O certo no incerto – Capítulo 16

Estes últimos dias tem sido um pesadelo, de onde eu quero desesperadamente acordar. A Júlia tem tornado a minha vida num inferno, primeiro fazendo a minha esposa ter raiva de mim. Ainda por cima, quando ela estava prestes a perdoar-me e iríamos voltar a ser uma família. Quando finalmente o passado começava a ficar para trás e a vida estava prestes a recomeçar, mas não… ela tinha que aparecer e destruir tudo o que eu tinha de bom na minha vida. Eu sei que tenho culpa, que nunca devia ter brincado com o coração delas. Eu me culpo todos os dias por isso, pelo que eu estraguei, por o que perdi, mas é impossível corrigir o passado. Ele já foi escrito e não pode ser apagado, é realmente impossível fazer isso, mesmo assim eu queria voltar. Compensar as mulheres da minha vida, pelos anos de ausência e as fazer felizes pelo resto da vida. Só que do nada, tudo foi destruído, como um castelo de cartas e eu fiquei sem nada. Sinceramente eu aguentava a raiva, aceitava que elas nunca mais me quisessem ver, mas não foi isso que aconteceu. Enquanto a Lea, mostrava a mulher doce que era, deixando-me perto da minha filha. A Júlia mostrava um lado nada agradável, egocêntrico, desumano… descobrir que ela estava grávida, foi uma verdadeira surpresa, mas era verdade que ela estava diferente. Os seus seios pareciam maiores e já era visível uma leve protuberância na sua barriga. Ainda não tínhamos ido ao médico, mas ela tinha a certeza do seu estado, já que a sua menstruação tinha parado e os enjoos eram frequentes. Claro que no início fiquei em choque, imaginando que podia ter cometido o mesmo erro, que tudo se podia repetir. Imaginar o meu filho, nascer e crescer longe mim, sem o poder ver, sem poder acompanhar. Felizmente, depois percebi que não precisava cometer o mesmo erro, mas também não precisava de ficar ao lado de uma mulher, que não amava. Então tentei falar com ela, explicar-lhe a razão, queria que percebesse o erro que íamos cometer. Que nunca seriamos verdadeiramente felizes, que a chama norma um dia ia apagar, sem deixar rasto. Não sei porquê, mas ela enlouqueceu depois disso, ela até raptou a minha filha, quando eu pensava que tinha voltado para casa. Quando ela ameaçou que eu nunca veria o meu filho, eu fiquei verdadeiramente preocupado, principalmente no seu atual estado. Então tentei ir atrás dela, mas não sabia onde morava e nem os seus pais tinham notícias. Quando finalmente descobri corri para lá, não podia permitir que ela fizesse mal ao meu filho e muito menos, que o levasse para longe de mim. Assim que vi o prédio, eu achei que estava no lugar errado, um lugar tão decadente não fazia o estilo dela. Seria difícil que ela tivesse escolhido aquele sítio para morar, mas ao mesmo tempo, esse seria o último lugar que eu ia procurar. Por isso arrisquei e entrei no prédio, mas eu não estava preparado para o que ia ver. Para o medo que eu ia sentir, para o chão que eu ia perder, para a loucura que o meu dia seria. Assim que eu subi as escadas, eu percebi uma certa confusão, que envolviam vozes bem conhecidas para mim. Curioso, apoiei-me no corrimão e olhei para cima, mesmo a tempo de ver a Leandra e a Júlia a cair pelas escadas. Enquanto caiam desamparadas, iam embatendo com força contra os degraus, o corrimão e por vezes contra a parede.

— LEANDRA… – Gritei, subindo a correr, quase me desequilibrando as vezes. – Leandra… Por favor que estejas bem… por favor…

Quando me aproximei das duas, o meu corpo congelou, elas pareciam muito machucadas. Engoli em seco e abaixei-me ao lado delas, analisei uma e a outra. Fazendo de tudo para me manter firme, para que as lágrimas que ardiam nos meus olhos, não caíssem.

— Lea, amor… olha para mim, por favor… acariciei o seu rosto, mas ela parecia ter apagado, tal como o brilho dos meus olhos naquele momento.

— Carlos? – A Júlia chamou a minha atenção. – O bebé… o bebé está bem? Eu não o quero perder, não deixes que eu perca o nosso bebé.

O bebé… meu Deus eu tinha-me esquecido do meu filho, mas a Lea… o que eu posso fazer… quem eu posso escolher?

— SOCORRO… Alguém que chame uma ambulância por favor, nós precisamos de ajuda… – Gritei, chorando como um bebé, eu não podia perder os dois. – SOCORRO… ALGUÉM QUE AJUDE… Lea por favor, acorda… Júlia tem calma, o bebé vai ficar bem…

Tentava-me dividir entre as duas, enquanto me desesperava para tentar acordar a Lea, eu entrava em pânico a ouvir o choro da Júlia. Suplicando pela vida do filho, do nosso filho, como ele pode morrer antes de mim, antes de eu o conhecer. Era difícil manter o controlo, era difícil sair do lado delas, para pedir ajuda, então eu apenas gritava em plenos pulmões. Suplicando para que alguém me ouvisse e visse em nosso socorro, que as ajudasse. Que trouxesse a Lea de volta para mim, para os meus braços, para a nossa filha… ela não podia deixar a nossa menina órfã… por favor, não roubem a mãe da minha filha…

— O que se passa? – Perguntou um homem ao sair de casa, pelo seu estado, eu devia o ter acordado com os meus gritos.

— Por favor… elas precisam de ajuda… a minha mulher, o meu filho, a mãe dele… elas precisam de ajuda urgente… – Pedi desesperado, sentindo as lágrimas quentes, banhar o meu rosto.  – Lea por favor… acorda meu amor…

— Eu já pedi a ambulância, há um pequeno quartel aqui perto, eles não devem demorar. – Disse assim que apareceu ao meu lado. – Também chamei a vizinha de cima, ela é uma enfermeira reformada, pode ajudar até que a ambulância chegue.

— Obrigado. – Foi tudo o que eu consegui dizer, enquanto apertava a mão da Júlia tentando lhe dar forças, que eu não tinha.

— Meu Deus… – Ouvi a mulher idosa exclamar, antes de descer o resto das escadas e começar a examinar as duas.

— A Júlia, ela está grávida, por favor… nada pode acontecer com o meu filho…

— Tem calma meu filho, tudo vai correr bem. – Disse examinando a Lea, mas logo um gemido da Júlia chamou a minha atenção, deixando-me preocupado.

— Por mais que eu queira que a Lea esteja bem… – Engoli em seco, eu tinha de pensar na criança. – Por favor, examine primeiro a Júlia, ela esta grávida.

— O meu bebé… – Choramingou a Júlia, num murmúrio quase inaudível.

A mulher observou rapidamente a Júlia e depois olhou para mim, ela parecia confusa, algo não estava bem.

— Tens a certeza meu filho? – Eu não consegui responder, eu não sabia o que ela queria dizer com aquilo. O que a Lea tinha, o que estava a acontecer com a minha mulher? – A… Lea, ela está com uma hemorragia.

Segui o seu olhar, percebendo-me pela primeira vez, que as calças dela estavam cheias de sangue. Naquele momento o meu corpo ficou frio, o ar pareceu faltar nos meus pulmões, enquanto o meu coração batia de forma descontrolada. Eu nem me atrevia a pensar, a cogitar de onde aquele sangue vinha, o que aquilo significava. Eu apenas chorava, olhando para o amor da minha vida.

— A Júlia parece ter apenas alguns hematomas, não vejo sangue, que é um claro sintoma de aborto. Isso não significa que eles esteja bem, que ele esteja fora de perigo, mas já é um bom sinal. O mesmo não acontece com a Leandra, o estado dela é aparentemente grave. Ela bateu com a cabeça e esta desacordada, além disso, ela esta a perder muito sangue e não consigo ver por onde. Ela não está grávida?

Pensei durante algum tempo, mas a Lea não disse nada e antes da nossa noite, ela não tinha ninguém. Ela não podia ter engravidado naquela noite, podia?

— Que eu saiba não, mas não posso ter a certeza.

A minha voz parecia um sussurro, imaginar que a mulher que eu amo ia ter outro filho meu e que o perdi. Que podia perder os meus dois filhos e também a minha mulher, era mais do que o meu próprio coração podia aguentar. Felizmente logo a ambulância chegou e as socorreu. Como a Júlia estava consciente e parecia em choque, eu acompanhei-a até ao hospital, apesar do meu coração ter sido deixado na outra ambulância. Após avisar a minha família e os pais da Júlia, deixei-me cair na cadeira, afundando-me devagar. Tudo parecia demasiado calmo, como um filme mudo, até que a sala de espera foi invadida pelos meus pais, os pais da Leandra e as nossas irmãs.

— Como está a Leandra? Como está a minha filha? – Perguntou a sua mãe, desesperada.

— Eu não sei, ainda não tive notícias. – Afundei o meu rosto nas mãos, tentando controlar o meu desespero.

— O que aconteceu? – Agora era a vez da Sofia… espera da Sofia?

— Onde está a minha filha? Com quem ela está? – Perguntei olhando para os lados.

— Tem calma, ela está bem. – Falou calma, sentando-se ao meu lado. – Ela está a fazer uma festa do pijama, com os primos.

Suspirei aliviado, felizmente ela estava bem, só pedia para que no fim deste dia, no fim deste pesadelo ela ainda tivesse mãe. Antes de contar o ocorrido, pedi desculpas a todos e contém a minha história com a Júlia. Contém também a minha quase reconciliação com a Leandra e sobre a gravidez da minha amante e as suas ameaças. Enquanto a mãe da Leandra, chorava nos braços do marido que me olhava com raiva, a minha mãe consolava-me e a Sofia berrava comigo. Chamando-me de imaturo e inconsequente, falando em todas as vidas que eu destruir por um simples capricho, por um orgulho ridículo. E a verdade, é que ela tinha toda a razão. A confusão durou até que um médico apareceu e chamou pela família da Júlia. Como os seus pais ainda não tinham chegado e já que eu era pai do seu filho, acompanhei o médico até a sua sala.

— O bebé está bem doutor? – Perguntei ao sentar-me na cadeira.

— Era sobre isso que eu queria falar. – Respondeu nervoso, observando as anotações. – Eu não sei bem como dar a notícia, este é o primeiro caso que passa pelas minhas mãos. Apesar de ser uma doença bastante conhecida, principalmente pelos seus sintomas.

Eu estava a ficar realmente nervoso, o que aconteceu ao meu filho? Ele estava doente? Tinha alguma doença rara? Não ele disse que era conhecida… ele tinha alguma deficiência? Porque o homem está a enrolar-me, em vez de ser claro e dizer de uma vez por todas o que se passa?

— O que eles, têm doutor? Que doença é essa? O que se passa com a Júlia e o meu filho? Eles…

— Esse é o problema, não existe eles. – Respondeu deixando-me confuso.

— Como assim?

— A paciente mostra claros sintomas, de pseudociese, também conhecida como gravidez psicológica. Os sintomas são muito parecidos com os de uma gravidez normal, a única diferença é que não existe feto.

— Mas a barriga dela? O período? Ela disse que fez um teste de farmácia, que tinha a certeza.

Eu não conseguia mais pensar, será que tudo foi um capricho, para me separar da minha mulher? Mas o meu filho… mas tudo parecia verdade, parecia real…

— Os testes de farmácia não são muito eficazes e podem dar muitos falsos positivos, este foi um desses casos. A falta de menstruação, o crescimento da barriga, o aumento dos seios, enjoos, desejos… tudo pode acontecer na gravidez psicológica, existem até mulheres que juram que sentem o bebé a mexer.

— Meu Deus… – Deixei a minha cabeça cair, sobre as minhas mãos e fechei os olhos.

Eu estava incrédulo, aliviado, mas assustado. Ela não estava grávida, alguém pode me crucificar por dar graças aos céus por isso? Por não ter mais nada, que me ligue a essa mulher, mais nada que me impeça de voltar a conquistar a mulher que eu amo. O problema é que com o alivio, vinha o vazio, a solidão, eu já sonhava com aquele bebé, com a Lia a brincar com o seu maninho.

— Como está a Júlia? Ela está bem?

— Psicologicamente ela está muito instável, tivemos que a sedar, não vai ser fácil ela aceitar a verdade. Fisicamente, ela está bem… – Observou mais uma vez as suas notas. – A queda provocou apenas alguns hematomas, o raio X, não mostrou nada de anormal e não detetamos hemorragias internas. Os sinais vitais também estão bons, mesmo assim vamos a deixar em observação por 24 horas, para ter a certeza. Apenas a parte psicologia é que requer alguma atenção, eu recomendo uma análise completa e também acompanhamento psicológico. Um ambiente acolhedor, calmo e familiar, também é muito importante para o seu bem-estar.

— Fico feliz por isso. – Respondi levantando-me. – Os pais dela vem a caminho, em poucas horas eles estão aqui para cuidar da filha. Agora eu preciso de saber sobre a minha mulher, ela entrou aqui desacordada e com uma hemorragia, eu preciso de saber como ela está.

Só de pensar na Leandra daquele jeito, eu ficava aterrorizado, eu não a posso perder… eu não a posso perder. Fechei os olhos tentando controlar as minhas emoções, eu não podia cair, eu não podia desistir… não até souber alguma coisa, do meu amor.

— Assim que os pais dela chegar eu aviso, mas agora eu preciso saber da minha esposa.

Sem dizer mais nada, saí do consultório e voltei para a sala de espera, eu precisava de notícias. Eu precisava da Lea bem, de olhos abertos e com o seu sorriso lindo no rosto.

— Então o bastardinho está bem? – Perguntou a minha irmã casula, de forma irónica mal me viu.

— Eu não tenho nenhum bastardo. – Respondi, vendo que tudo parecia na mesma. – Ela não estava grávida, era tudo psicológico. Foi a mente dela que fez tudo, que fez o seu corpo mudar, fazer todos os sintomas aparecerem, mas não havia bebé nenhum.

— Santo Deus… – Respondeu a minha mãe surpresa, eu vi que o choque foi geral, mas mais ninguém disse nada.

Aproveitando o silêncio, sentei-me na cadeira mais próxima e afundei novamente o meu rosto nas mãos. Quando ouvi o nome da Leandra, eu saltei do meu lugar e corri para o médico, que logo nos levou para outra sala.

— Como está a minha filha doutor? – Ouvi a voz do pai da Lea.

— Ela esta estável, ainda não acordou, mas os exames não mostram nada de anormal com o seu cérebro. Com a queda, ela lesionou um dos pulsos e por isso tivemos que colocar uma tala no local. – Ele faz uma breve pausa e eu aproveitei a deixa, para interromper.

— E o sangue doutor? Porque a minha mulher estava a sangrar? Ela está bem? De…

— Calma rapaz. – Pediu observando-me por trás dos óculos. – A sua esposa esta fora de perigo, apenas o feto é que não sobreviveu a queda.

— Quem não sobreviveu? – Pergunto. O que raio ele falou? Feto? Que feto?

— A Leandra estava grávida?

Ouço a sua irmã perguntar, mas mais ninguém se atreveu a abrir a boca, até receber a resposta do médico. Eu apenas observo, como se tivesse sido anestesiado e tudo acontecesse em câmara lenta, à minha volta.

— Não sabiam? – Perguntou admirado. – Não conseguimos estimar o tempo de gravidez, mas a mesma parecia ter apenas algumas semanas, ou seja, era bem recente. Esse foi mais um motivo, que ajudou o feto a não resistir, apesar de tudo a mãe encontra-se bem. Já fizemos todos os procedimentos nestes casos, estamos apenas a espera que a paciente acorde, para a podermos avaliar.

Deixei de ouvir as recomendações do médico e simplesmente afastei-me, retomando a sala de antes. Uma vez lá, encostei-me na parede, fechei os meus olhos e simplesmente soltei o ar dos meus pulmões. Enquanto o meu corpo, deslizava de encontro ao chão frio e duro, não me permitindo pensar, apenas chorar.

 

Continua…

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