O certo no incerto – Capítulo 17

Eu não sei quanto tempo passou, quantos litros de água escorreram pelo meu rosto, mas eu estava destruído. Eu entrei neste hospital, com uma ex-amante grávida e uma ex-mulher desacordada, a sangrar sabe-se lá de onde. Eu tinha medo de perder o meu filho, medo que ele nascesse sem pai, que a história se repetisse… E o que eu descubro? Que a história realmente se repetiu, mas não da maneira que eu pensava. A grávida não estava grávida, era tudo uma ilusão criada pela Júlia… uma ilusão, fruto do medo de me perder, de perder tudo o que tinha ao meu lado. Nunca devia ter me aproximado dela, trair a Lea nunca devia ter sido uma opção, aliás esse devia ser assunto proibido. O problema é que me deixei levar, me perdi na sensação de liberdade, começado um pesadelo sem fim. Aquele seria o arrependimento, que duraria a minha vida inteira e agora por outro motivo. Eu matei o meu bebé, o meu filho, o sinal da reconciliação com a minha amada… eu perdi tudo, mais uma vez… eu destruí tudo que tinha de bom na minha vida. Agora a Leandra nunca me vai perdoar, como ela podia fazer isso se nem eu, era capaz de me perdoar. A certa altura, uma enfermeira apareceu na sala, avisando que a Leandra já podia receber visitas, mas apenas uma de cada vez. Eu queria ser o primeiro, queria poder correr para a abraçar, pedir perdão e chorar feito um menino no seu colo. Queria a poder confortar, acariciar o seu cabelo, enquanto ela descansava a sua cabeça no meu peito. Ficar ao seu lado para sempre, mas eu não sabia qual seria a sua reação, se ela me queria ver.

— Sofia. – Chamei a minha irmã, eu precisava da sua ajuda. – Eu não sei se devo entrar no quarto dela, não sei como devo reagir, ela acabou de perder o nosso filho. O que eu faço Sofia, como eu vou encarrar a mulher que eu amo, o que eu posso fazer por ela. Eu não queria, eu juro que não queria lhe ter causado tanto mal, eu falhei… eu falhei com ela pela segunda vez, num momento tão importante da sua vida, da nossa vida… Eu não estive aqui, quando ela soube da existência da Lia e agora, eu simplesmente mato o meu filho, antes mesmo dela saber dele. De a deixar ser mãe, novamente…

Senti o meu coração apertar, esmagando-me o peito com uma dor penetrante e angustiante. Se eu tivesse um ataque cardíaco agora, não saberia identificar, muito pelo contrário. Acho que seria a morte mais serena da minha vida, porque não há dor nenhuma no mundo, maior do que a que estou a sentir.

— Calma Carlos, a culpa não é tua, foi tudo um acidente. – Respondeu calmamente, acariciando a minha cabeça.

— É minha sim. Fui eu que trouxe a Júlia para as nossas vidas, ela aproximou-se delas por minha causa e ainda raptou a Lia para chamar a minha atenção. Se não fosse eu, a Leandra estaria em casa com a nossa filha. Estariam a cozinhar juntas e a rir, adoro vê-las rir… nunca mais as vou poder ver a rir… e se ela me proibir de ver a Lia? Eu morro, se não tiver a minha filha por perto. Eu apeguei-me tanto a minha menina, que eu não sei o que seria não a ter comigo, ao meu lado. O que eu vou fazer sem elas, o que será de mim? O que eu vou fazer, se as duas mulheres da minha vida, simplesmente desaparecerem para sempre? Eu não posso fingir que nunca as conheci, eu não posso fingir que nunca formei uma família. O que eu faço sem elas?

Olhei para ela assustado e mesmo com as lágrimas a turvarem-me a visão, conseguir diferenciar o seu olhar de pena. Sim pena, de todos os sentimentos possíveis a minha irmã tinha pena de mim. Já nem parecia a mesma mulher, que a meses atrás alfinetava-me sempre que podia, culpando-me da minha infidelidade. Exigindo que as deixasse em paz, que voltasse para onde eu estava e esquece-se a existência deles. A mulher que ainda a minutos me estava a chamar de infantil e imaturo, agora tem pena de mim. Como eu posso lidar com tal sentimento, como eu posso voltar a ser quem eu era, como eu as posso fazer felizes.

— A Leandra nunca te vai proibir de veres a Lia, claro que ela deve estar magoada, afinal a perda de uma criança mexe com qualquer mulher. – Suspirou, sentando-se ao meu lado. – Não vai ser fácil para ela, não posso prever como a Lea vai reagir a tudo isto, mas ela não é um mostro. Apenas vai estar sensível e magoada com tudo o que aconteceu, até eu estava a minutos atrás.

— E porque não estás agora? – Perguntei, tentando limpar as lágrimas com as mãos, mas era em vão. Senti o seu braço fino repousar sobre o meu ombro e aproveitei-me, para me aconchegar um pouco no seu abraço.

— Percebi que também és humano. – Disse olhando para o vazio. – Que também tens o direito de cometer erros, é muito fácil escolhemos o caminho errado. De certa forma, a culpa também é minha…

— Como pode ser tua? – Interrompia.

— Porque não percebi que não estavas bem, como tua irmã eu devia ter percebido, devia te ter ajudado. – Suspirou, antes de deitar a cabeça cobre a minha. – Não foste o único a falhar, todos cometemos erros, uns mais graves do que os outros. É verdade que tudo podia ter sido diferente, vocês formam uma família linda e mais um filho seria uma bênção.

— O meu filho…

— Foi uma fatalidade o que aconteceu, mas isso não é o fim da vida. – Interrompeu-me, ela devia saber que eu ia desabar novamente. – Vocês podem ter mais filhos e também tem a Lia…

— A Leandra nunca mais vai me querer ver, então como poderemos ter mais filhos? – Suspirei cansado, afastando-me da Sofia. – Ela pode ter mais, só não vai ser comigo.

— Veremos. – Sorriu para mim, antes de se levantar e ir embora.

Como eu previa a Leandra não quis ver-me e por isso eu apenas sai do hospital, mas em vez de ir para casa eu fui para a casa da Sofia. Queria ver a minha filha e aproveitar o tempo que ainda tínhamos juntos. Sei lá, o que a Leandra vai fazer, depois que sair do hospital. Eu sei que ela não é má pessoa, mas as pessoas magoadas fazem coisas impensadas, coisas que nos arrependemos no futuro. Eu cometi esse erro, ela também pode cometer e quem sou eu para a julgar?

Depois daquilo os dias se passaram lentamente, a Leandra tinha saído do hospital e agora estava trancada em casa. Não ela não se afundou na tristeza e sim na literatura, despejando toda a sua raiva, tristeza, receios e frustração, em mais um livro que seria certamente um best-seller. Não sei como ela consegue tanto sucesso, de onde ela vai tirar tanta imaginação, mas é assim que as coisas são, é assim que ela é. E hoje, eu não tenho mais medo ou inveja do seu sucesso, muito pelo contrário. Agora eu tenho orgulho, orgulho pelo que ela é, pelo que se tornou e por nunca se ter deixado influenciar pelo sucesso. Muito pelo contrário, parece que ele apenas a deixou melhor, mais humana, mais feminina, mais encantadora e uma mãe maravilhosa. Senti isso principalmente porque hoje, um mês depois de todos os acontecimentos, eu estou a passear pelo parque com a Lia. A minha pequena, tão parecida com a mãe, está agora a falar com uma sem abrigo. Em pouco tempo, as duas já se tornaram boas amigas e conversam animadas.

— Papá, podemos ir lanchar? – Perguntou, chamando a minha atenção.

— Claro meu amor, o que queres comer?

— Hum… – Pensou alguns minutos e depois virou-se para a nova amiga. – Lili, o que queres comer?

— O teu papá perguntou-te a ti, querida.

Respondeu carinhoso, dando um sorriso triste. quando terá sido a última vez, que alguém a convidou para comer? Aliás, quando terá sido a última vez, que ela comeu uma refeição de jeito?

— Mas eu quero saber, o que queres comer? – Insistiu.

— Oh querida, para mim tudo o que seja comida, já é muito bom. – Uma sobra triste surgiu no seu olhar, seguido por um leve roncar do seu estômago. – Vai lanchar com o teu pai meu bem, ele está a tua espera. – Novamente voltei a ouvir um roncar, agora mais alto. – Não o faças esperar, tá bem…

Por momento, pareceu-me ver uma lágrima se formar no seu rosto magro. Apesar do seu estado, das suas roupas sujas e largas, por baixo de toda aquela aparência, escondia-se uma mulher bondosa. Ela tratava a minha filha com tanta meiguice e carinho, como se ela fosse a sua netinha. Tal mãe, tal filha, não sei como ambas conseguem ver o coração das pessoas, antes de ver o seu exterior.

— Mas eu quero saber. – Respondeu chateada, fazendo um beicinho tão bonito, que só me fazia pensar na sua mãe quando era mais nova. – Então eu escolho, vamos… vamos…

Puxou pela mão da senhora, deixando-a surpresa com o gesto. A minha filha não era uma desistente, ela era uma lutadora nata, outra qualidade que ela recebeu da mãe. Principalmente, depois que eu percebi, o cobarde que eu fui por ter partido.

— Querida, eu não posso…

— Porquê? – Perguntou curiosa, atraindo também a minha curiosidade.

— Sim, porque não pode?

— Mas eu… seria muito indelicado se eu… – Tentava explicar desconfortavelmente, mas a minha filha não ia desistir facilmente e eu andava a aprender com ela.

— Eu estou a convidar e também não aceito um não, como resposta.

Disse orgulhoso, eu estava a mudar, por mim, pela minha filha e pela mulher que eu amo. Eu ia ser um homem diferente, um homem novo, a minha vida seria um novo livro. Que eu ia encher de amor, felicidade e muito carinho por quem é importante na minha vida. Eu ia lutar, vou fazer de tudo para recuperar a minha felicidade e para construir um novo mundo para nós. Nunca mais serei o cobarde que fugiu, agora o meu orgulho não estaria na minha reputação, na minha masculinidade. O meu orgulho, é e sempre serão as mulheres da minha vida, a minha família.

— Não, isso seria de mais… ter podido brincar com esta menina linda, já é mais do que o suficiente, eu não preciso de mais.

— Pois eu não acho. – Respondi com um sorriso, agora percebi o porquê, dela gostar tanto de ajudar. – Nós vamos lanchar, quando terminamos, vamos passar num supermercado. Quero que compre tudo o que precisar, seja comida, roupa, artigos de higiene ou cobertores novos.

— Com que dinheiro, eu vou comprar isso? – Uma pequena lágrima escorreu pelo seu rosto, demonstrando o quanto ela estava fragilizada. – Eu não posso…

— Com o meu dinheiro claro, agora vamos que eu também tenho fome.

Dei a mão a minha pequena, que logo voltou a segurar na mão da mulher. Não podia esperar uma tarde tão divertida como aquela, tão refrescante e revigoradora. Ajudar aquela mulher, significou muito para mim, mais do que podia imaginar e também significou muito para a minha menina. Era a primeira vez, a primeira de muitas certamente, que juntos ajudaríamos alguém necessitado. Quando a levei para casa, como sempre eu esperava encontrar uma das minhas irmãs ou a minha mãe, talvez até a minha ex-sogra ou cunhada. Sempre estava lá alguma delas, quando eu ia buscar e levar a Lia, o que não aconteceu desta vez.

— Olá Leandra.

Sorri, sem receber uma resposta para o mesmo, apenas o seu olhar repousava sereno sobre mim. Não expressando qualquer emoção ou sentimento, apenas observava-me como se me estivesse a avaliar.

— Mamã… mamã… – Chamou a sua atenção. – Eu fiz uma nova amiga, ela é muito boazinha, parece uma avó.

— Aí foi pequena. – Sorriu, agachando-se à sua frente. – Gostaste de conhecer a tua nova amiga? – A pequena assentiu com a cabeça, sorrindo para a mãe. – Então também acho que vou gostar dela, tens de ma apresentar da próxima vez.

— Sim. – Sorriu animada. – E o papá também, não é?

— O papá? – Olhou para mim curiosa. – O papá também se tornou amigo da avó?

— Sim, ficamos bons amigos, não foi? – Perguntou aos pulinhos.

— Sim foi princesa, ficamos bons amigos. – O seu olhar, ainda demonstrava alguma curiosidade, mas também via alguma dúvida. Era quase que ela tenta-se sondar a minha alma e os meus motivos.

— O papá levou-nos a lanchar e depois somos ao supermercado, compramos muita coisa. A vovó ficou muito feliz, ela até chorou e abraçou o papá.

— Hum… abraçou foi?

Ela não acreditava mesmo em mim, mas quem a podia censurar, depois de tudo o que eu fiz. Este era realmente o tratamento que eu merecia, a moeda de troca para todas as minhas facetas. Sorri triste para ela, antes de me abaixar para dar um beijo na cabeça da Lia.

— O papá já vai princesa, até a próxima Lea…

Deixei-me saborear a pronuncia da sua alcunha, na minha boca, como um mantra de despedida. Depois de dar mais um beijo na minha filha, simplesmente afastei-me delas, ouvindo a minha filha despedir-se. Ir embora daquela forma, partia o meu coração, mesmo que não fosse para muito longe. Sentia-me como se me estivesse a despedir delas, então voltei-me para as ver entrar em casa, queria gravar a imagem das duas no meu coração. Queria que aquele momento fosse eterno, queria nunca mais partir, mas também sabia que não tinha escolha. O que me preocupava, era o frio que surgiu de forma inesperada na minha barriga, um pressentimento que seria a última vez que as ia ver. Que as podia tocar, beijar e amar, só queria poder correr novamente para elas, mas não me podia deixar levar por aquele sentimento. Seja o que ele fosse, tudo não passava de medo, medo de que o meu passado nunca mais nos deixasse ser feliz. Por isso eu tinha de ser mais forte, tinha de lutar por um futuro melhor e não deixar que o medo me vencesse, mas aquela sensação… Algo ia acontecer e não podia ser nada bom.

— Júlia? – Perguntei atómico, observando-a na minha frente, mal me virei para seguir o meu caminho. – O que fazes aqui? Não devias ter voltado para casa?

— Que mal-educado, nem perguntas como estou? – Respondeu aproximando-se de mim. – Como eu fiquei por ter perdido o nosso filho.

— Não existia filho nenhum. – Rebati, pensando no bebé que a Lea perdeu nesse dia.

— Existia sim. – Respondeu exaltada, tirando-me dos meus pensamentos – Eu estava grávida, nós íamos ter uma criança, mas eles roubaram-na de mim. Roubaram-me tudo e eu não posso perdoar.

— Como assim? – Será que eu quero ouvir a resposta? Elas agora estão seguras em casa, mas por quanto tempo?

— Todos vão pagar, um por um… – Riu-se de forma cínica, a sua nova personalidade estava a assustar-me, ela não era assim. – Eu vou recuperar tudo o que me pertence, tudo o que é meu por direito.

— Júlia, precisas de voltar para casa, tu não estás bem. – Implorei, tentando-a chamar a razão. – Os teus pais vão te ajudar, vais recuperar e encontrar alguém que te faça feliz. Tudo vai correr bem.

— Eu estou ótima. – Deu-me um sorriso sinistro, pegou na bolsa e tirou uma arma de lá de dentro.  – Mas vou ficar melhor, quando eu enterrar o mal dos meus problemas. Onde achas, que a bala fica melhor? No meio dos cornos que lhe pospus-te comigo, ou no coração que desfizeste?

— Tu não estás a pensar? – Senti todo o meu corpo congelar. – Não podes fazer isso?

— Se não te podes casar comigo, por ainda seres casado, não há problema. Quando fores viúvo, podemos realizar o casamento dos nossos sonhos. Claro que aquela pirralha também tem de ir, só aceito que tenhas os herdeiros, que eu te possa dar. Só esses são dignos de viver, crescer e herdar tudo o que tu tens.

— Júlia, tu não podes fazer isso, elas não são culpadas… – Não, elas não podem perder a vida por minha causa.

— É sim, a culpa é todas delas…, mas eu vou provar, que sou boazinha. – Aproximou-se de mim, ainda a brincar com a arma na mão. – Vem comigo, vamos voltar para casa e ser o casal que sempre devíamos ter sido.

 

Continua…

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