O certo no incerto – Capítulo 5

Eu destruí tudo, apenas pela inveja do sucesso, por me sentir ameaçado como homem e para quê? Para descobrir que tenho uma filha com três anos, isto se eu fiz bem as contas. Porque se há coisa que eu não consigo fazer agora, é pensar com clareza. Definitivamente, a realidade é o pior pesadelo de um homem e eu descobri isso, da pior forma. Tudo bem que eu podia esquecer tudo e fugir, afinal eu tenho uma vida em outra cidade. E mais do que isso, eu tenho uma mulher linda à minha espera, ansiosa por se tornar minha. Eu não tinha planeado nada disto, não queria trair a minha mulher, terminar com o meu casamento, mas… eu não pude deixar de ser seduzido. A Júlia é o completo oposto da Leandra, alta, morena, com longos cabelos compridos e uns lindos olhos cor de chocolate. Além disso, tem um corpo de fazer inveja, cheio de curvas deliciosas, cintura fina, uma verdadeira tentação. Ela é meiga, sociável, carismática, divertida, sexy, o tipo de mulher que gostamos de gabar aos amigos, de a exibir como um troféu. Provavelmente o que mais me seduziu nela, foi o seu estatuto social. Não me sentia rebaixado ao seu lado… eu era eu novamente, apenas eu… finalmente tinha a capacidade, de dar uma vida a alguém e não o contrário. Ser sustentado por uma mulher, não fazia de todo o meu estilo e apesar, de não ser isso que acontecia. Era assim que me sentia, porque eu sabia a verdade e conhecia a Clara Moreira tão bem, da mesma forma que conhecia a Leandra Oliveira. Eu sei que a Clara é apenas uma mulher inventada, ela é a sombra, uma parte do que a Leandra é na realidade. Apenas tenho a sensação, que ao contrário do resto da população do mundo, a sombra da Lea é feita de ouro e não é o ouro dos tolos. Ela nunca seria feita de pirite, mas de ouro puro, cheio de quilates. A verdade é que ganhar num ano, o que a minha esposa ganha num mês, não é propriamente o sonho da maioria dos homens. Credo eu passei a vida inteira, infernizando aquela mulher, eu gozava com tudo o que ela fazia. Como eu posso me ter rebaixado assim?

Aquela garotinha, aquele pedaço de gente, que era uma mistura perfeita minha e da Lea. Traz-me, tantas recordações do passado, da minha infância. Eu acompanhei, quase toda a vida da minha esposa, ela era unha com carne da Sofia e ainda o é. Se ela não estava na nossa casa, então a Sofia estava na casa dela. Não sei o que tanto faziam juntas, apesar de sempre encontrar a mesma rapariga gorduchinha… Ela não era gorda, gorda, tipo bem redonda e grande, ela era apenas cheiinha, sem grandes exageros. O seu vício era claro, a escrita, o que fazia dela uma rapariga sedentária. E por isso, eu adorava implicar com ela, tudo servia de desculpa, tudo era um motivo. Até que descobri, a sua paixão pelo meu melhor amigo. Ao contrário de mim o Sílvio, era um rapaz comportado e bem-educado. Ele sempre a tratava com muito respeito e ainda a incentivava, o seu pseudónimo foi escolha dele ou melhor, foi com a sua orientação. Era fácil imaginar que no mesmo momento que ele mencionou esse nome, que ele disse, que gostava da forma que soava. Um nome, no meio de centenas, nesse momento eu soube que a sua escolha tinha sido feita. Tudo o que ele dissesse era verdade, era lei e eu… eu não era nada e isso irritava-me profundamente. Então simplesmente, resolvi o problema. Recordar-me daquele dia, ainda me deixa com um sorriso no rosto. Eu nunca vou esquecer do seu rosto corado, dos seus lábios levemente vermelhos e do seu rosto irritado. Ela estava louca, capaz de me bater, mas não podia. Pelo menos não na frente do seu loiro de olhos azuis, o meu amigo nunca soube o porquê da sua súbita irritação. E até hoje eu não sei se ela contou à Sofia, que eu a beijei bem na frente dos dois, sem ninguém notar o meu ato. O seu primeiro beijo foi meu, aliás, o seu primeiro tudo. Eu não podia acreditar, no quanto ela era inexperiente, quando eu voltei.

Eu fiquei anos sem a ver, ela nunca estava na minha casa, quando regressava da universidade. Depois com o estágio, eu mal regressava a casa e claro, quando o fazia nunca a via, ela odiava-me. Foi então que eu regressei de vez e um dia, simplesmente a encontrei. Ela estava linda, o seu corpo tinha ganho novas curvas, a sua cintura tinha ficado mais fina. Os seus olhos estavam mais vivos e brilhantes, sem esquecer do seu lindo e sedoso cabelo preto, bem comprido. Aquela foi a primeira vez que a vi, como uma mulher linda, sedutora e inteligente. Nessa altura, ela já era uma escritora profissional e já tinha o seu primeiro sucesso. E sinceramente naquela altura, não me incomodou nada, nem podia imaginar no que o seu sucesso, a ia tornar. Nos zeros que a sua conta bancária, ia acumular, um livro de cada vez.

Linda como ela era, eu sabia bem qual era a extensão da minha concorrência e que tinha de ser rápido. O problema, era que ao contrário dos outros homens, ela odiava-me de morte. Coisa que definitivamente tinha de mudar, ela tinha de ser minha e foi. Eu não podia acreditar o quanto era sortudo, quando ela aceitou namorar comigo e dois anos depois casar-se. E ainda por cima, ela era virgem, pura, linda apenas para mim, um verdadeiro sonho, o problema veio depois. Viver sobre o mesmo teto, não era o sonho que eu pensava. Em todo o lado eu comecei a ver o dinheiro dela, as coisas que ela comprava por gosto. Sem mesmo se importar, em olhar o preço das coisas, ela não precisava disso. E por isso eu fui embora, na primeira oportunidade, sem olhar para trás.

O toque do meu telefone, tirou-me dos meus devaneios sobre o passado. Preguiçosamente levantei-me da cama e procurei pelo meu telemóvel. Quando vi o nome na tela, desejei por momentos, nunca o ter encontrado. Não pelo menos agora, não quando eu estava tão afundado no passado, em lembranças que marcaram a minha vida para sempre e que nunca me iam deixar.

— Olá paixão. – Atendi por fim, com a minha voz mais sedutora, para evitar perguntas desnecessárias. Que nem eu sabia a resposta ainda.

— Olá boneco, já estás pronto para voltar? – Perguntou apressada.

— Calma querida, eu avisei que ia demorar. – Suspirei cansado e também frustrado com toda esta situação. – Eu ainda nem falei, com a minha família…

— E os papeis, ela já assinou? – Interrompeu-me, ela estava mesmo ansiosa com aquilo.

— Ainda não, as coisas não são assim tão simples. – Suspirei, eu não queria mesmo ter esta conversa.

— Como assim, não é simples? Ela só tem de assinar um papel, ou ela nem sequer sabe pegar numa caneta e fazer meia dúzia de rabiscos. – Agora ela estava irritada e nem sabia da missa a metade. – Ela quer mais dinheiro, não é? Uma pensão fixa para viver a vida toda as tuas custas, é isso? Docinho tu mereces uma mulher melhor, uma mulher que te ame e te dê prazer, uma mulher como eu.

— Não é isso, ela não precisa de dinheiro, nunca precisou. – Ai se ela soubesse que a minha esposa, é na realidade a sua escritora favorita. – O problema é outro, o que me vai prender aqui um tempinho mais, do que o esperado.

— E posso saber que raio do motivo, ela inventou para te prender aí. – Agora sim, tinha libertado a fera. – Essa mulherzinha, não te vai tirar de mim. Tu és o meu homem, és meu e não vou deixar que ela te leve. Sabia que devia ter ido contigo e sabes que mais, eu vou já para aí.

— Júlia tem calma por favor, ela não inventou nada. Ela apenas me escondeu, um assunto importante. – Como eu vou convencer, esta mulher a ficar quieta. – Assim que resolver tudo aqui, eu volto querida, isso é uma promessa.

— Que assunto importante, é esse que ela te escondeu, para te fazer ficar?

— Nada que te precises de preocupar, querida. Eu trato de tudo, em breve estarei em casa. Vou aproveitar que estou aqui, para resolver alguns assuntos na filial de cá. – Tentei a distrair com os negócios, ela odeia esse tipo de assuntos, por isso esse é o tema que sempre uso para fugir das suas perguntas. Ao menos com ela é eficaz, já com a Leandra era o completo oposto, sempre interessada e curiosa. – Amanhã eu volto a ligar, querida. Agora tenho de ir, já sabes quanto mais rápido resolvo tudo, mais rápido volto para ti linda.

— Então despacha-te, a resolver tudo e volta rápido. – Consegui perceber alguma irritação na sua voz, antes de mudar para um mais doce e sedutor. – Sinto a tua falta amor, na nossa cama, só nos dois nus, suados, a cometer as mais deliciosas loucuras. Quero-te aqui querido, agora…

— Hum, isso é uma tentação, mas não posso voltar ainda. Se eu voltar agora será o fim, o fim para tudo e agora tem uma coisa que eu não quero perder. – Ela vai enlouquecer, se souber que sou pai. – Eu preciso que os meus pais e as minhas irmãs te aceitem. Essa é uma tarefa completamente difícil, mas é preciso, se não que casamento teríamos? Já pensaste o que os nossos amigos diriam, se os meus pais não aparecessem? Se os únicos convidados na festa fossem a tua família e os nossos amigos e colegas? Ainda mais, quando souberem que eu sou divorciado?

— Eu seria a chacota de todos.

— Pois serias. Percebes agora o motivo, que eu tenho de estar aqui e de os convencer? – Finalmente via um e esperança em encerrar o assunto de vez. – Eles vão acabar por te aceitar e seremos muito felizes.

— Mas porque eu não posso estar aí, contigo? – E ela insiste.

— Eu já expliquei querida, eles não iam intender, sabes bem disso. A Leandra é como uma filha para os meus pais e como uma irmã para as minhas irmãs.

— Ok. – Suspirou vencida fazendo-me sorrir. – Mas por favor, volta rápido amor, eu não quero escolher a quinta ou o bolo sem ti e ainda faltam os convites, a data… ainda nem escolhemos a data bombom.

Podia a imaginar a fazer biquinho, tão claramente como se ela estivesse na minha frente. Ela sabia agir como uma criança mimada quando queria, talvez por foi uma durante toda a sua infância. Também com pais que lhe fazem todas as vontades, sem mesmo reclamar. Será que também não vão reclamar, quando souberem que a filha está a sair com um homem casado. Nem sei como eles ainda não descobriram isso, a Júlia não achou necessário contar-lhes esse pormenor e eu tenho medo da reação deles. Principalmente depois da reação dos meus pais, quando eu lhes contei que tinha alguém e que pretendia me casar com ela.

— Em breve estou em casa, eu prometo. Assim que resolver tudo por aqui. Amo-te

— Também te amo, fofinho.

Finalmente ela desligou o telefone, não sabia mais como a enrolar, com toda esta história. Ainda mais com uma criança no meio, uma viragem inesperada que eu já amo e não me quero separar. Sem perder tempo, arrumei todas as minhas roupas na mala e fechei a conta do hotel. Um divórcio não me ia afastar da minha filha, nada me ia impedir de a conhecer. Então tomei a única decisão lógica, aproveitar a minha situação de marido. Utilizar todos os meus direitos e recursos, só espero que não demore muito, para chegarmos a um acordo. Eu não quero a Lídia longe de mim, quero fazer parte da vida dela e recuperar o tempo perdido. Mesmo que isso faça a Leandra me odiar, ainda mais do que já odeia, mas a Lídia agora é o meu tesouro. Só não quero uma Júlia zangada atrás de mim, para estragar tudo.

 

Continua…

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