O certo no incerto – Capítulo 18



Quando eu acordei, estava num quarto branco e sem graça, por momentos senti-me como se tivesse viajado no tempo. Voltado ao dia em que descobri a existência da Lídia, dentro do eu ventre, mas desta vez, algo estava diferente. Só depois descobri o que era, o meu bebé não estava dentro de mim, ele tinha morrido, já não existia mais. Eu matei o meu filho, porque eu resolvi enfrentar uma louca, porque a queria longe da minha filha. E de certa forma, também a queria longe do meu marido, longe da minha família. Eu estava magoada e arrependida por não ter lutado, por ele não ter lutado por nós, mas ao mesmo tempo… doí-a, doí-a muito imaginar que ele, amava aquela mulher, que mais uma vez me ia deixar por ela. Então o medo retomou para mim, absorveu o meu coração e explodiu no meu peito. Eu era mãe e não podia agir feito uma garotinha, tinha de proteger a minha filha. Foi nesse momento que o meu instinto ultrapassou o meu raciocínio e o afastei, o fiz assinar os papeis. Principalmente quando eu soube, que ele engravidou a sua amante. Parecia que os meus medos se tinham confirmado e acima de tudo, estava a viver o meu trauma. Eu não queria que aquela criança nascesse sem pai, eu não queria, me meter no meio da sua escolha, ele tinha de decidir por ele mesmo. Por isso, o afastei e ele até parece que decidiu o seu caminho, mas depois ela apareceu na escola da Lia e eu perdi a cabeça. Infelizmente, com isso eu pedi o fruto do meu amor pelo Carlos e graças a isso eu não o podia ver. Como ia encarar o homem que amo, sabendo que fui descuidada ao ponto de matar o nosso bebé. Ele não tem culpa, mas ao mesmo tempo, foi ele que a trouxe para as nossas vidas, foi ele que se envolveu com ela. Eles estavam noivos… ele a pediu em casamento, quando ainda estava casado comigo, é demasiado cruel.

Deitei-me de lado, tentando ter cuidado com a agulha do soro no meu braço e abracei a almofada, chorando por todas as dores da minha alma. Toda a minha família tinha-me vindo ver, mas devido ao meu estado, apenas podia estar comigo uma pessoa de cada vez e também eu tinha direito a um acompanhante. Acho que eles tinham medo, do que eu podia fazer a mim mesma, depois do que descobri. A passagem por todos no meu quarto foi breve, eu não queria conversas, apenas pedia paz e todos respeitaram. Apenas a Sofia ficou comigo sem dizer uma palavra, ela estava ao meu lado, como uma verdadeira amiga. Apoiando-me em silêncio, estando ao meu lado para quando precisasse dela. Esse era um dos motivos, por ela ser mais do que uma amiga para mim, ela era como uma irmã.

— Sofia, achas que o Carlos que culpa, pela morte do nosso filho? – Perguntei ainda encolhida no meu canto.

— Claro que não. – Sorriu. – Sabes que o Carlos, estava na sala de espera a choramingar a mesma coisa.

— Como assim? – Virei-me para a encarar.

— Ele também se sente culpado, ele disse-me enquanto estava sentado no chão da sala de espera, a chorar que nem uma menina. – Ele estava a chorar? Sério? – Dizia que tu, nunca o ias perdoar, que o ias proibir de ver a Lídia, ele estava completamente perdido.

— Ele estava perdido? Ele estava com medo, que eu o afastasse da nossa filha? – Perguntei surpresa. – Que tipo de mãe, ele pensa que eu sou? Algum mostro?

— Uma muito protetora, que sofreu muito e acabou por passar por um momento difícil. – Acariciou a minha cabeça.

— Achas? – Eu estava insegura, desde quando a opinião dele, voltou a valer tanto na minha vida. – Ele não pensa em mim, como uma mulher egoísta e inconsequente.

Sentei-me na cama, com a ajuda da minha amiga e encarei a comida que tinham acabado de me trazer. Enquanto ganhava coragem, para ingerir algum alimento depois de tanta emoção, eu mexia nervosamente no meu cabelo. Estava tão perdida, sentia o meu coração tão apertado, que não sabia o que fazer, o que pensar. E realmente isso era algo que eu precisava, pensar, afastar-me dos problemas, para ver o mundo de outra forma.

— Ele nunca iria pensar nisso, ele culpa-se todos os dias por ter trazido aquela mulher, para a vossa vida. De certa forma, todos acabamos por ter alguma culpa, em tudo o que se passou. Faltou diálogo, ninguém conversou com o Carlos sobre o que se passava e por isso não o ajudamos ou aconselhamos. Se o tivéssemos feito, talvez esse bebé ainda existisse, talvez ele já tivesse nascido e corre-se pelo jardim atrás da irmã. A culpa não é só dele, é de todos nós.

— Sim, isso é verdade. Eu devia ter conversado com ele, mas…

— Sabias que a tal de Júlia, afinal não estava grávida? – Mudou completamente de assunto, deixando-me perdida.

— Como assim? – Eu estava meio zonza, mas acho que ouvi direito. – Ela mentiu?

— Não, parece que ela teve um caso de gravidez psicológica, psico… qualquer coisa, já não me lembro bem. Ela tinha todos os sintomas de uma gravidez normal, apenas não tinha nada dentro, estava oca.

— Não digas isso Sofia, se ela chegou ao ponto de pensar ou melhor, de acreditar que estava grávida. Fazendo o seu corpo agir de acordo com o seu psicológico, isso é algo sério, muito sério.

— Eu sei, mas não acaba por ser irónico? – Levantou-se da poltrona onde estava sentada e ficou andando pelo quarto. – O Carlos parte e envolve-se com outra mulher, sem saber que ia ser pai. Quando volta e descobre toda a verdade, desiste dos seus planos e quer ficar, quer recuperar o tempo perdido. Então ela aparece grávida para o vir buscar, exatamente o que tu devias ter feito, mas não fizeste. O problema é que mais uma vez, tudo o que ele vive com ela, não passa de uma farsa. E o que ele viveu contigo, dá novamente frutos, mas por interferências alheias tudo terminou.

— Ela deve ter tido medo de o perder, deve o amar muito. – Disse passando outra vez, a mão pelos meus cabelos, pensativa.

— Amar? Ela é doente isso sim. Acredito que a Júlia, só o ama aquilo que acredita que o meu irmão têm, o que ele lhe pode dar. Ficava surpreendida, se ela conhecesse o verdadeiro Carlos.

— Achas? Eles estiveram juntos por tanto tempo…

— Tenho a certeza, tu és a única que o conhece verdadeiramente. Agora sei, porque nunca tomaste nenhuma decisão por ele, porque querias que voltasse por vontade própria. Tu sabias que ele não estava bem, que ele precisava de um pouco de espaço para respirar. Sempre esperaste, sempre lhe deste uma escolha e esperavas ser a escolhida. Acreditavas no vosso amor, na vossa ligação, por isso nunca te passou pela cabeça que ele te traísse. Eu sei o quanto ficaste abalada, mas havia uma pequena esperança, que ele extinguiu com os seus atos. Ele cometeu um erro grave e quando voltou, a tua mágoa não te permitiu perdoa-lo, mas quando ele ficou… quando ele se tornou o pai que a Lia precisava, quando se tornaram uma família, tu fraquejaste. E o aceitaste-o de volta, eu nunca vi o meu irmão mais feliz, ele ama-te de verdade. E a Lia? Ele é completamente louco por ela, sabes que uma vez o apanhei a velar o sonho dela? Ele estava a pedir-lhe desculpas pela sua ausência, disse que a amava, que te amava, ele queria estar presente. Simplesmente queria tudo o que perdeu, até mesmo as partes chatas… um homem que gostava de ter trocado as fraldas malcheirosas da filha, isso sim é raro. – Sorriu ainda mais, mas logo voltou a fechar o seu sorriso e uma sobra surgiu nos seus olhos. – Quando o vi naquela sala despedaçado, toda a raiva que alguma vez senti por ele sumiu. Ele parecia um menino perdido no meio do nada, sozinho e sem rumo… eu conheço-o desde que nasci, ele é meu irmão vi muitas fases dele, mas nunca o vi assim. Não sei o que planejas, se um dia o vais aceitar de volta, essa é uma escolha apenas tua. Apenas te quero dizer, que ele prefere morrer, a te fazer sofrer novamente.

Depois daquelas palavras, ela apenas me abraçou, dando-me força e me encorajando a seguir em frente. Enquanto eu digeria tudo em silêncio, não era uma escolha fácil, principalmente porque não aguentava outra desilusão. Felizmente não demorou muito a ter alta e pude regressar a casa, ao meu refúgio. Claro que não impedi o Carlos de ver a filha, a Lia não tinha de sofrer pelas nossas escolhas, ela precisava do pai. Eu é que precisava de distância, então fui para o único local onde podia pensar, o meu escritório. Escrever aclarava-me as ideias, ajudava-me a ver as inúmeras possibilidades que tinha pela frente, mas sobretudo a encontrar possíveis obstáculos. Pena a vida não ser tão simples, como um romance onde tudo termina bem, eu só queria que o meu romance, também tivesse um final feliz. É pedir muito? É assim tão difícil?

Dói… dói muito… imaginar viver sem ele, mais dói tanto ou mais pensar em tudo o que aconteceu e no que pode acontecer. Escrever acalma-me, escrever ajuda-me a pensar e tudo flutua a minha volta. Letras, palavras, ideias, sons, cheiros, sentimentos… muitos sentimentos, uns tristes, outros alegres, um mundo cheio e vazio, gira ao meu redor e me leva para longe. Dia após dia, hora após hora, até que tudo acalma e o ponto final, coloca o fim a tudo. E eu posso respirar novamente, calma e serena, com um sorriso de missão comprida. Parece duro, mas é a minha forma de encontrar a paz, de recuperar a sanidade. É ridículo, mas esta sou eu… no meu mais puro ser.

— Tens a certeza, que não queres que fique? – Perguntou-me a Sofia pela quinta vez. – Eu posso receber a Lia, como sempre e…

— Não obrigada, não é realmente preciso, está na hora de o ver. Eu estou pronta… – Respirei fundo, soltando o ar calmamente. – Para deixar a vida seguir o seu curso, vamos ver onde tudo nos leva.

— Estou orgulhosa, seja qual for o resultado, eu tenho orgulho de ser tua amiga e cunhada. – Abraçou-me com força.

— Ex-cunhada. – Lembrei, sorrindo para ela.

— Ex e futura cunhada, ainda acredito numa reconciliação. Ainda vos vou ver juntos, outra vez.

Dito isto abraçou-me, pegou nas suas coisas e saiu, deixando-me sozinha a espera dos dois. Calmamente, sentei-me no sofá e fechei os olhos, queria aproveitar o sossego da casa e relaxar. Queria aproveitar o silêncio na minha mente, antes das dúvidas me atingir e escurecerem a minha alma. O meu momento de reflexão, foi apenas interrompido pelo som da campainha, anunciando a chegada dele. Quando abri a porta pude ver a surpresa no rosto do Carlos, ele não me esperava ver, mas ao mesmo tempo parecia feliz. Claro que fiquei espantada quando a minha filha contou, que o pai ajudou um sem abrigo, quando ele era o primeiro a criticar-me por sempre estar a ajudar tudo e todos. Não por não gostar que eu me importe com os outros, mas por achar que posso ser facilmente enganada e vigarizada. O que nunca aconteceu, posso ser sonhadora, mais ainda sei identificar um mentiroso e aldrabão.

O certo é que a sua mudança de atitude me deu esperança e também gostei, que ele não tivesse forçado a barra. Não forçou uma aproximação, muito pelo contrário, deu-me espaço para respirar. Ele parecia mudado, estava mais decidido, confiante e humano. Quando entrei em casa, arrependi-me por o ter deixado ir embora, queria conversar mais com ele. Apesar de que pouco falei quando o vi, mas não sei… algo me diz para não o deixar ir embora, para o convidar a entrar. Olho mais uma vez para a porta e decido ir atrás dele, antes que o mesmo entre no carro e vá embora. No entanto, assim que o avisto na rua, eu não o vejo a entrar no carro, mas sim a conversar com a Júlia. Eu sei que devia ter voltado a entrar em casa e desistir dele de vez, só que eu não fiz isso. Como não me tinham notado, aproximei-me do muro escondendo-me atrás dos arbustos grandes que decoravam a entrada. Então devagar, desci pelo terreno inclinado, escondendo-me atrás do muro. As suas vozes eram baixas, mas mesmo assim ainda era perceptível.

—Júlia, amor… – Chamou a sua atenção. – Vamos apenas esquecer que elas existem, nós vamos morar a quilómetros daqui, não há hipótese de nos cruzamos com elas. – Aquela simples frase, partiu o meu coração, ele ia nos abandonar novamente. – Vamos casar-nos, ter os filhos que quisemos, ter uma casa grande e nada nos vai impedir de sermos felizes.

— Casamento com carruagem e cavalos brancos? – Perguntou entusiasmada com a ideia.

— Tudo o que quiseres amor. – Respondeu carinhoso.

Senti o meu coração apertar, uma ânsia subir por mim acima, enquanto uma lágrima descia pelo meu rosto e explodia no chão, sem conseguir ouvir mais nada, fugi em direção as traseiras da casa. Assim que estava longe o suficiente, deixei-me cair ao lado de um arbusto e chorei… chorei pela minha inocência, pela inocência da minha filha, pelos nossos corações partidos. Que burra eu fui por pensar, que ele estava a mudar, quando ele planeava voltar para aquela louca. Por que raio, ele teve de complicar tudo? Ele tinha mesmo de me relembrar o quanto o amo, de me fazer confiar nele… como eu o ODEIO…

Fiquei ali alguns minutos enquanto me acalmava e depois voltei para o lado da minha bebé. Vê-la brincar tão calmamente no seu quarto, sem imaginar que um dia seria abandonada, partia o meu coração. Deixava-me completamente desolada, mas eu tinha de ser forte por ela, por nós.

— Vamos tomar banho pequena? – Perguntei aproximando-me dela.

— Sim mamã. – Pulou feliz, seguindo na minha frente.

Dei-lhe um banho rápido, enquanto contava mais sobre a sua nova amiga e depois fomos preparar o jantar juntas, tal como era o nosso hábito. Tudo parecia voltar a paz habitual, estava-me finalmente a esquecer a conversa que tinha ouvido momentos antes. E preferia manter-me assim, pelo menos até a Lídia começar a perguntar pela ausência do pai. Só espero que esse momento demore a chegar, por favor, que não chegue nunca.

— Estou? – Atendi o telefone, assim que deixei a Lia na sua cama.

— Lea onde estás?

— Em casa claro, onde mais estaria a esta hora Sofia? – Perguntei irritada.

— A Lia? Onde está a minha afilhada?

— Na cama, pronta para dormir. – Esta conversa estava estranha, muito estranha. – O que aconteceu Sofia?

— Estás sentada? – A sua voz estava estranha, meio abafada.

— Não.

— Então senta.

— O que se passa Sofia, está a assustar-me.

— Já te sentaste? – Fez uma curta pausa. – Só te senta primeiro, por favor… senta-te.

— Já me sentei, mas por favor Sofia fala, eu estou a ficar assustada. O que raio aconteceu?

Eu não sei o que tinha acontecido, mas eu estava a ficar realmente angustiada, por tudo aquilo. Já não me bastava o bastardo, me trocar novamente por aquela mulher, a minha amiga tem logo de se passar hoje. Eu não sei quanta mais emoção eu posso aguentar hoje, alias, já tive emoções que chegue para muito tempo. Eu não quero saber mais nada sobre ele, mas a minha amiga parece tão aflita, o que raio terá acontecido?

— É que… que… – Hesitou transtornada, ela parecia em dúvida se me contava ou não. – A pouco recebi uma mensagem do Carlos, ele…

— Ele vai voltar para casa, com a sua amante. – Interrompi adivinhando o que ela ia falar. – Eu sei, que ele vai deixar-me, eu ouvi.

Mexi-me desconfortavelmente no sofá, eu não queria falar sobre aquilo, não queria enfrentar a realidade. Pensar que a minha amiga tinha ficado tão abalada por isso, me fez sentir que não estava sozinha, que mais uma vez tudo ia ficar bem. Ao mesmo tempo que, lembrar-me de tudo que ela me disse sobre ele, descobrir que se enganou… É algo que faria qualquer um sentir-se mal, desejar pedir desculpa e simplesmente se afastar. Eu só podia aos céus, que ao menos ela, nunca me abandonasse.

— Ele o quê? – Perguntou surpresa, não era isso que ela ia dizer? – Ele não… o que ouviste quem te disse isso?

— Eu o ouvi a conversar com ela, bem na frente da minha casa, depois de deixar a Lia comigo.

Respondi sem animo tudo de uma vez, não queria arrastar aquele assunto por muito mais tempo. Muito menos me lembrar de cada palavra, que ouvi naquele momento.

— Oh meu Deus… – Suspirou… – Não foi isso que aconteceu, ele não te ia deixar por querer, ele ama-te.

— Não foi isso que pareceu. – Retoquei.

— Leandra… – Quando ela me chamava pelo nome, não era bom, nada bom. – O Carlos pediu-me ajuda, porque a Júlia tinha uma arma e estava disposta a se vingar, ela queria matar-te. Ela não foi aí para encontrar o Carlos e sim, porque tencionava cometer dois homicídios.

— Ela o quê? – Perguntei surpresa.

— Ele deu a sua vida, pela de vocês.

Ouvi um soluço e apenas esperei, eu não queria acreditar, tinha medo de ouvir o resto. Eu não sei quanto tempo durou o silêncio entre nós, enquanto sentia o meu corpo tremer e as lágrimas quente molhar o meu rosto. Ele não podia… por favor, ele não podia estar morto…

— Ele… ele morreu? – Mordi o meu lábio aflita, ele não podia, por favor…

— Não… – Suspirei aliviada. – Ele está em coma.

Ok agora era definitivo, o meu mundo desabou.

 

Continua…

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