O certo no incerto – Capítulo 6

É possível, duas pessoas acabarem de se conhecer e não se largarem mais? Existir uma ligação de pai e filha, sem passado, sem história, sem memórias, apenas em um simples momento? Eu acredito que não, mas a atmosfera do ar mudou e esta nada tem a ver com a minha aura assassina. A minha simples vontade de envolver os meus dedos, envolta do seu pescoço e o apertar devagarinho, até que nenhuma partícula de ar seja capaz de passar. Matá-lo de forma lenta e dolorosa, dando-lhe um pequeno gosto do que eu senti, do que ele vai fazer a minha filha sentir. Por incrível que pareça, é quase como se eu não estivesse na ala, eu sinto como se os dois tivesses contruído a bolha deles, com uma simples frase e o olhar. Já se passaram vários minutos eu diria até décadas, sem que eles se mexessem apenas observam a expressão um do outro, como o silêncio fosse capaz de falar mais, do que uma simples palavra ou som, é capaz de fazer.

— Eu tenho um papá? – Uma pequena lágrima escorreu pelo seu rosto, fazendo-me congelar no lugar. – Eu também tenho um papá, um só meu?

Eu sei que errei, que devia ter falado sobre ele, mostrado as nossas fotos e contado sobre a nossa história, mas… tudo era doloroso de mais, as emoções estavam há flor da pele e depois o orgulho tomou conta de mim. Ela era minha, minha filha, minha prioridade, o meu tesouro, eu não podia deixar que ela sofresse. Como podia deixar uma garotinha pensar que o pai não a amava, que não nos amava e por isso estava longe de nós a contruir outra vida. Sim a culpa é minha, eu devia ter contado sobre a minha gravidez, devia o ter visitado. Porque raio eu acreditei que teria de ser ele a visitar-me, que tinha de ser ele a decidir que nos íamos mudar, porque eu tomei tudo por garantido. Eu achei que tínhamos uma relação forte, firme na nossa história, no que nos envolvia… mas não, nada é garantido, nada é para sempre e agora eu ia pagar esse preço. Ainda por cima, eu não posso dizer que não me avisaram, porque agora a palavra que eu tanto vou ouvir é dolorosa de mais para aceitar.

— Sim filhinha, tu tens um papá só teu. – Sorriu de forma carinhosa, de braços abertos.

— Papá… – Gritou atirando-se para os braços do pai.

Eu não consigo explicar o nó que se formou na minha garganta, o que eu estou a sentir, o que eu vou fazer. Como eu posso separar estes dois, sem magoar ainda mais a Lídia, como posso fazer o nosso passado voltar. Os nossos dias calmos, a nossa ligação de mãe e filha… ele mudou tudo, ele vai destruir tudo, o que eu faço? Sem que eu notasse o Carlos levantou-se e caminhou com a menina até a sala onde se sentou no sofá. Ele sussurrava alguma coisa a filha, ainda aninhada no seu colo, tentando-a confortar. Quantas vezes eu desejei ver aquela cena, ver a minha filha abraçar assim o pai com saudades dele e não porque o acabou de conhecer. Fechei os olhos, deixando que uma lágrima quente escorresse pelo meu rosto, qual é a escolha certa a se fazer? Que caminho eu devo tomar? Porque ele teve de complicar tudo?

Derrotada dirigi-me para a cozinha, não me adiantava chorar ou suplicar por uma solução, com uma criança faminta em casa. Seja qual fosse, a solução há de aparecer, tem de aparecer… céus… porque tudo tem de ser tão difícil, porque não podemos voltar a trás no tempo e fazer tudo diferente. Uma vez na cozinha resolvi fazer um prato simples, não tinha cabeça para cozinhar nada complicado, nem que precisasse de muita atenção. Num instante, preparei um simples arroz de legumes e grelhei uns panados de frango, para acompanhar fiz uma salada de alface e tomate. Depois de tudo pronto e da mesa posta, respirei fundo tentando ganhar coragem para chamar os dois. Como a realidade pode ser tão cruel, ao ponto de realizar uma fantasia minha, desta forma. Eu não quero um jantar de família sobre estas circunstâncias e mesmo assim, é isso que vou ter. Antes que a comida ficasse fria, fechei os olhos e fiz uma suplica surda, para que tudo termina-se da melhor forma em breve. Quando terminei, abri os meus olhos e encarei a vida de frente, a luta ia começar.

— Lídia, filha o jantar está pronto. – Chamei-a sem sair do lugar, afinal ela estava apenas no cómodo ao lado.

— Mamã, mamã… – Chamou-me animada, já nem parecia mais a menina chorosa nos braços do pai. – Olha o ursinho que o papá me deu.

Esticou o pequeno urso rosa, com um laço a volta do pescoço em fita de cetim branca. Eu podia ver os seus olhos vermelhos, mas o sorriso que o seu rosto carregava, enchia todo o meu coração. Eu sempre tive orgulho na minha filha, era uma menina adorável, meiga, carinhosa, alegre e muito inteligente. Tinha uma retorica tão boa ou melhor do que uma criança de seis, sete anos e já tinha até os seus sonhos definidos. Tão pequena e já sonha ser uma grande chefe de cozinha, a inocência de uma criança é algo simplesmente fascinante.

— Não é lindo mamã.

— É sim filha. – Respondi acariciando a sua cabeça, sem me aperceber que estava a ser observava. – Agora vai lavar as mãozinhas, para podermos comer.

— Está bem. – Respondeu saltitando até a porta, onde o pai estava. – Vamos papá, temos de lavar bem as mãos, a mamã está a nossa espera.

Sorri com a sua atitude de mulherzinha adulta, que logo deixei morrer, quando vi que o Carlos também sorria para mim. Senti que ele ficou desconfortável, com a minha mudança de atitude, mas não liguei e simplesmente fui terminar de preparar um sumo de fruta para a Lia. O jantar foi feito em silêncio, apenas interrompido por alguma observação ou história que a Lídia tinha a contar. Felizmente ela não percebia a tenção que existia, entre mim e o pai dela e isso deixava-me feliz. No fim do jantar, recolhi toda a louça e coloquei-a na máquina de lavar. Arrumei o que faltava na cozinha, o que não era muita coisa, pois eu não suporto trabalhar numa cozinha desarrumada. Assim sempre que posso no meio da preparação, arrumo e lavo o material desnecessário, isto se não for usar a máquina de lavar louça claro. Já os dois, engataram numa conversa animada, sobre a escolinha da Lia e os seus amigos.

— Lia, está na hora de ires lavar os dentinhos. – Interrompi os dois.

— Já? Não posso ficar mais um bocadinho, com o papá?

— Não, já sabes as regras. Está na hora, está na hora, nem mais um minuto menina.

— Mas… – Fez beicinho tentando persuadir-me, a deixa-la ficar mais tempo com o pai.

— Tens de obedecer a mamã filha, amanhã podemos brincar mais, o papá não vai embora.

— Não vais embora? – Perguntou com os olhinhos brilhantes, animada com a possibilidade.

— Não filha, eu não vou embora. – Sorriu para ela, sem se quer olhar para mim. – Agora obedece a mamã e vai lavar os teus dentinhos.

— Está bem. – Sem fitas, nem birras levantou-se da sua cadeira e seguiu para casa de banho.

— Não precisas de fazer isso.

— Isso o quê Lea? – Perguntou confuso.

— Para ti é Leandra e referia-me ao facto, de estarem a agir como um pai afetuoso.

— E porque teria de parar? – Levantou-se sem desviar o seu olhar do meu e caminhou na minha direção.

— Porque quando ela precisar realmente de ti, não vais estar lá para ela. – Engoli em seco, a aproximação dele deixava-me desconfortável.

— Porque dizes isso, achas que eu abandonaria a minha própria filha? – Aproximou-se ainda mais, enquanto eu tentava ganhar algum espaço entre nós.

— Porque não? – Dei de ombros. – Tu também não me prometeste amor eterno e agora vais casar com outra, não foi para isso que voltaste?

A minha pergunta fê-lo congelar por um momento, confronta-lo com a verdade deixava-o desconfortável. Mas a verdade, é que ela era a única certeza que eu tinha, a dolorosa verdade por trás da afirmação.

— É diferente. – Respondeu voltando-se a sentar.

— O que é diferente? – Agora era a minha vez, de me aproximar. – Os anos que passamos juntos, é diferente? O facto que nos conhecemos desde criança, é isso que torna tudo diferente? Conheces a tua filha a um par de horas e já achas que tudo vai mudar.

— Têm calma Leandra, as coisas não são assim…

— E são como? Posso saber? – Agora eu realmente estava exaltada, se ele queria me enervar conseguiu, bastou tocar na ferida que não quer cicatrizar.

— Leandra, nós…

— Nós o quê? Admite que te cansaste de mim, que nunca me amaste, que nada do que vivemos foi real, sê homem uma vez na vida e admite. – Senti os olhos a arder por causa das lágrimas não derramadas. – Admite, diz a verdade uma vez na vida. Percebe o porquê, que não te quero na vida da Lia e vai-te embora. Deixa-nos em paz, casa-te com a tua querida amante e vive a tua vida longe de nós. Por favor, não magoes a minha menina.

— Leandra eu…

— Mamã… – Ouviu uma voz suave, vinda da porta da cozinha. Rapidamente virei-me de costas e tentei limpar as lágrimas como podia.

— Que foi querida? – Perguntei com a voz mais calma, que conseguia fazer.

— Não foste ajudar-me a vestir o pijama. – Choramingou manhosa.

— Desculpa, querida.

Por uma vez na vida, agradeci aos céus pelos milhares de euros que gastei a insonorizar a casa. A princípio achei uma estupidez, apenas precisava de não ouvir os barulhos do exterior, mas o vendedor convenceu-me com uma promoção qualquer e eu agora agradeço por isso.

— O papá pode ajudar? – Perguntou ansioso, observando a filha.

— Sim, sim… – Saltitou feliz

— Não é preciso. – Respondi firme. – A mamã ajuda como sempre e depois o… o papá pode ir dar-te um beijo de boa noite, está bem princesa.

— Tá bem. – Respondeu cabisbaixa, no entanto saiu na mesma a correr.

— Não precisas de reagir assim, eu nunca farei mal à Lídia. – Agarrou o meu braço, impedindo-me de sair. – Eu não sou o mostro, que pintas ser, eu amo a minha filha.

— Isso é o que dizes. – Desvencilhei-me da mão dele. – Farta de promessas que nunca serão compridas, estou eu. Tu foste a maior desilusão da minha vida, não quero que também sejas a maior desilusão da minha filha.

Dito isto afastei-me dele, caminhando em direção ao quarto da minha pequena, quando cheguei lá encontrei-a a brincar com os seus ursinhos.

— Vamos trocar de roupa amor? – Chamei a sua atenção.

— Sim. – Levantou-se vindo na minha direção.

Rapidamente troquei a sua roupa e a deitei na cama, peguei num dos seus livros favoritos e comecei a ler. Silenciosamente o Carlos entrou no quarto e se sentou ao lado da filha, escutando a história que eu contava com atenção, enquanto acariciava a cabeça da filha. Em pouco tempo, a menina adormeceu e nós abandonamos o quarto sem esquecer de deixar, apenas a luz de presença ligada. Depois de fechar a porta do seu quarto, caminhei em direção ao meu, sendo seguida pelo Carlos.

— Onde pensas que vais? – Perguntei, virando-me para ele.

— Para o quarto, para onde mais iria? – Perguntou sarcástico.

— Para a tua casa.

— Eu estou em casa, ainda somos casados. – Sorriu de lado.

— Não por muito tempo. – Virei as costas e segui o meu caminho, mas logo o senti a segui-me novamente. – Onde pensas que vais?

— Já respondi a essa pergunta, vou para o meu quarto. – Cruzou os braços e sorriu.

— E onde fica esse “teu quarto”? – Perguntei sarcástica, fazendo aspas com os dedos.

— Ora, onde devia ficar?

— Na rua, o mais longe possível desta casa, qua tal assinares os papeis do divórcio e depois voltares para onde viestes?

— Não saio daqui, até perceberes que quero fazer parte da vida da minha filha. Eu não assino papel nenhum, até chegarmos a um acordo e partilhamos a custódia da menina. Eu quero fazer parte da vida dela, conhecê-la, partilhar todos os momentos com ela. Eu tenho esse direito e vou usa-lo.

— Não tens direito algum, sobre ela, a nossa casa ou a minha vida. Se queres ficar, eu vou de deixar ficar, apenas pela Lídia, mas fica bem ciente de uma coisa, se a magoares terás que te haver comigo. Agora podes ir dormir para o quarto mais afastado da casa, se pudesse eu mudava-te para a casota do cão, mas infelizmente não tenho nenhum. Por isso, o quarto mais afastado vai ter de servir. Boa noite.

Assim que acabei de falar fechei a porta do quarto atrás de mim, não esperava, nem queria ouvir uma resposta dele. Já tinha ouvido disparates que chegue, para a minha vida inteira. Amanhã tenho de marcar uma reunião com o Filipe, se eu adiar de mais esta situação, maior será a ferida que vai ficar no coração da minha menina.

 

Continua…

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