresa.

— Eu vou ver se já estão prontas. – Disse aproveitando para sair da sala, neste momento eu precisava de distância dele.

Assim que entrei no quarto e vi a minha princesa linda, com um vestido lilás, com um cinto branco e uma saia pelo joelho com várias camadas, que faziam um degrade de cores. O seu cabelo tinha sido entrançado ao estilo da Rapunzel e uma coroa simples de flores enfeitava a sua cabeça.

— Como está linda, a minha princesa. – Disse emocionada, agachando-me para receber o seu abraço. – Vamos ver os teus amiguinhos?

— Sim… – Respondeu saltitante, com um sorriso mais radioso que o sol.

— Então vamos.

De mãos dadas, percorremos o caminho até ao jardim, devagar abri a porta revelando um grupo repleto de crianças e adultos, que gritavam bem alto “Parabéns Lia”. Logo um grupo de bailarinos fantasiados de doces apareceram, com danças estapafúrdio, que roubou o riso aos adultos e empolgou as crianças. Em pouco tempo, risos e brincadeiras suavam pelo ar, enquanto os adultos conversavam e saboreavam algumas bebidas e petiscos.

— Então aquele é o famoso pai da Lídia. – Ouvi uma das mães perguntar para a outra. – Nada mal, será que eles estão separados?

— Não sei, mas se ele estiver livre candidato-me já e peço o divórcio do meu marido. – Respondeu a outra.

— Eu vi primeiro querida e agora estou solteira. – Observou-o da cabeça aos pés com malícia, deixando-me enjoada. – Acho que vou aproveitar, ainda mais que ele deve ter um bom dinheiro, com uma casa destas.

Porque toda a gente supõe, que o homem é quem deve ganhar mais, as mulheres têm o mesmo direito e trabalham tanto ou mais que eles. Bebi mais um pouco do meu sumo, mas logo presenti que precisava de algo mais e fui atrás de um copo de sangria. Esta é uma festa para crianças, por isso as bebidas alcoólicas são poucas, limitando-se a algumas cervejas e sangria bem fresca. Por todo o lado, eu ouvia comentários sobre o Carlos, respondia a algum questionário sobre ele e o nosso relacionamento. Ou o via a conversar com alguma mulher, que aproveitava a ausência do marido ou o seu estado civil, para o seduzir. Mais uma vez um misto de sensações, se misturaram dentro de mim, levando-me a perder a conta aos copos que despejava. Quando chegou a hora dos parabéns, eu sentia-me meio que anestesiada e alegre. O que fez com que cantasse bem alto a música dos parabéns, sem me importar com o que os outros pensavam, enquanto a minha filha vibrava no colo do pai. Depois de cantar e cortamos o bolo, as avós distribuíram o mesmo.

— Estás bem? – Perguntou-me a minha amiga e cunhada, sentando-se ao meu lado.

— Sim claro, porque não estaria? Não é todos os dias, que a minha pequena completa quatro anos.

— Pois, nem é todos os dias que sozinha, despejas uma caneca de sangria. – Respondeu séria. – Aliás, eu nem me lembro de alguma vez teres tocado em mais de dois copos, de qualquer bebida alcoólica. O que se passa?

— Não se passa nada, apenas estou feliz. – Menti, avistando o Carlos ao longe, a conversar com uma loira.

— Já vi qual é o problema. – Parou a analisar a mesma cena. – Eu também ouvi os comentários, mulheres desocupadas e tagarelas tem destas coisas. Não podem ver carne fresca que atacam logo, sem esquecer que ele é uma fofoca fresquinha.

— É… – Respondi sem animo.

— Sabes eu não o vi a responder, a nenhuma das investidas delas, ele até se esquivou de algumas. – Tocou no meu braço, chamado a minha atenção. – Hoje a Lia dorme na minha casa, aproveita para conversar com ele.

Dito isso levantou-se e chamou toda a gente para participar de um brinde, antes de abrimos as prendas. Assim que os convidados começaram a sair, a minha família ajudou-me a arrumar algumas coisas. Principalmente a comida que tinha sobrado e o lixo maior, o resto seria limpo por uma equipa de limpeza. E também pela empresa, que recolheria as mesas e cadeiras, bem como todo o material usado para a decoração e entretenimento.

— Mamã… – Correu até mim, abraçando as minhas pernas.

— Sim princesa?

— É verdade, que eu vou dormir na casa da madrinha hoje?

— Sim é verdade, querida. – Sorri acariciando o seu rosto. – Gostas-te da tua festinha?

— Sim.

— Muito?

— Muito.

— Quanto?

— Assim… – Esticou os seus bracinhos o mais que conseguiu, fazendo-me sorrir.

— Vais te comportar, na casa da madrinha? – Perguntei pegando-a no colo.

— Sim, eu vou portar-me como uma mulherzinha. – Respondeu séria.

— Então vamos preparar a tua mochila e depois vais te despedir de todos. – Concordou silenciosamente, enquanto caminhava para casa.

— Não precisas de te preocupar, eu já arrumei tudo e já estamos prontos para ir. – Disse a Sofia, aparecendo na porta. – Só falta a princesa aí, se despedir.

Sem dizer mais nada, recebi um abraço de urso da minha pequena, que logo desceu do meu colo e correu para se despedir das restantes pessoas. E assim todos se começaram a despedir, um por um até ficarmos os dois sozinhos. Eu não pensava que a esta altura do campeonato, eu pudesse ficar nervosa como uma adolescente, só por ficar sozinha com ele. Mais uma vez, eu fui até a cozinha procurar o que restava de qualquer bebida alcoólica, neste momento eu já não era esquisita, eu apenas queria algo para me ajudar a relaxar. Eu estava tão desesperada por algum apoio, que já estava pronta até para beber álcool etílico.

— Estás a beber? – Perguntou surpreso, vendo-me de cerveja na mão. – O que se passa Lea? Tu não és de beber, ainda mais porque ficas facilmente alterada, quando exageras. E pelo teu estado, já exageraste e bem.

— Quem exagerou? – Perguntei, pousando a minha bebida e caminhando na sua direção. – Eu estou bem, não estou nervosa nem nada… Até consigo fazer o quatro, olha…

Tentei apoiar-me numa perna, mas como seria de esperar desequilibrei-me, caindo nos seus braços musculosos e firmes. Oh pá, acho que estou a ficar excitada, será do álcool?

 

Continua…

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