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O certo no incerto – Capítulo 21

Vários anos se passaram, desde que os meus pais voltaram a casar e agora eu sou uma mulher, tenho o meu próprio negócio e sou muito feliz. Eu cresci vendo o quanto difícil pode ser o amor, como os caminhos podem ser difíceis e torturantes. E por mais que possam existir dificuldades no nosso caminho, por mais incerto que o futuro pode ser, sempre poderemos encontrar o lado certo da vida. Sempre existe uma forma de sermos felizes, amar e ser amada, sorrir e ser desejada. Durante anos, ouvi toda a gente criticar o meu pai pelo que fez, ouvi as pessoas chamar a minha mãe de tola, por o ter aceitado. Se estivesse de fora, talvez eu fosse uma dessas pessoas, mas eu estava lá, eu vi e vivi cada momento. O amor quando é verdadeiro supera tudo, erros, desilusões, medos, angustias… Se uma mulher é capaz de perdoar um homem que lhe bate, que a maltrata fisicamente e mesmo assim ser feliz. Mesmo que seja um amor distorcido, doentio, errado… porque a minha mãe, não podia perdoar o meu pai? Ele traiu-a uma vez na vida, pelas razões erradas eu sei, ele nunca o devia ter feito. Tudo aconteceu e tudo acabou, mas no fim ele se arrependeu e ela perdoou. E sabem que mais? Nunca vi a minha mãe mais feliz, pela decisão que tomou. O meu pai, nunca mais se afastou de casa por mais de dois dias, se tinha de viajar a minha mãe era a sua companhia. Se ele andava inquieto e preocupado, eles sentavam-se à mesa e conversavam, sobre os seus problemas. A menos que ele não pudesse conversar com ela sobre isso, então a conversa seria com a minha madrinha ou com os meus avós. Seja com quem fosse, ele nunca mais deixou que os seus medos e receios afeta-se a nossa família. A prova, é que hoje a família está toda reunida no jardim, para comemorar os 30 anos de casados dos meus pais. Sim 30 anos, eles hoje festejam as suas Bodas de Pérola. Claro que festejamos o primeiro casamento deles, o segundo foi apenas uma afirmação do amor dos meus pais. Foi uma coisa pequena no jardim da nossa casa, apenas com a família. Para mim, que tinha apenas 5 anos, foi como um conto de fadas.

O jardim tinha sido iluminado por pequenas lâmpadas, havia mesas dos dois lados do altar, com toalhas brancas e jarros com pequenas flores rosa. No altar tinham colocado um arco branco, decorado com várias flores coloridas, todas diferentes, mas lindas. O caminho para o altar, tinha sido feito com pétalas de rosa brancas, que terminavam a beira de dois grande jarro, também cheios de flores coloridas.

— Mamã, porque só as flores é que são coloridas? – Perguntei na minha inocência de criança.

— Anda cá filha. – Chamou-me para sentar no seu colo. – Eu queria que este dia, fosse como uma tela em branco, para mim e para o teu papá. Como um novo começo, uma nova história… hoje formamos uma família, como sempre devíamos ter sido, completa. Pode ser algo ainda complicado para a tua cabecinha, mas no futuro eu sei que vai fazer sentido e vais perceber a minha decisão.

— E as flores? – Insisti.

— Então numa folha em branco, podemos sempre colocar um pouco de cor para ela ser mais bonita. – Sorriu, enquanto acariciava o meu rosto. – Sabes princesa, as flores falam…

— Falam? – Perguntei surpresa, mas também entusiasmada pela novidade. – Eu nunca ouvi.

— Elas não falam como as pessoas, elas são especiais.

— Especiais? – Eu estava confusa, também eu só tinha 5 anos.

— Estás a ver estas flores na mesa? – Perguntou apontado, para as pequenas flores. – São flores de cerejeira, elas significam a beleza feminina, simboliza o amor, a felicidade, a renovação e a esperança. As flores do arco são cravos e tulipas, os cravos brancos significam o amor ardente, ingenuidade, talento e boa sorte. Já o rosa significa “nunca te esquecerei”, que é o que realmente representa o amor, que existe entre nós. Mesmo depois de tudo, um ainda existia no coração do outro. A tulipa branca significa perdão e a vermelha amor e paixão. Já nos jarros temos os lírios e as rosas. Os lírios brancos representam inocência, o matrimónio e a maternidade.  As rosas vermelhas, significam paixão e as brancas inocência, dureza e beleza. Todas de alguma forma tem uma ligação, a tudo o que aconteceu, a vida que vivemos e a vida que construímos. Por isso elas tinham de estar presentes neste dia, tinham de representar tudo o que somos como casal. Ainda é cedo para perceberes estas coisas, mas um dia vais perceber, ainda mais se encontrares um amor tão grande como o nosso.

Sim eu descobri o que era o amor aos 15 anos e também conheci, a minha primeira desilusão amorosa, a minha primeira traição. Nesse momento eu odiei o meu pai, por tudo o que ele fez e ainda mais a minha mãe por o ter perdoado. Só que depois via o seu sorriso e o dos meus irmãos e tudo mudava. Sim eu tenho irmãos, a minha mãe engravidou 1 anos depois de se casarem. Três anos depois do meu irmão Henrique nascer, veio a Leonor, eles são dois pequenos traquinas, mas muito amados por todos. Mais do que o sorriso de todos, era a cumplicidade que existia entre os meus pais, que me fazia pensar. Será que eu tinha conhecido, o meu verdadeiro amor? Estaria eu designada para ser amada? Para construir e viver um amor tão grande, como o que os meus pais construíram? Realmente tinha as minhas dúvidas, mesmo assim, seguia a minha vida da melhor forma possível. Segui atrás dos meus sonhos e encontrei o meu caminho, profissionalmente eu sou uma pessoa realizada. Apenas no campo amoroso, não posso garantir o mesmo sucesso.

— Olá filhota. – Cumprimentou-me, assim que se afastou dos convidados.

— Olá papá, como tens passado?

— Estou bem filha, apenas sinto-me sozinho. – Olhou-me com carrinho. – A minha pequena princesa saiu de casa e agora mal a vejo, é de partir o coração.

— Não sejas dramático pai, eu sai de casa, mas ainda tens a Leonor e o Henrique para fazer bagunça.

— Sim, mas não tarda também abandonam o velho aqui. – Fez uma cara triste. – Os teus irmãos ainda estão em casa, porque a universidade é perto, caso contrário mal os veria.

— Que papá galinha eu tenho, só gosta de ver os seus pintainhos debaixo das asas. – Rir da careta que ele fez.

— Que mal têm, um pai não querer se afastar das suas crias? Estive tantos anos afastado da minha princesa mais velha, que não quero me afastar de mais nenhum dos meus filhos. Vocês são tudo para mim.

— Não seja sentimental pai, ainda me fazes chorar.

— Eu é que vou chorar, a minha pequena chefe preparou todos os pratos, para a festa…

— Mãe por favor, faz o pai parar. – Pedi assim que ela se aproximou de nós. – Ele esta muito lamechas hoje, parece uma garotinha.

— Estás a insultar-me agora Lídia, eu não te criei assim. – Fingiu irritação, mas o seu olhar demonstrava que se estava a divertir com tudo.

— Mamã. – Choraminguei, eu sabia que ela não resistia ao meu choro acriançado.

— Que duas crianças grandes, eu tenho. – Riu-se. – Está na hora de cortar o bolo querido e depois temos que fazer o discurso.

— Ainda não te livraste de mim.

Disse afastando-se, enquanto apontava o dedo para mim, de forma ameaçadora, fazendo-me rir. Quem diria que o meu pai seria tão divertido, ele parece uma criança grande ao agir assim, também tenha aprendido com os meus irmãos. Acho que o estragamos a meio do caminho, de tal forma que ele agora esta no meio de uma crise de meia idade, que o faz agir que nem uma criança. Ao menos tornou-se, numa fase divertida para viver com ele, não uma que queremos evitar os nossos pais a todo custo. E acima de tudo, fingir que não os conhecemos, talvez essa fase ainda exista um pouco. Principalmente quando ele age, como uma criança mimada que quer todas as suas vontades realizadas.

— Olá prima. – Cumprimentou-me o rapaz alto, de cabelos pretos e olhos azuis esverdeados.

— Santiago… – Faltei para os braços do filho mais velho, da minha madrinha, era bom vê-lo ao fim de tanto tempo. – Que saudades, como está a Soraia?

— Muito bem, estamos noivos.

— Sério? Ela finalmente, vai se tornar minha prima?

Pulei de alegria, eles namoravam a vários anos, mas o namoro não desenvolvia. Não sabia qual era o problema deles, afinal era óbvio que se amavam e a é uma excelente mulher. Tem uma carreira muito boa como farmacêutica e vem de uma família, simples e lutadora.

— Onde ela está? – Perguntei olhando em volta.

— Ela não pode vir, a farmácia esta de serviço hoje e ela teve de ficar lá.

— Que pena.

— Santiago tens de provar estes canapés, estão de comer e chorar por mais.

Disse um homem alto, corpo definido, pele queimada pelo sol, cabelos castanhos claros, um olhar penetrante e lábios que fazia qualquer mulher implorar por um beijo.

— Eu sei são ótimos, não fosse a minha priminha uma verdadeira chefe, desde que nasceu. – Piscou para mim, fazendo-me corar.

— Tu também não, por favor. – Resmunguei envergonhada. – Essa alcunha vergonhosa, segue-me desde os 3 anos, não esta na altura de paragem com isso?

— Desde os 3 anos? – Perguntou o gato, curioso. Gato? Eu o chamei de gato? Ai que vergonha, alguém me enterre, por favor.

— Sim, a minha prima aprendeu logo cedo, a ser uma chefe de cozinha. Claro que naquela altura mandava mais do que fazia, mas desde que aprendeu a cozinhar, nunca mais parou. – Corei ainda mais com o seu comentário, enquanto era observando por aqueles olhos, que me impediam de respirar. – Crescer com uma prima assim, é para fazer-te voltar para casa a pé no fim de cada refeição, isso ou agora seria uma bola de gordura muito feliz. Só não sei se a minha noiva, ia gostar dessa versão de mim.

Os dois homens riram com a pequena piada e eu acompanhei-os para encobrir o meu nervosismo. Era a primeira vez que me senti-a assim, era estranho, mesmo assim eu gostava daquele sentimento sentia-me plena pela primeira vez.

— Os meus parabéns a chefe, então. – Disse fazendo-me uma pequena reverência. – Já sou seu fá.

— Obrigada. – Não sei de devo ficar ainda mais envergonhada, ou se feliz. Alguém me ajuda?

— E a prima tem nome?

— Lídia. – Respondi, observando o meu redor, a procura de uma forma de escapar dali.

— Eu não tinha dito? Desculpa prima, eu vou apresentar-vos como deve ser. – Sorriu travesso para mim, deixando-me um pouco confusa. – Esta é a minha prima Lídia Andrade, chefe de cozinha e responsável por todas as comidas desta festa. Dos mais pequenos canapés, até ao pratos e sobremesas mais extravagantes. Além disso abril o seu primeiro restaurante, faz uns 3 anos e o mesmo é um verdadeiro sucesso, é preciso marcar com quase três meses para conseguir uma mesa…

— Chega Santiago. – Gritei surpreendendo. – Não achas que estás a falar de mais?

— Eu até gostei de saber. – Disse sorrindo. – Aproposito o meu nome é Gustavo, prazer em conhecer-te Lídia.

O que eu digo agora? Eu bloquei por completo, o que eu faço? Devo parecer uma total idiota, ele vai pensar que eu não sei lidar com os homens, que sou uma virgem imatura, apesar da minha idade…

— Boa tarde a todos. – Ouvi a minha mãe falar, tirando-me do transe em que me encontrava. – Pedia por favor, que se reunissem junto da mesa dos doces, para fazermos o corte do bolo.

— É melhor irmos.

Disse aproveitando a oportunidade para fugir, infelizmente não pude ir longe e logo eles estavam novamente ao meu lado. Vendo os meus pais partirei o bolo, da mesma forma que fizeram no dia do casamento deles. Por momentos senti-me nostálgica, observando a cena, eles estavam mais velhos, mas a atmosfera ou redor deles não tinha mudado.

— É bonito ver uma relação assim. – Ouvi o Gustavo comentar ao meu lado.

— Sim é.

— Obrigada a todos por terem vindo. – Mais uma vez fui salva, pela voz da minha mãe. – Por nos terem acompanhado e apoiado, sobretudo nos momentos difíceis que passamos. A vida é uma jornada difícil, onde nunca sabemos o que vamos encontrar. Talvez o mais difícil, seja saber qual é o caminho certo, no meio de tantas incertezas que temos na vida. Tudo é complicado e simples ao mesmo tempo, claro que seria ainda mais simples, se soubéssemos como tudo terminaria. A solução para cada problema, mas… que piada a vida teria? – Fez uma pausa, observando todas as pessoas ao seu redor. – Eu sou escritora de romances, já escrevi mais livros do que me posso lembrar. Felizmente, grande parte deles foram um sucesso tremendo, que me ajudou a continuar e de certa forma enfrentar a vida. A cada romance que eu escrevia, uma coisa eu percebi, ninguém compra um romance, cuja vida é monótona e sem sentido. Ninguém termina de ler um livro, se nas primeiras linhas já prevê o final. A vida é como um jogo, se ele for fácil de mais, não tem piada, se ele for muito difícil, nós podemos lutar ou desistir. Tudo é uma questão de escolha, tudo é uma questão de ponto de vista e gosto. O caminho certo, por vezes pode ver aquele, que à primeira vista parece o mais incerto, duro, desafiador. Se desistimos, a procura continua, talvez até nunca encontraremos a verdade, se não tentamos lutar. Talvez, até encontremos o caminho certo, mas o significado nunca será o mesmo. Seja como for, por mais dor que eu passei, por mais desafiante o caminho de mãe solteira podia ser. Eu não quis desistir da minha felicidade, a mesma que estava ligada a vida da minha filha. Se não fosse por ela, eu não estava aqui hoje, eu teria desistido faz tempo. Se calhar teria optado por um caminho diferente, simples e sem dor. Se tivesse feito isso, talvez não tivesse destruído a felicidade de outras pessoas, à minha passagem.

Ela esta a falar da amante do pai? A minha mãe ainda se culpa por aquele dia, pela morte dela, mesmo que não pudesse fazer nada para evitar. Não havia forma de saber, que ela era louca, que tinha um problema mental, que piorou pela sua obsessão pelo papá.

— Se isso tivesse acontecido, eu não acho que seria tão feliz. Independentemente da opinião de todos, hoje eu acredito ainda mais do que ontem, que tomei a decisão certa naquele dia. Eu te amo Carlos, eu mais do que ontem, amanhã, mais do que hoje. Eu vou sempre te amar.

— Eu também. – Ouvi o meu pai dizer, antes de se ajoelhar na sua frente, segurando a sua mão. – Eu te agradeço por ter acreditado em mim, no nosso amor, em nós. Por nunca, em algum momento, ter me separado da nossa pequena chefe, da nossa princesinha. Eu te amo ainda mais, pela mãe fantástica que sempre foste, por tudo o que ensinaste aos nossos filhos. Algumas das vidas que aqui estão, foram de alguma forma, tocadas por ti no passado. Mesmo que elas inicialmente, não teriam qualquer motivo para entrar nas nossas vidas, hoje fazem parte delas. A melhor amiga e o seu braço direito do restaurante, é a mesma menina que um dia tu ajudas-te a sair da rua com a sua mãe. Por mais que o nosso amor, pode ter devastado outras vidas, ele também deu luz e brilho a muitas mais. Ainda hoje, o meu coração dispara simplesmente, porque estás por perto. Eu fico sem jeito, sem ar… cada vez que de vejo linda, quando te produzes toda para mim. Eu ainda tenho de me beliscar, sempre que acordo ao teu lado ou te ouço a dizer que me amas. A verdade, é que a única pessoa capaz de me fazer feliz, és tu e mais ninguém. Por isso, fico feliz que tenhas escolhido o desafio, eu estaria perdido se não o tivesses feito.

Não sei porque, eu senti a necessidade de olhar para o homem ao meu lado, depois de ouvir a declaração de amor dos meus pais. De alguma forma, eu sentia-me atraída por aquele pedaço de homem e depois daquelas palavras… a atmosfera ao nosso redor parece ter mudado, o que me deixa mais inquieta e desconfortável. Foi apenas um instante, que os nossos olhos se encontraram, mas o meu coração bateu tão forte, que parecia que ia saltar do meu peito. O que raio eu estava a sentir, porque sinto algo tão forte por um estranho? Alguém pode me dar uma resposta? Eu realmente não sei o que fazer.

— Seja como for. – Continuou o meu pai, acho que perdi parte do seu discurso. – Tu és e sempre serás.

— O meu certo no incerto. – Disseram juntos.

 

Fim…

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