O certo no incerto – Capítulo 7



Acordei na manhã seguinte com uma grande dor de cabeça e uma preguiça que eu não sabia explicar. Desde da gravidez da Lídia, que eu não me sentia tão preguiçosa e com vontade de passar o dia todo na cama. Brincar e passar o tempo com a minha filha, era tão agradável que essa hipótese não passava pela minha cabeça. No entanto, era como se eu fosse encontrar um pesadelo assim que me levantasse da cama e isso só me fazia querer ficar nela por mais tempo. Olhei para o relógio mais uma vez, para ter a certeza que não podia adiar a agonia por mais tempo e levantei-me da mesma. Preguiçosamente dirigi-me a cada de banho do meu quarto, tomei um banho demorado, sequei os meus cabelos e me dirigi ao meu closet. Eu não sabia o quanto eu ia adorar aquele espaço quando o construí e posso dizer, ele é verdadeiramente o sonho de qualquer mulher. Devo admitir que a minha irmã e as minhas duas cunhadas tinham toda a razão, quando insistiram que um closet era uma parte essencial da casa para qualquer mulher. E seria ainda mais para uma mulher de negócios, que tinha frequentemente de aparecer bem vestida a várias festas, lançamentos e secções de autógrafos. Nada mais do que a pura verdade e eu agradecia por isso, os meus livros era um verdadeiro sucesso, mais do que um dia um pensei que fossem. Eu tinha mais dinheiro do que alguma vez seria capaz de gastar, mas isso não era motivo nenhum, para mudar a pessoa que eu era. Eu sempre tentei não ser influenciada pela fama e pelo dinheiro, acho que tenho tido sucesso nisso também, mas nunca se sabe. O dinheiro não é algo importante para mim, o mais importante é fazer algo que eu goste, algo que me dá prazer. Sem esquecer, que também devo assegurar o futuro da minha filha e por isso tenho tomado algumas medidas ao longo da vida. Uma delas, está guardada no meu escritório. Ao longo dos anos, fui capaz de adquirir alguns livros famosos autografados, sem esquecer as primeiras edições dos meus próprios livros. Eu sei que hoje eles não valem muito, mas daqui a alguns anos quem sabe. Primeiras edições e livros raros principalmente se os mesmo foram autografados e possuem um certificado de autenticidade, são capazes de valer uma pequena fortuna. Se a minha filha, neta ou até bisneta um dia precisar deles para poder sobreviver, eu certamente ficarei orgulhosa por ter comprido o meu papel. Investir em algo que o dia pode valor o dobro ou o triplo é algo que eu gosto de fazer, pois nunca sei que vida eu no futuro posso ajudar. Além disso eu prefiro ter um objeto bonito e de valor em casa ou até no banco. Do que ver uma carrada de zeros na minha conta bancária, imaginando todos os parasitas à minha volta, tentando extorqui-me cada cêntimo.

Assim que sai do closet devidamente vestida, com uma calça social preta e uma blusa em verde água. Dirigi-me novamente à casa de banho, para terminar de me arranjar. Prendi o meu cabelo num prático rabo de cavalo e passei uma maquilhagem leve e natural no rosto. Assim que terminei, caminhei para a porta do quarto e respirei fundo, eu não queria o enfrentar novamente, mas tinha de o fazer pela minha filha. Devagar rodei a maçaneta da porta e caminhei em direção do quarto da Lia, mas eu leve barulho vindo da cozinha chamou a minha atenção. Rapidamente mudei o meu rumo, seguindo o barulho que se intensificava graças a porta deixada aberta. Quando lá cheguei, encontrei a minha filha ainda de pijama, sentada num dos bancos do balcão dando ordens ao pai. Devo admitir que era uma cena cómica, ver um homem receber ordens de uma criança, enquanto preparava o pequeno almoço de forma desajeitada. E sem dúvida, sujando tudo a sua volta, uma coisa ele podia ter a certeza, não seria eu a arrumar toda aquela confusão.

— Bom dia. – Respondi chamando a atenção dos dois, enquanto me aproximava da Lídia e para dar um beijo na sua testa.

— Bom dia mamã. – Sorriu para mim. – Eu e o papá estamos a preparar o pequeno almoço, mas ele é trapalhão, não faz como eu digo.

Sussurrou para mim a última parte, tirando um sorriso dos meus lábios. Se ele achava que seria fácil entrar na minha nossa vida estava muito enganado, ninguém era mais mandão na cozinha que a minha filha. Isto com apenas 3 anos, imaginem como ela será quando for mais velha e se tornar uma chefe executiva.

— Bom dia Leandra, nós fizemos panquecas. – Estendeu um prato na minha direção. – Acabaram de sair do fogão, vais querer?

— É seguro?

Perguntei olhando para a minha filha, tinha a certeza que ela instruiu o pai em cada passo. Ninguém decorava uma receita como a minha filha, ninguém tinha mais prazer de estar na cozinha e cozinhar como ela. Ela só não é mais ativa em uma, porque eu não deixo e por isso ela é sempre a meu copiloto, ajudando-me a não me esquecer nenhum passo. Ajudando em apenas nas tarefas, que não representam algum perigo físico para ela.

— É sim mamã, eu ensinei o pai direitinho. – Sorriu orgulhosa.

— Então eu acredito. – Sorri para ela, sentado me ao seu lado.

— Assim até me ofendes, eu sou bem capaz de preparar um bom pequeno almoço, para a minha filha.

— Mesmo que para isso, tenhas de destruir toda a minha cozinha. – Observei-o, deixando-o o meu tom irónico o atingir.

— Eu não tenho culpa, foi a primeira vez que fiz panquecas na minha vida. – Deu de ombros.

Eu ri com aquela situação, por momentos imaginei como seria passar os meus dias assim, mas logo tratei de por de parte esse sentimento. Ele estava noivo de outra pessoa, ele quer o divórcio e quem sabe… pode até desejar separar a minha filha de mim. Suspirei fundo, tentando colocar os meus pensamentos em ordem, enquanto comia calmamente a minha panqueca e ouvia a conversa animada dos dois ao meu lado. Devo admitir que não estava má, para a primeira vez, claro que ele tinha tido uma excelente professora.

— Vais sair hoje? – Perguntou-me o Carlos, enquanto tirava o avental azul marinho.

— Alguém precisa de levar esta pequena para a escolinha.  – Disse desinteressada, apercebendo-me que tal como a Lia, ele estava apenas de pijama.

— Eu posso a levar. – Disse descontraído. – Também tenho de passar na empresa.

— Falas, como se fosses um dos donos da empresa. – Ri com ironia.

— Não sou, mas isso não me impede de ter de trabalhar lá. – Respondeu sentando-se também para comer.

— Quando regressas a casa? – Perguntei curiosa, enquanto a Lia via distraída o seu desenho animado preferido, na televisão da cozinha.

— No final da tarde. – Respondeu pensativo, eu não sei se devia ficar feliz ou triste, por ele finalmente ir embora. – Já liguei com o meu antigo chefe, vou ter uma reunião com ele dentro de algumas horas e depois vou terminar alguns trabalhos pendentes. Quando terminar posso ir buscar a Lídia na escola, só preciso que me dês a morada e deixes a autorização.

— E porque irias buscar a Lídia, antes de ires embora? – Questionei, já imaginando um possível rapto. – Não pensas levar as malas, já contigo?

— Malas? – Olhou-me confuso. – Porque eu precisaria das minhas malas, para ir trabalhar?

— Para trabalhar não, mas para regressares a casa. – Ele observou-me incrédulo.

— Eu estou em casa Leandra, pensei que tinha deixado claro, que a minha estadia aqui se ia prolongar por um bom tempo.

— Por quanto tempo? – Perguntei já irritada, tentando não rosnar para ele.

— Não sei querida, tudo vai depender de nós. – Sorriu, deixando-me ainda mais irritada.

— E a tua… – Engoli em seco. – Mulherzinha?

Ele mexeu-se desconfortavelmente no banco, deixando o seu garfo de lado, para beber um pouco de sumo de laranja, que ele mesmo tinha feito.

— Ela compreende a situação. – Percebi que ele não queria tocar nesse assunto e não insisti, na verdade eu também não queria tocar naquele assunto.

— Vamos Lia, está na hora de te trocares. – Levantei-me arrumando o meu prato e o da Lia na pia da cozinha. – Não queremos chegar atrasadas, pois não?

— Não… – Sorriu descendo do banco, com a ajuda do pai, para depois correr em direção ao quarto.

— Precisas vestir-te desse jeito, para levarem a Lia a escola? – Olhei para ele confusa, ele estava irritado pela forma que eu me visto?

— E se for? – Perguntei curiosa e também feliz por o irritar.

— Tu não eras assim, quando te tornaste tão… tão…

— Tão o quê? – Levantei uma sobranceira.

— Tão fútil, superficial… ou isso tudo é para engatares alguém?

— Eu só podia estar cega, quando me casei contigo. – Irritei-me. – Pensei que me conhecias, bem melhor que isso.

Sem dizer mais nenhuma palavra saí da cozinha, se eu ficasse lá mais um minuto que seja, não responderia por mim. Assim que deixasse a Lídia na sua escolinha, eu ligaria sem perder tempo para o Filipe, com sorte ele teria uns minutinhos para mim, para me ouvir e me aconselhar. Mas antes de tudo, havia mais uma coisa que eu tinha de dizer, por isso dei meia volta encontrando-o no mesmo lugar.

— Ia-me esquecendo. – Disse assustando-o. – Não te esqueças de arrumar toda esta bagunça, quando voltar, quero encontrar a minha cozinha imaculada.

Sem dizer mais nada, virei-me sorridente com a sua expressão, caminhando confiante até o quarto da minha menina. A manhã acabou por passar mais rápido do que eu esperava, a reunião com o meu editor até que foi agradável e também consegui a tão esperada reunião com o Filipe. Ele era um velho e bom amigo meu, conhecemos-nos na universidade e chegamos até a sair algumas vezes, mas nada aconteceu. Devo admitir que ele é um homem lindo, charmoso e inteligente, mas era apenas isso. Não existia chama ou química entre nós, pelo menos não da minha parte e por isso um relacionamento com ele, nunca foi uma opção. Depois o Carlos também regressou e acabou com qualquer oportunidade que o Filipe pudesse ter, para me conquistar. Apesar de tudo, nós ainda ficamos amigos e em poucos anos ele se tornou um dos meus advogados. Atualmente, ele é um dos advogados mais influentes e conhecidos do país, os poucos anos que ele precisou para conquistar, o que muitos ambicionam. Não só demonstra o seu profissionalismo e competência, como um enorme talento para advocacia. Infelizmente, esta é uma profissão que consome muito tempo da sua vida, principalmente da sua vida pessoal e por isso, que ele não estava a par das últimas novidades. Ele teria uma grande surpresa ao descobrir, que eu estava à beira de um divórcio, apesar de me ter avisado várias vezes sobre essa possibilidade. Ainda mais, com uma criança no meio de toda esta situação. Eu sei que neste momento, não existe ninguém melhor para me aconselhar e não confiaria os meus problemas a mais nenhum advogado.

Entrei no restaurante, avistando ao longe o homem alto e musculado, vestido um fato azul marinho, gravata da mesma cor e uma camisa azul bebé. Não era difícil deixar despercebido o olhar das mulheres ao seu redor e quem as podia censurar? Quem podia resistir a um homem loiro de olhos azuis e pele morena, ao estilo surfista. Bem que ele podia passar por um, não fosse pelo seu ar sério e o seu fato caro de alguma marca conhecida.

— Olá. – Cumprimentei-o, recebendo alguns olhares ciumentos na minha direção.

— Olá linda, como tens passado? – Lá está ele, sempre com o seu ar galanteador.

— Ótima. – Esbocei um sorriso. – E tu, como tens passado?

— Também tenho passado bem, mas estou melhor agora. – Sorriu de forma sedutora, tanto que podia jurar que ouvi alguns suspiros à minha volta.

— E a vida, como tem corrido? – Perguntei curiosa e também um pouco ansiosa por adiar o assunto, que me levou até ele.

— Não me posso queixar, espero receber uma promoção em breve.

— Que bom, parabéns. – Sorri feliz.

— Olha que dar os parabéns antes do tempo, trás azar. – Sorriu brincalhão.

— Pois é, desculpa. – Disse envergonhada.

— Acredito que não foi para saber da minha vida, que querias marcar uma reunião comigo. Qual é o problema? – Perspicaz como sempre, não era à toa que ele era o melhor no que fazia.

— Pois… – Observei as minhas mãos por breves momentos, tentando ganhar coragem para falar, o que precisava.

— E então? – Suspirei.

— Preciso que entres com os papeis do divórcio para mim. – Disse tudo de uma vez, sem deixar tempo para respirar.

— Tu queres o quê? – Perguntou surpreso. – O que aconteceu com aquele amor todo, ao felizes para sempre?

A sua atitude deixou-me ainda mais envergonhada, eu parecia uma tola, que acreditava no amor ao estilo de um conto de fadas. Claro que eu só podia ser uma romancista de sucesso, ao acreditar em tanta lamechice e fantasias de uma mulher tola e apaixonada.

— Pois é, não foi bem o fim que eu esperava. – Continuei a observar as minhas mãos unidas, brincando com os dedos nervosamente. – O Carlos foi transferido de filial a uns anos e acabou por ficar por lá, não nos vimos por anos, até que ele voltou recentemente.

— E então? – Perguntou com uma sobrancelha levantada.

— E então que ele voltou para pedir o divórcio, ele conheceu uma mulher durante esse tempo e tem a intenção de se casar com ela. – Suspirei cansada, era humilhação de mais, contar sobre este momento da minha vida.

— Canalha. – Sussurrou, antes de recuperar a sua postura profissional. – E qual é o problema? Ele já não tratou de todos os documentos? Precisas que dê uma vista de olhos, confirmando que tudo está de acordo, com o contrato?

— O problema é que ele rasgou os papéis do divórcio, quando descobriu que eu escondia um segredo dele.

— Rasgou?

Ele estava tão surpreso, acredito que isto não seja algo comum de se ouvir, mesmo no ramo dele. Quem no seu prefeito juízo, rasga os papeis do divórcio, quando é ele mesmo que o propôs? O Carlos com certeza.

— Que segredo foi esse, que o fez desistir dos seus planos?

— Que eu engravidei, numa das suas visitas. – Suspirei fundo, tentando manter a minha mente clara e focada no meu objetivo. – Como ele nunca voltou, eu nunca lhe contei sobre a gravidez e agora ele descobriu que tem uma filha. Que por acaso é a sua cara chapada, eu a carreguei por tanto tempo, para ela sair igual ao pai.

— Agora és mãe e não me contaste? – Ele estava verdadeiramente ofendido. – Eu podia ter-te ajudado, não precisavas que as coisas chegassem a este ponto.

— Pois, mas eu tinha esperanças que ele voltar-se, mas isso nunca aconteceu e agora… – Suspirei mais uma vez. Numa tentativa de me confortar, ele cobriu as minhas mãos com a sua, dando-me coragem para continuar. – Eu tenho medo que ele leva a Lídia para longe de mim, que consiga a guarda da minha filha.

— Isso nunca vai acontecer. – Afirmou seguro. – Ele assinou o contrato, ele perdeu esse direito.

— Como assim? – Perguntei confusa.

— Lembras-te do contrato pré-nupcial que eu te convenci a assinar? – Fiz que sim com a cabeça. – Pois ele tinha algumas clausulas especiais, que eu egoistamente decidi colocar, apenas para te proteger.

Proteger? Como assim, ele fez-nos assinar um contrato nupcial apenas para me proteger e eu nem me lembrava, do seu conteúdo. O que raio ele colocou lá, que o faz ter tanta segurança nas suas palavras? E mais do que isso, como ele se recorda de um contrato que ele fez, nos primeiros anos da sua carreira?

 

 

Continua…

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