O certo no incerto – Capítulo 14

Eu não sei o que aconteceu, eu sou apenas uma criança que acabou de conhecer o seu pai. Não percebo o que se passa na cabeça dos adultos, porque eles têm de complicar tudo. Eu tenho a melhor mamã do mundo, linda, inteligente, divertida, criativa e… ela simplesmente adora cuidar dos outros. Eu ainda era pequena, mas lembro-me de uma coisa, que a minha mãe me disse.

— Nem toda a gente têm a sorte que nos temos, muitos tem de lutar para simplesmente poder comer alguma coisa. Hoje são eles que sofrem, amanhã podemos ser nós. Se não damos a mão a quem precisa, quando precisamos de uma mão, não teremos ninguém para a estender. Ajudar, para amanhã teres alguém que te ajude.

Eu não percebi muito, mas acho que um dia vou perceber, que aquela lição é muito valiosa. O papá também parece gostar muito desse lado da mamã, aliás eu acho que ele ama muito a mamã.

— Dorme minha princesa, o papá estará aqui quando acordares. – Sussurrou no meu ouvindo, ele deve pensar que eu já adormeci. – Desculpa-me por não ter estado aqui, por não ter te embalado enquanto choravas, por não te ensinar a andar e a falar. O papá queria estar aqui, mas eu não sabia… eu te amo filhota, vou te amar para sempre, eu nunca mais vou embora. Eu juro-te, nunca mais vou te deixar, vamos ser uma família.

Ele continuou a fazer festinhas na minha cabeça, deixando-me cada vez mais sonolenta. Eu já estava quase, quase a dormir, quando ouvi novamente a voz dele.

— Tu és uma menina maravilhosa, tal como a tua mamã. Eu sabia que a Lea seria uma mãe maravilhosa, que ela seria a melhor pessoa para te ensinar, a ser alguém na vida. Que te ensinaria a ajudar os outros, a cuidar de quem precisa, a diferenciar o bem do mal, a sonhar… – riu baixinho. – Eu estraguei o meu sonho, mas eu reencontrei-o melhor do que eu esperava. Tudo o que eu precisava, eu encontrei ao vosso lado… porque eu tive que ser tão burro. Nunca filha, nunca abandones o que tu amas. Nunca deixes o teu orgulho, te cegar de tal forma, que não vejas mais nada na tua vida. Não te percas em ti mesma, nunca percas o que é mais importante, nunca deixes de lado a tua felicidade. Se tiveres algum problema, por favor filha, conversa comigo ou com a mamã ou com qualquer outra pessoa que te possa aconselhar. Só não tomes uma decisão de cabeça quente, sem ouvir uma opinião sincera, alguém com experiência de vida. O papá não ouviu, nem falou com ninguém, apenas ouvi os meus medos e receios, o meu orgulho… Olha o que eu perdi… eu perdi o teu crescimento, a tua mãe, cada passinho da sua gravidez, os enjoos, os desejos, o mau feitio, por causa das mudanças de humor. O primeiro bater do coração, o primeiro chute, o primeiro choro, a primeira muda da fralda, o primeiro banho, a primeira cólica… eu queria tudo e não tive nada. Eu quero muito que vocês sejam felizes, mesmo que para isso, eu nunca mais possa voltar. Eu dou a minha vida por vocês, tudo o que for preciso, para vos ver sorrir. Eu amo-te, muito… muito… muito… por favor, nunca te esqueças disso filha.

O papá parecia muito triste, quando me disse tudo aquilo, eu não quero que ele vá embora. Eu quero que fiquemos juntos, nós os três, como uma verdadeira família. E tudo estava a correr bem, mas o papá não gostou do amigo da mamã e eu também não. Ele queria tomar o lugar do meu papá, queria o levar para longe de mim, eu não gostei. Ele dava-me brinquedos, dava flores para a mamã, mas não me dava muita atenção. Não como o papá dá, o papá não liga ao telefone quando esta a brincar comigo, ele diz que aquele é o nosso momento. O amigo da mamã não, ele deixava-me a brincar sozinha, sem ninguém por perto. E só desligava o telemóvel quando via a mamã, quando ela estava a brincar comigo, ele também estava. Quando ele estava na nossa casa, o papá saia e deixava-nos sozinhos. E o Filipe aproveitava-se muito disso, ele parecia o dono da casa, ele agia como se fosse o meu papá.

— Eu também quero cozinhar. – Disse ao entrar na cozinha, eu podia não gostar dele, mas eu adoro cozinhar.

— Cozinha não é para crianças, vai brincar para o teu quarto. – Disse abastando-me.

— Mas a mamã deixa-me cozinhar. – Coloquei as minhas mãozinhas na cintura e disse confiante. – Eu sou pequena, mas eu sou boa cozinheira.

— A tua mãe é uma inconsequente, criança não pode estar na cozinha. A cozinha não é sítio para se brincar, vai para o teu quarto, tens lá muitas panelinhas para brincar. Quando eu casar com a Lea, só te vais aproximar de uma faca, quando tiveres 16 anos. E estiveres a estudar para ser, uma mulher elegante, uma verdadeira dama da sociedade.

Eu não quero que a mamã case com ele, eu não sou um bebé, eu sou uma mulherzinha. A mamã deixa-me cozinhar, o papá, as vovós, a madrinha, todos me deixam ajudar. A mamã até me prometeu que quando eu for um pouco maior, vai-me comprar daquelas facas para crianças e vai-me ensinar a usa-las. Só o fogão é que ela não vai deixar tão cedo, ela diz que eu tenho de crescer para isso, que não o posso usar até ter altura para o usar sem ajuda.

O papá foi embora logo depois do meu aniversário, eu não percebi porquê, mas senti a sua falta. Ele tinha prometido e mesmo assim foi… eu não queria, queria o papá aqui, não queria ver a mamã triste. Quando eu voltei para a escola, todos os meus amiguinhos falavam na minha festinha, mas eu estava triste. Eu não queria uma festa, se isso significava ficar sem o meu papá, ainda por cima eu já não o via a mais de uma semana. Quando a aula acabou, eu já estava pronta para ir para casa, normalmente seria o papá a vir buscar-me. Agora eu não sabia se ia ser a madrinha ou a mamã, então fiquei à espera, com a minha mochila rosa na mão. Pouco tempo depois a Dona Luísa, a senhora que cuida de nós no recreio chamou-me. Alguém tinha me ido buscar, mas eu não via a mamã ou a madrinha em nado nenhum. Apenas uma senhora elegante, com um olhar de meter medo, eu não gostei dela.

— Olé Lídia eu sou a Júlia, o teu papá pediu-me para te vir buscar, ele está a nossa espera.

O papá pediu para ela me vir buscar, ele não me abandonou… o meu pequeno coração deu um pulo, o papá não me abandonou, eu estava feliz. Tão feliz que segui a mulher estranha, sem pensar nos concelhos da mamã. Eu queria tanto ver o meu papá, perguntar porque foi embora, porque ele deixou a mamã triste. Que nem me apercebi para onde estávamos a ir e que tinha entrado no carro de uma estranha, que nem cadeirinha tinha para mim. A mamã não me deixa andar de carro sem cadeirinha, ela diz que é muito importante para eu ficar segura, afinal sou o seu tesouro.

— Onde está o papá?

— Nos já vamos ter com ele, primeiro vamos dar uma voltinha. – Respondeu com indiferença.

— Mas eu quero ir ver o papá.

— Vais ter de esperar, agora vamos a outro lado, temos de nos conhecer melhor.

— Eu não quero, eu quero ir ver o meu papá. – Respondi cruzando os braços.

— Garota malcriada, é por isso que odeio crianças. – Resmungou baixo. – Agora não, mais logo. Temos de passar no shopping primeiro, para te comprar um vestido novo. E claro, um novo para mim também.

— Eu não quero um vestido novo, eu tenho muitos que a mamã e a madrinha me deram.

— Mas eu quero. – Respondeu com raiva, repreendendo-me com o olhar. – Se queres viver com o teu pai, vais ter de aprender a fazer o que eu quero.

— Eu não quero, eu quero que o papá volte para casa.

— E vai voltar, mas é comigo. – Respondeu num tom que me deu arrepios e me deixou assustada. – A tua mãe é que não vai viver mais lá, apesar que se quiseres ir morar com ela na rua, estás a vontade. Em breve o Carlos terá o nosso bebé, para ele mimar, não vai precisar de uma pirralha feia e mal-educada como tu.

— Eu não sou feia e também não sou mal-educada. O papá diz que eu sou a sua princesinha, que me ama muito. – Senti os meus olhos a arder, com as lágrimas.

— Isso é o que ele diz agora, ele também disse o mesmo a tua mãe e agora esta comigo. – Riu-se. – Quando ele for ao medico comigo fazer a primeira ecografia, ele logo muda de ideias.

— Não vai não… ele prometeu, ele disse que ia sempre me amar, para um nunca me esquecer disso. Eu acredito no papá, ele ama-me, ama a mamã, ele não nos vai deixar…

— Garota tola. – Riu-se. – Isso é o que vamos ver.

Já no shopping, a mulher arrastou-me de loja em loja, experimentando vários vestidos e outras roupas. Sempre que encontrava um, atirava-mo, para que eu carregar enquanto ela escolhia outro. Só quando alguém nos olhava, é que ela agia de maneira carinhosa, dizendo que eu era uma boa menina. Depois de algumas horas e muitos sacos, entramos novamente no carro e ela começou a conduzir, com a música muito alta. Quando vi tínhamos chegado a casa, fiquei tão feliz, que mal o carro parou abri a porta e sai a correr.

— Mamã… Mamã… – Chamei, tocando a campainha sem parar.

— Ela não está. – Ouvi a voz fria da mulher atrás de mim. – Ela deve estar a tua procura, mas eu tenho a chave, tirei-a do Carlos no outro dia. Finalmente vou poder conhecer em paz, a minha nova casa.

Disse abrindo o portão e a seguir a porta da minha casa, já la dentro eu corri a procura da mamã, mas a mamã não estava. Eu não a podia chamar para expulsar a senhora má, então tinha de ser eu, eu não podia deixar que ela ficasse com a nossa casa. Eu tinha de ser uma mulherzinha. Corri pela cara, procurando a mulher por todos os lados, até a encontrar no escritório da mamã.

— Eu não acredito, como é que ela conseguiu? – Questionava-se admirada, observando os livros da mamã.

— Esses livros são da mamã.

— Uma coleção maravilhosa destas e ainda por cima autografada, ela já é minha. – Riu-se de forma aterrorizante, tirando outro livro da estante. – As minhas amigas vão ficar cheias de inveja, todas as primeiras edições da Clara Moreira, ainda por cima autografados.

— Os livros são da minha mamã, eu não vou te deixar leva-los.

— Errado, eles agora são meus. – Aproximou-se de mim. – A tua mãe conseguiu algo precioso, estes livros são de uma autora incrivelmente popular, que ninguém conhece a sua aparência. De alguma forma, ela conseguir receber as primeiras edições de todos os seus livros, até este que ainda nem se quer foi publicado.

Observou atentamente o livro, folheando algumas páginas, antes de continuar.

— E ainda por cima, eles foram autografados, isto é um tesouro a ser admirado. Daqui a uns anos, eles vão valer uma verdadeira fortuna e são todos meus.

— Não são não, os livros são da mamã, foi ela que os escreveu e a casa também é dela. Eu não vou deixar que levas nada, o que é da mamã um dia será meu e por isso, eu tenho de cuidar bem das coisas para a mamã.

— Isso é alguma piada?

— Júlia o que fazes aqui?

— Papá… – Corri para os seus braços, abraçando-o com forma. – Ela quer roubar os livros da mamã.

— Roubar? – Perguntou admirada. – Eu não vou roubar nada.

— Então pousa esse livro, onde o encontraste e sai daqui. – Respondeu firme, segurando-me nos seus braços.

— Porque estás a ser tão frio amor? – Aproximou-se de nós. – Nós vamos ser pais, esqueceste-te querido, temos de ter uma casa acolhedora para o receber. Além disso, tu dizes-te que queria estar com a tua filha, que casa melhor para nós moramos todos juntos, se não esta. Eu apenas queria conhecer o meu novo lar, familiarizar com as coisas.

— E para isso tinha que ir à escola da Lia, com uma desculpa que eu te dei autorização, para a ires buscar por mim. Saíres com ela, sei lá por onde e depois vires para aqui, com a chave que roubaste do meu bolso.

— Desculpa amor, mas se eu não fizesse isso, eu nunca mataria a minha curiosidade. – Fez cara de criança amuada, tocando de leve no peito do papá, mas eu logo afastei a mão dela, abraçando-o com mais força. – Eu fiz tudo com boas intenções bombonzinho, eu só quero a nossa felicidade.

— Júlia por favor entende uma coisa, nós não vamos morar nesta casa, por isso não precisas de familiarizar com nada. – Falou com calma, acariciando as minhas costas. – A Lia é muito feliz com a mãe e é assim, que vai continuar a ser. Eu não vou afastar uma mãe da sua filha e também nós já não somos noivos. Vou-te ajudar com tudo, vou cuidar de ti durante a gravidez e depois que a criança nascer, mas isso é só. Já te expliquei tudo e não vou voltar atrás, não quero enganar-me, nem quero enganar ninguém com uma falsa felicidade. Agora por favor, volta para casa, os teus pais estão a tua espera lá, eles vão cuidar de ti. Em breve eu volto, para te visitar e marcamos a consulta no médico, eu quero estar presente quando fizeres a ecografia.

— Eu não quero.

— Júlia, por favor. – Pediu o papá, colocando-me no chão.

— Mas bombonzinho…

— Nem amor, nem bombonzinho, nem nenhum dos teus apelidos ridículos me vai fazer mudar de ideias. – Respondeu frio. – Eu não vou mudar de ideias, não me vou casar contigo só porque estas a espera de um filho meu. Já não vivemos no tempo, em que os homens eram obrigados a casar, por desonrar uma mulher. Eu assumo o meu filho, vou estar presente nos momentos que infelizmente perdi, na vida da minha filha. Apenas isso e nada mais, agora por favor sai, chega de conflitos.

— Eu vou, mas não vai ficar assim. – Virou-se caminhando para a porta.

— O livro da mamã. – Apontei, para ela enquanto chamava a atenção do papá. – Ela leva o livro da mamã.

— Júlia, o livro é para ficar. – Respondeu com calma. – Não podes levar nada desta casa, por favor entrega-mo.

— Não é justo, porque ela tem de ficar com tudo o que eu quero? Como ela conseguiu, porque não posso ser eu?

— O livro é da Leandra, tal como esta casa e o dinheiro. – Respondeu ainda com o braço estendido, á espera que ela o entregasse. – Nada disto é meu, nunca foi, por isso é que eu me afastei. Tinha complexos, por a minha esposa ser quem é, uma mulher rica e cheia de sucesso. Eu não sou nada ao seu lado e isso afetava a minha masculinidade.

— O que queres dizer com isso?

— Ela é a mulher que admiras, a mulher que desejas ser, mas escolhes-te o método errado para o fazer. – A Clara não é a mulher que tu pensas, ela é a Leandra, a mulher com quem eu sou casado. Esse livro é uma primeira edição, não publicado, porque ela recebe um antes de todas as publicações. E também está autografado, porque ele é uma garantia para o futuro da Lia. Primeiras edições autografadas, anos depois o falecimento dos autores, podem valer milhões. Claro que a Leandra está a contar, que esse seja o caso e espera um dia, que os seus livros seja a salvação de algum dos seus herdeiros. Ela não é quem tu pensas, ela é muito mais, sempre foi muito mais. É uma mulher completa, sem maquilhagem, nem roupas caras. Ela não se importa de se sujar, ela da a mão a quem precisa, sem se importar com o seu estado ou status social. Alias, quanto mais pobre e suja a pessoa tiver, mais prazer ela tem de a ajudar e melhorar a sua vida. Ela é a mulher por quem eu me apaixonei, namorei e casei, por ser quem é, não por quem ela finge ser. Tu nunca poderás ser ela, podes ser apenas tu própria, não outra pessoa. Agora por favor, entrega-me as minhas chaves e o livro que carregas. Depois sai desta casa, levando apenas aquilo que é realmente teu, mais nada do que isso.

— Tu ainda te vais arrepender. – Disse entregando tudo, nas mãos do papá. – Eu vou te dar mais uma oportunidade, apenas uma, se num prazo de um mês não me procurares. Se não o fizeres com a intenção de voltares para mim, de nos casarmos, então nunca mais verás o teu filho.

Sem dizer mais nada, ela saiu deixando-nos sozinhos, ainda no escritório. Eu não percebi muito da conversa deles, eu sei que são coisas de adultos, mas eu tive medo. Ela ameaçou o papá, disse que ele não veria o seu filho, o filho do meu papá é meu irmão, não é? Vou ter de perguntar para a mamã depois, porque parece que o papá não quer conversar. Ele apenas cozinhou para mim em silêncio, enquanto esperávamos a mamã e depois despediu-se de mim, deixando-nos mais uma vez sozinhas.

 

Continua…

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