O certo no incerto – Capítulo 8



Fiquei durante alguns minutos a observar o Filipe, enquanto ela fazia o nosso pedido. Ele transmitia uma aura de segurança tão grande, que me deixava intrigada, ao mesmo tempo que me perguntava o motivo por nunca me ter interessado por ele. A Lídia certamente ia gostar de o conhecer e ele é o tipo de homem, que qualquer mulher acredita, que será um pai maravilhoso.

— O que estás a pensar? – Perguntou assim que o empregado se afastou.

— De onde tiras a tua confiança. – Respondi ainda o observando. – Estás sempre tão seguro e confiante, isso não pode ser só autoestima, tem de haver algo mais.

— Achas? – Sorriu de lado. – Com uma mulher bonita ao nosso lado é impossível não termos confiança e autoestima, caso contrário somos devorados pela concorrência.

— Estás a falar de mulheres ou de advocacia?

— Cuidar de mulheres e tratar de processos, não é muito diferente. Ambos requerem atenção, cuidados, astucia e muito amor e dedicação. – Aproximou-se mais de mim, olhando-me com um certo carinho. – É por isso que muitos homens se envolvem demasiado, com o trabalho e se esquecem de tudo o resto.

— Não é bem assim. – Respondi, tentando imaginar o Carlos, como um amante pelo trabalho.

— Nem todos os casos, são iguais claro. – Sorriu, olhando-me profundamente nos olhos. – Eu adoro o meu trabalho, o meu amor e dedicação, são a prova do meu sucesso. Apesar que não me importava de trocar tudo, por uma certa mulher.

— Onde anda essa mulher? – Perguntei curiosa.

— Tem andando bem distraída. – Afastou-se de mim. – Foi iludida por um falso conto de fadas, mas talvez agora eu possa ser o seu príncipe. Quem sabe eu a acordo, do seu eterno sono, com um simples e terno beijo.

— Au… Para além de um excelente advogado, também és um romântico, que mulher de sorte. – Sorri, recebendo em troca um olhar curioso, acompanhado por um sorriso de lado. – Ela só pode estar mesmo cega, para não ver o homem encantador que és, espero que a conquistes em breve. Estou a torcer pela tua felicidade, tu mereces, és um amigo fantástico, um profissional fenomenal e um homem de carácter. Ela vai perceber e tu finalmente vais a conquistar.

Eu não sei porquê, mas o seu sorriso morreu na hora e ele voltou a encostar-se na sua cadeira, enquanto observava o seu redor.

— Não sei se ela perceberá sozinha, tudo isso. – Respondeu sério, ainda distraído com alguma coisa. – Claro que a parte do profissional e do amigo, ela entende bem, mas não me vê posso um potencial amoroso.

— Tens de ter paciência, talvez ela ainda não estivesse preparada para te amar, quando te conheceu. Talvez não fosse o momento certo para ela, mas um dia será.

— Tens muita fé nisso. – Respondeu, voltando a olhar-me nos olhos.

— Nem tudo são contos de fada, a minha história é a prova disso, mas eu vou superar. Por mim e pela minha filha, pela nossa felicidade, tudo vai melhorar. Só tenho de ultrapassar, mais um grande obstáculo. – Engoli em seco, com medo do que estaria para vir.

— Quando posso entrar com os papeis do divórcio? – Perguntou surpreendendo-me.

— Ah… eu… eu… – Fechei os olhos por momentos, focando-me em encontrar a minha voz. – O mais rápido possível, mas eu tenho medo da reação da Lídia, ela ficou muito feliz quando conheceu o pai. Ao mesmo tempo, tenho muito medo. Eu não quero que ele faça a cabeça da minha menina e mais que isso, não quero que ele me roube o mais bem mais precioso. Eu sei, que de certa forma fui injusta com ele, percebo isso quando os vejo juntos. Eles realmente parecem pai e filha… eu aceito que eles queiram recuperar o tempo perdido, mas tenho muito medos dos estragos. A Lia tem apenas 3 anos, ela ainda é muito nova e não entende, mas ela é muito inteligente e sonhadora. Eu tenho medo de interferir nos seus sonhos, de destruir as suas esperanças, entendi isso no momento que vi o seu desespero. Eu não sabia o quanto ela sofria, por não ter um pai. Em momento algum, ela perguntou por ele, ou mesmo demostrou que sentia a sua falta. Eu estava confiante, mas naquele momento… eu não sabia o que fazer, senti como se tivesse falhado como mãe. Não existe maior dor que essa, uma mãe perceber que falhou, na educação dos seus filhos. Perceber que eles sofriam em silêncio, enquanto eu lutava por algo vazio e sem sentido.

— Lea tu és uma mãe de primeira viagem, crias-te a tua filha, como se fosses uma mãe solteira e tenho a certeza que ela é uma menina maravilhosa. – Sorriu, tocando com carinho na minha mão. – Eu adorava a conhecer e sei que se o fizer, só vou provar o quanto tu és uma mãe excecional, tal como a sua educação dela é. Tu erras-te numa escolha, mas o Carlos errou mais ainda, não te precisas martirizar pelas suas escolhas. A nossa cruz, já é demasiado pesada para carregar, não precisas de levar a dele também.

— Obrigada.

Sorri com sinceridade, usando a minha mão livre para limpar a lágrima, que ameaçava cair. Nesse momento o silêncio instalou-se, como uma barreira entre nós, quando o empregado chegou com os nossos pedidos. Foi estranho e também um pouco desconfortável, apreciar a refeição depois de uma conversa tão pesada e sofrida. Ao mesmo tempo, que eu estava feliz por ter desabafado com ele, era bom ouvir a opinião de alguém de fora. De um amigo, que eu posso confiar e ainda mais, que me pode proteger.

— Não precisas de te preocupar sobre a guarda da Lídia, nem sobre os teus bens, ou a tua fortuna. – Disse do nada. – Ele não tem direito a nada, por isso, nada vai mudar na tua vida.

— Como assim? – A minha cabeça girava, apenas com aquela simples frase, o que ele queria dizer?

— O contrato que eu fiz, foi a minha primeira obra prima, claro que tive de estudar muito e de pedir opinião do meu orientador. Eu suei muito para ele ficar prefeito e ele realmente ficou. – Falou confiante, enquanto bebia um gole do seu vinho. – De tal maneira, que para além de agora ele ser muito útil, ainda foi o impulso que eu precisei, para iniciar a minha carreira.

— Eu não sabia… – Pousei os meus talheres, eu não conseguia engolir nem mais uma migalha, a curiosidade estava me sufocando. – O que tanto têm esse contrato?

— A chave para a tua liberdade.

Ele era astuto, muito mais do que eu alguma vez imaginei. Eu não podia acreditar que ele tinha sido capaz de fazer tal coisa, usar a lei, cada lacuna, cada frincha para me proteger. Nada, nem ninguém seria capaz de tirar a minha filha de mim, ninguém podia se quer ir contra as minhas decisões e roubar o meu presente. Eu tinha todo o poder, este tempo todo e não sabia, será que ele sabe? Terá sido este o motivo, pelo qual ele rasgou os papéis?

As dúvidas eram tantas que eu nem vi, quando cheguei na escola da minha pequena, mas estava feliz para a poder abraçar. Agora eu já não tinha mais medo de nada, podia fazer o que era certo, o que era o melhor para a minha filha. E foi dessa forma que eu pude me dar ao luxo, de aproveitar o resto da tarde na sua companhia.

— Mamã… – Chamou-me parando de repente.

— Que foi Lia? Já não queres comer o gelado?

— Mamã. – Chamou mais uma vez, olhando para mim curiosa. – Porque aquela menina está dormindo na rua?

Segui com o olhar o seu pequeno braço, sem saber o que ia encontrar. Raiva, pena, compaixão, foi tudo o que pude sentir, quando vi uma menina pouco mais velha do que a Lia. Numa rua adjacente a que estávamos, estava uma mulher sentada no chão forrado a cartão. No seu colo estava a pequena adormecida, quase como se tivesse desmaiado nos braços da mulher. Tal era a fragilidade que ela transmitia, pelo seu corpo pequeno e extremamente magro envolto de roupas sujas e largas. A mulher que velava pelo seu sono, não tinha melhor aspeto. Ela parecia desnutrida, cansada, humilhada… um farrapo do que um dia foi uma mulher.

— Lia. – Chamei a sua atenção, agachando-me ao seu lado. – Eu quero que recordes a vida toda, desta imagem, daquela mãe que protege o sono da sua filha, mesmo cansada e sem forças. Quero também que recordes de cada expressão que as pessoas fazem, quando passam por elas e não fazem nada para mudar o que veem.

— Ok mamã, mas o que fazem elas ali? – Ela estava mesmo curiosa, ao menos não era indiferente ao que via.

— Isso já vamos descobrir e mais do que isso, não as vamos deixar ali. – Observei as duas mais uma vez, enquanto um homem passava e atirava um pedaço de papel, na cabeça da mulher. – Eu quero que graves no teu coração, cada pedaço desde dia, mas mais que isso. Eu quero que olhes bem o rosto daquela senhora e da menina, quando nos despedimos delas. Pois essa vai ser a melhor recompensa, que algum dia terás na tua vida.

Sem dizer mais nada levantei-me e seguimos em direção da mulher, que pareceu encolher-se ao ver um grupo de jovens se aproximar. Ela parecia ainda mais deplorável vista de perto, as suas roupas estavam bastante gastas e sujas. Os seus cabelos estavam pastosos, denunciando que já não eram lavados a algum tempo. O seu rosto estava meio pálido e as suas olheiras eram bem profundas e escuras. A menina no seu colo dormia serenamente, mas mesmo ela estava suja, apesar de parecer um pouco mais limpa e cuidada.

— Olá. – Cumprimentei-a assim que cheguei ao seu lado.

— Olá… – Respondeu nervosa.

— Eu sou a Leandra, mas podes chamar-me de Lea e esta aqui é a minha filha Lídia. – Apresentei-me sem me aproximar muito, queria que ela se sentisse minimamente segura.

— Olá. – Cumprimentou a Lídia. – Como te chamas?

— Marta e esta é a minha filha Isabel. – Respondeu vacilante, enquanto acariciava a cabeça da filha ainda adormecida.

— Porque estão na rua? – Quem pode controla a curiosidade de uma criança. – A mamã, não me deixa dormir na rua.

— E ela tem razão, não deves mesmo. – Respondeu triste.

— Então…

— Espera um pouco querida, a mamã também tem de fazer umas perguntas. – Interrompia, agachando-me ao seu lado. – Vocês são sem abrigo, certo?

— Sim… – Abanou a cabeça afirmativamente, enquanto um fio de voz saia da sua boca.

— Ok. Vamos comer alguma coisa? – Perguntei as duas.

— Ah… foi um prazer, adeus – Respondeu triste.

— Adeus? Porquê? – Perguntei confusa. – Eu perguntei, se NÓS as quatro, íamos comer alguma coisa. Não era apenas eu e a Lídia.

— Não é preciso, obrigada eu… não tenho fome, obrigada está tudo bem, nós… – Tentada dizer, quando um som alto saiu da sua barriga.

— Eu estou a convidar. – Disse com carrinho. – De mãe para mãe, eu quero que aceite o meu convite, além disse é má educação não aceitar.

— É sim… vamos eu quero comer gelado. – Respondeu a Lídia animada. – A Isabel gosta de gelado?

— Não sei. – Respondeu triste. – Ela nunca provou.

— Nunca? – Ela estava tão admirada, que parecia que a Marta tinha dito a maior barbaridade do mundo. – Então tem de comer, não é mamã? Ela tem de provar, eu posso dar um bocadinho do meu para ela, não posso mamã?

— Não precisas querida. – Acariciei a cabeça dela, orgulhosa. – A mamã compra um gelado para a Isabel também e outro para a Marta. Agora vamos, eu estou a morrer de fome e ainda quero parar num sítio a caminho da geladaria.

— Eu não vos quero atrasar, podem ir, nós ficamos bem.

Se ela pensava que eu ia desistir, estava muito enganada, já tinha todo o plano traçado para a tirar da rua. Ia devolver toda a dignidade, que um dia ela teve, porque todo o ser humano merece uma vida digna. E todas as crianças merecem um lar seguro, quente e acolhedor para morar.

— Eu não saio daqui, enquanto a Marta não se levantar e me acompanhar. Não quero ouviu uma reclamação, uma queixa ou um não como resposta. – Disse firme e autoritária. – Por isso é bom que se levante rápido, antes que eu tenha de chamar alguém, para a arrastar daí.

Ela pareceu assustada com a minha resposta, mas logo se recuperou quando a Lia, se aproximou para acordar a nova amiga. Uma mãe é sempre suspeita a falar, mas eu não podia ter uma filha mais carinhosa, humilde, atenciosa que esta.

— Acorda Isabel, vamos comer gelado. – Chamou abanando o seu braço frágil.

— Gelado? – Perguntou ensonada, com a sua voz suave e baixa.

— Sim, gelado. – Pulou animada. – Tem de morango, de chocolate, baunilha, com pepitas de chocolate, com bolacha…

— Já chega Lia, só vais deixar a Isabel confusa com tantos sabores. – Sorri divertida, com a sua empolgação.

— Mãe, o que é gelado? – Perguntou a Isabel confusa.

— É um doce frio, cremoso e muito saboroso. – Respondeu a Lia, com a sua mestria de culinária.

— Eu posso provar?

— Claro que sim. – Foi a minha vez de responder. – Fui eu que convidei, por isso vamos logo, antes que o dia acabe.

Sem dizer mais nada, ajudei as duas a levantar e seguimos o nosso caminho. Era inevitável ver o olhar curioso de quem passava, era normal, pois não podíamos estar mais diferentes. Eu não me importável com aqueles olhares, mas eu sei que a minha companhia, era muito sensível aquelas expressões. E era precisamente para a deixar mais confortável, que eu decidi qual seria a nossa primeira paragem.

— Boa tarde. – Respondeu a lojista, apresentando o seu melhor sorriso comercial, que logo se fechou, ao ver as minhas duas novas amigas. – Peço desculpa, mas vou ter que pedir que se retirem da loja, não podemos permitir que incomodem os outros clientes.

— Eu espero lá fora, vamos Isabel. – Apresou-se a sair, mas eu barrei a sua saída.

— Isso não é jeito de tratar uma cliente. – Repreendi-a, recebendo um olhar confuso, das duas mulheres. – Eu quero que acompanhe as duas, até aos fundos da loja e as deixe usar o balneário. Enquanto elas tomam banho, quero que prepare um conjunto bem casual e confortável para as duas. E não se esqueça da roupa interior e do calçado. Ah, já me esquecia, a sua simpatia para com elas, também tem de estar presente. Pois hoje é você que esta nesse lugar, mas amanhã pode estar no lugar dela, pense nisso.

— Eu não posso permitir…

— Se não vai permitir, o que eu acabei de pedir, então faça-me um favor e ligue para a sua patroa. Ela vai lhe dar permissão em dois tempos, se não der… – Fiz uma pausa dramática. Eu adoro ser dramática e principalmente, adoro ter amigos influentes e uma carteira recheada. Isso sempre era útil, em situações como estas. – Ou talvez o meu advogado, possa dar uma palavrinha com ela e recomendar o despedimento de um certo alguém.

— Leandra, por favor, não faças isso. – Suplicou-me a Marta.

— Não me podes ameaçar, eu sei que é tudo da boca para fora. – Respondeu com desdém.

— Será? – Perguntei confiante, vendo-a vacilar por alguém segundos. – Queres mesmo ariscar? Pagas para ver?

Naquele momento sentia-me como uma jogadora de póquer, mas estava a adorar a sensação de poder. Ter almoçado com o Filipe, trouxe-me a calma e a confiança, que precisava encontrar em mim. Foi graças a ele, agora eu podia ajudar a Marta e a Isabel, tudo porque queria aproveitar o dia com a minha filha. Sem receber qualquer resposta da mulher, peguei no meu telemóvel e calmamente procurei o número do Filipe. Afinal parece que eu ia precisar mais da sua ajuda, do que eu estava à espera.

— O caminho é por aqui. – Deu-se por vencida, enquanto me olhava com ódio.

— Lia ajuda a senhora a escolher umas roupas bem bonitas, para a Isabel vestir depois, a mamã fica aqui a porta a espera.

— Ok mamã. – Respondeu saltitando atrás, da empregada mal-encarada.

Sem perder tempo, tratei de tudo o que precisava para finalizar o meu plano. Pela reação da Marta, eu sabia que ela não ia aceitar facilmente a minha ajuda, mas ela era mãe. E como mãe, eu sei que ela colocara as necessidades da filha, acima do seu orgulho e é com isso que eu estou a contar.

 

Continua…

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