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O certo no incerto – Capítulo 4

Ele voltou, ele realmente voltou… repetia vezes e vezes sem conta, libertando toda a dor e o sofrimento que ele causou. Era como se as minhas lágrimas pudessem libertar, cada fração de angústia, que estava agarrado ao meu coração. O soluço que estava preso na minha garganta, mais parecia uma bomba relógio prestes a arrebentar. Eu não conseguia aguentar mais, eu sempre me fiz de forte, ignorei tudo o que ele me fez passar, pela minha menina. Infelizmente, existe um limite e eu atingi o meu. Como pode ele ignorar-me por anos e agora ter voltado para pedir o divórcio, tudo para se casar com a sua amante. Eu pergunto-me, o que aconteceu a toda a nossa história, a todo o amor e carinho que nos uniu, mas agora era tarde. Eu não vou permitir que ele tire mais nada, da minha vida, de mim, da minha família, tudo terminou quando ele partiu e assim vai continuar.

— Eu prometo, a mim mesma e a tudo o que existe de mais sagrado… – suspirei, tentando me acalmar. – Que a partir de hoje não vou deixar que nada, mesmo nada interfira com a minha felicidade e a felicidade da minha filha. A Lídia vai ter a melhor infância, que eu vou lhe poder dar, a melhor educação… a melhor mãe, amiga, conselheira, companheira de brincadeiras, partidas e tudo… tudo o que ela possa imaginar. Só não vai ter um pai, mas eu vou mover céus e terra, para que ela nunca sinta a falta de um.

Quando fiquei mais calma, peguei no telefone e liguei para a única pessoa, que me podia ajudar, mas sobretudo aconselhar. Eu sei que de certa forma, não é correto da minha parte ligar para ela. Já a meti numa confusão tão grande, por puro egoísmo, mas eu realmente precisava de um ombro amigo. Mais precisamente, do seu ombro amigo.

— Olá Sofia. – Cumprimentei-a mal, atendeu.

— Que voz é essa Lea? – Sempre perspicaz, até numa simples chamada, ela era capaz de perceber o meu tom de voz. – O que se passa, é a Lia? A minha afilhada está bem? Ela…

— Tem calma, a Lia está ótima, está a lanchar com a tua mãe.

— Então o que se passa? Não me enganas Leandra, eu sei que se passa alguma coisa. – Já estava impaciente. – Desembucha de uma vez.

— É o Carlos. – Tentei engolir mais um soluço, mas foi em vão.

— Porque estás a chorar, pelo Carlos? O que aquele traste, que eu tenho como irmão, fez para te deixar assim. – Cuspiu com raiva, isso era tudo o que ela fazia, desde que ele deixou de aparecer e de ligar.

— Ele voltou, para pedir o divórcio. – Ouvia resmungar, do outro lado da linha. – Ele já sabe sobre a Lídia, viu-a a brincar no jardim com a Dona Maria. Se a tua mãe, já não apoiava a minha escolha, neste momento ela deve odiar-me, por a ter posto nesta situação.

— Esquece a Dona Maria, isso logo lhe passa. – Falou sem dar muita importância, como se estivesse a despachar o assunto. – O que aquele projeto de ser humano, disse? Ele fez-te assinar os papeis? Ele não se importou com a filha? Ele…

— Calma. – Pedi, só ela mesmo, para me fazer sorrir neste momento. – Ele perguntou-me o motivo, de eu não lhe ter contado nada. Disse que teria voltado, assim que soubesse, que tudo tinha sido diferente e… ele rasgou os papeis do divórcio.

— Ele o quê? – Gritou quase deixando-me surda.

— Ele rasgou os papeis. – Repeti com calma, eu nem imaginei que podia ficar calma neste momento.

— Não acredito, ele virou Homem… – Falou mais para si mesma, do que para mim. – E depois? O que ele disse? – Curiosa como sempre.

— Disse que queria conhecer a filha e eu pedi, para ele ir embora. – Suspirei, enquanto limpava outra lágrima. – Eu pedi a separação, acabou tudo Sofia, não tem mais volta.

Mais uma vez explodi num choro descontrolado, fazendo com que todo o meu corpo tremesse, medo, raiva, deceção … tudo e mais alguma coisa, era motivo para me fazer desabar naquele momento, eu tinha perdido o chão.

— Sinceramente eu não compreendo.

– O quê? – Perguntei confusa, assim que me acalmei o suficiente.

— O que tu realmente queres, para a tua vida. – Soltou deixando-me desorientada.

— Como assim?

— Um momento estás a proibi-lo, de conhecer a filha e de entrar na tua vida, mas no momento seguinte está a chorar porque ele foi embora. Tens de te decidir amiga, tens de tomar uma decisão, querê-lo ou não na tua vida? Tic Tac querida, o tempo está a passar.

Dito isto desligou a chamada, deixando-me a pensar, eu estou a ser assim tão contraditória? Será que estou a pensar demasiado, sobre o mesmo assunto? O verdadeiro dilema da minha vida. Pensativa encostei-me confortavelmente na cadeira, enquanto sentia o sol da tarde aquecer o meu rosto, suavizado pela brisa fresca que corria. Era tão bom e relaxam-te que finalmente pude descontrair, como a muito tempo eu não fazia. Ao mesmo tempo, que o rasto das minhas lágrimas, finalmente secava. Quando me senti novamente em paz e com os pensamentos em ordem, entrei na casa e fui procurar a minha filhota. Tinha de liberar a sua avó, ela deve pensar que eu estou com o seu filho, a ter uma conversa civilizada sobre o que nos une. Como se isso fosse possível, depois de tudo o que ele me fez passar, depois de me ter abandonado. Eu nunca devia ter acreditado nele, eu não posso voltar a acreditar nele.

Depois de me certificar que a minha aparência, não revelava os meus sentimentos, fui a procura das duas. Quando cheguei no quarto da minha pequena, presenciei a cena que eu mais adorava ver. A minha filha relaxava aos pés da avó, que estava sentada na pequena poltrona florida no canto do quarto. Enquanto ela lia um livro infantil e a sua voz preenchia suavemente todo o cómodo, a neta escutava fascinada e meio sonolenta. A Lídia sempre ficava sonolenta depois do lanche e ainda mais quando lhe faziam festas na cabeça. Junto com a sua história favorita, era uma mistura explosiva, que terminava num ressonar calmo, que não tardou a acontecer. Eu sempre achei que não existia maior amor no mundo, que o amor de uma avó. E naquele momento eu sabia, que a minha sogra amava loucamente a minha filha, que uma não podia viver sem a outra. Quando vi que a pequena já estava num sono profundo, aproximei-me devagar, dando a conhecer a minha presença. Sem existir qualquer troca de palavras, peguei na Lídia e a coloquei devagar sobre a cama. Cobrindo-a com a sua coberta cor de rosa preferida, com ursinhos brancos bordados. Deixei o seu pequeno candeeiro, com a forma de uma borboleta em tons rosa bebé, ligada e saí do quarto acompanhada pela Dona Maria. Que tinha acabado de fechar as grossas cortinas brancas, com pequenos detalhes em dourado, escurecendo todo o quarto.

— Obrigada por tomar conta dela. – Sorri para a mulher loira na minha frente, logo após fechar a porta do quarto.

— É sempre um prazer, cuidar da minha neta. Ela é uma menina adorável, meiga e carinhosa. Foi bem-educada…

— Obrigada. – Sorri com a sua aprovação.

— Mas… – Tinha de haver um, mas. Porque sempre têm de existir um, mas? – Ela precisa de um pai, ela precisa de conhecer o seu pai. Tu tens um, sabes bem a presença e influência que o teu pai, têm na tua vida. Por favor, não tires esse direito à minha neta. Ela merece ter um, viver a cumplicidade entre pai e filha. Ser apaparicada, andar as cavalitas numa rua movimentada ou para assistir a algum espetáculo. Ser a menininha do papá, que a educa com pulso firme, ou a estraga com mimos. – Respirou fundo, com os olhos brilhantes pela emoção. – Ela merece o melhor, o meu filho pode ter feito escolhas erradas, mesmo assim ele vai amar a filha. Muito mais, do que estás à espera.

Sem dizer mais nada, dirigiu-se para a entrada da casa e saiu. Eu não sei o que se passava com as mulheres da família Andrade, que só sabem atirar a bomba para cima da minha cabeça e depois fugir.

Aproveitando o sossego do final da tarde, voltei para o meu escritório. Queria escrever um pouco, esse era um ato que sempre me acalmava, como uma terapia. Desde que me conheço como gente, que gosto de criar, primeiro eram as pequenas histórias que contava as minhas bonecas. Quando aprendi a escrever e tinha alguma confiança, comecei a criar pequenos contos, não eram nada de especial, mas foram um bom treino. já na adolescência, esse era o meu real hobby, em Vez de correr na rua ou ir as aulas de dança, ou as de ginástica, tal como as outras meninas. Eu simplesmente sentava-me na sombra de uma árvore, com o caderno na mão e a caneta na outra. Durante esse tempo eu vi-a tudo e não via nada, tudo passava, tudo recomeçava e eu ficava simplesmente ali. Foi uma verdadeira surpresa, quando eu ganhei o meu primeiro concurso de escrita e fui convidada a publicar o meu primeiro livro. Tinha apenas 13 anos, era uma menina ingénua e sonhadora, que adorava escrever. Nem estava perto de imaginar, na proporção que aquele sonho teria na minha vida. Dos sucessos e das derrotas que obtive, em diversos momentos da minha vida. Tudo começou ali, com uma simples brincadeira de menina, um pequeno desafio de amiga e muito talento. Ou melhor, muita sorte de ninguém ter uma história melhor do que a minha.

Estava tão perdida no meu mundo, que quase não ouvi, o toque da campainha. Isso era algo que me acontecia às vezes, o que fazia com que as visitas constantes da minha amiga e das duas avós mais babadas do mundo. Fossem mais frequentes, desde que eu engravidei e só pioraram quando a minha boneca nasceu.

Contrariada levantei-me do meu confortável, refugio dourado e fui até a porta. As horas tinham passado sem que me apercebesse-se e agora o Sol estava mais brando, o que significava que tinha de me apressar para fazer o jantar. Sem pensar, abri a porta de uma forma descontraída sem mesmo me perguntar, como a pessoa tinha aberto o portão. Infelizmente a resposta veio, mal reconheci a pessoa que estava do outro lado e nem queria acreditar no que via. Muito menos, no que eu sentia naquele momento. Se fosse uma personagem de um dos meus livros, eu diria que naquele momento eu era como um robô. Frio, em modo automático a espera de receber uma ordem, ou estímulo para me mover.

— O que fazes aqui, Carlos? – Perguntei tentando parecer calma e controlada, o que era o contrário do meu estado interior. – E para que são, essas malas?

— Eu vim para ficar, estou aqui para conhecer a minha filha. – Respondeu arrastando as malas na minha direção.

— Não foi isso, que eu te pedi mais cedo. – Eu já estava a ponto de chorar, mas tentava controlar ao máximo as minhas emoções. – Eu não te quero ao lado da Lídia, e muito menos te quero nesta casa.

— Leandra. – Chamou o meu nome calmamente. – Eu ainda sou o teu marido e tenho os meus direitos, sobre esta casa e sobre a minha filha, e pretendo utilizá-los. Não me podes expulsar, pelo menos, até assinar os papeis da separação e o mesmo sair. O que depender de mim, ainda vai demorar um bocado.

— Tu não podes. – Agora sim, eu ia chorar. – Não é certo…

— O que não é certo, é mantes-me afastado da minha filha. Eu tenho os meus direitos e vou aproveita-los, eu vou ficar. – Disse abrindo passagem, com o seu grande corpo. – Onde está a minha pequena?

Perguntou no momento que um pequeno ser entrou na sala, esfregando os olhinhos ainda com sono. Ela fica tão adorável daquela forma, com as bochechas rosadas, o cabelo bagunçado.

— Estou com fome mamã. – Disse distraída, até que se apercebeu da presença do pai e o olhou curiosa. – É o homem do jardim, o que ele faz aqui mamã?

Perguntou curiosa, balançado o seu ursinho branco nos seus pequenos braços, eu devia imaginar que ela estava com ele, mesmo sem o ter visto. Ela adora aquele urso, têm-no desde bebé, foi a sua primeira prenda quando nasceu. Claro que foi a Sofia que o escolheu, ela adora esse tipo de coisas, ela sempre teve jeito para crianças e é uma mãe maravilhosa.

— Olá boneca, eu sou o Carlos, o teu papá.

E pronto, a bomba já tinha explodido, fazendo a maior confusão na cabecinha de uma menina com apenas 3 anos de vida.

Continua…

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