“O certo no incerto” – Capítulo I

“O som das teclas ecoava pelo ar, como um coração a bater pela primeira vez. Um novo romance começava, passo a passo. Quantos seriam já? Sete, oito… Já não sabia bem… Já não fazia sentido contar, quando vivê-los era mais divertido. Página por página, linha por linha, cada palavra até ao fim. No entanto, criá-los era ainda mais divertido. Imaginar um novo personagem, um sentimento, um olhar, um carinho deixado no ar. Um mundo onde o amor é a força mais forte do mundo e nada o pode derrotar. Uma ligação que prevalece para lá do tempo, para lá da vida, para lá do ser… Um sentimento de perda e conquista, onde o bem se liga ao mal, num equilíbrio prefeito. Isso é o que eu desejo, o mundo que quero criar e transparecer para o exterior, essa sou eu.”

O início estava finalmente terminado, o que era um verdadeiro alívio, já que esta era a maior dificuldade de todas. Escrever as primeiras letras, as primeiras frases, as primeiras impressões, as primeiras tudo… muito mais do que criar uma história, um personagem, toda uma vida e a trama. No entanto, este livro continuaria a ser o mais difícil de se escrever. Tudo porque ele não é o fruto da minha imaginação, e, sim, da minha realidade. A verdade de toda uma vida, como escritora, como criança, mulher, empresária, esposa e mãe… solteira. Sim, apesar do meu estado civil ainda ser de casada, eu criei a minha menina, como se fosse uma mãe solteira. Já que o meu marido foi transferido para outra filial, a vários quilómetros de casa.

Claro que eu queria tê-lo seguido, fazer o mesmo caminho e morar com ele naquela nova terra, mas o Carlos recusou. Para ele, tudo era uma questão temporária e em breve estaria de volta ao conforto da nossa casa. Mesmo assim, as semanas viraram meses, os meses viraram anos e com o tempo, ele deixou-se de se importar. Voltava cada vez menos, as ligações e as mensagens foram desaparecendo. E a nossa relação esfriou, como se nunca tivesse existido, e a paixão nunca tivesse ardido, dentro de nós. No fim, éramos apenas duas pessoas que cresceram juntas. A rapariga que ele atormentava por pura diversão e que por acaso era a melhor amiga da sua irmã. Tudo seria bem simples e menos doloroso, se não fosse aquele dia. O dia em que eu descobri o verdadeiro amor da minha vida. Até parece que foi ontem que tive a conversa que ditou o meu destino.

— Parabéns, a senhora está grávida – disse o médico, com cara de tédio, como se aquela expressão fosse uma frase de praxe.

— Eu grávida? – Olhei para o médico, como se ele tivesse sete cabeças. – Eu não posso… Eu não… não é anemia, doutor? É anemia… Eu sempre tive casos de anemia, quando tenho muito trabalho e os prazos são apertados. Para além de que sempre me esqueço de comer, até de dormir, não é, Sofia? – perguntei, confiante, contrariando a afirmação do médico, que me observava com uma sobrancelha levantada. Certamente se questionando sobre o meu grau de sanidade mental. Mas quem o podia julgar, se eu mesma estava a questionar a minha sanidade?

— Não existe confusão alguma – respondeu, sério, num tom muito mais rabugento que o anterior. – O exame foi claro e os sintomas coincidem. Se ainda tem dúvidas, sugiro que consulte o seu ginecologista.

Dito isso, retirou-se do meu quarto deixando-nos sozinhas, a olhar embasbacadas para a porta fechada. Naquela altura, senti-me como uma criança pequena a quem lhe tinha sido negado um doce. Contrariada por uma verdade, que me parecia estar tão longe, não fosse ela bater mesmo no meu ventre. Tudo porque tinha sido hospedada naquele quarto logo após o meu internamento hospitalar. Só porque a minha melhor amiga me tinha encontrado desmaiada, no chão do meu escritório. Isso até podia não ser o motivo para um internamento, não fosse esta a terceira vez consecutiva. Para piorar a minha situação, a Sofia já não tinha mais paciência para ouvir as minhas desculpas. Sobre o excesso de trabalho e os prazos demasiado curtos, que enfrentava a cada dia. Assim, sem mesmo esperar uma resposta, arrastou-me sem dó nem piedade para a primeira urgência que encontrou. Uma vez lá, obrigou o médico a internar-me para observação, pelo menos por 24 horas.

— Não, eu não estou grávida, é um engano, eu não… não posso… foi fraqueza, eu… – Senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto, enquanto a minha garganta se fechava. – Foi um engano…

— Tem calma, Lea, tudo se vai resolver.

A sua voz saiu serena, como a calmaria após a tempestade. Ter a minha amiga por perto não tinha preço, mas não era o mesmo que partilhar aquele momento com o Carlos.

— Mas eu não… é um engano, só pode ser um engano, Sofia. Por favor… amiga, diz… diz que é um engano, que eu tenho anemia, não um bebé.

Senti os seus braços envolverem o meu corpo num abraço caloroso e reconfortante, permitindo, aos poucos, acalmarem-me e o meu corpo relaxar, enquanto os soluços diminuíam. Mal a minha amiga e cunhada se apercebeu que o choque inicial tinha passado e que finalmente estava pronta para conversar, afastou o seu corpo do meu e observou o meu rosto com uma certa curiosidade, atenta a cada sinal meu.

— Tu e o meu irmão, não… – perguntou, meio sem graça. – Na última visita que ele fez, não?

Foi engraçado vê-la a fazer aquela pergunta, diria até cómico, não fosse a situação. Principalmente porque sabia que ela não gostava de conversar sobre a vida sexual do irmão, e desde que eu a partilho, ela nem toca no tema comigo.

— Sim, nós… – Tentei não sorrir, com a sua expressão de nojo. – Seria estanho, se não matássemos as saudades. Sexo não é tudo, mas faz parte de um relacionamento, ainda mais de um casamento. Da intimidade de um casal…

— E então? – Oh céus, agora que eu a deixei verdadeiramente curiosa. – Porque não é possível?

— Porque já se passaram meses, desde que ele voltou e… e…

— Tu traíste o meu irmão por acaso? – Agora ela estava séria, muito séria, quase assustadora.

— Claro que não – defendi-me, magoada com a sua afirmação. – Como se eu fosse capaz, sabes bem que eu não sou assim. Eu nunca traí o Carlos e nunca seria capaz disso.

— Sim, eu sei, mas também sei que não estamos a viver nenhuma ficção. – Tocou na minha mão, acariciando-a com carinho. – Querida, isto não é um livro, muito menos uma história inventada na tua cabeça. Esta é a tua vida, a vida do meu irmão e de um pequeno ser, que está a caminho. Meu bem, tu tens trabalhado tanto, tens feito tantos esforços…

Com a ternura de uma mãe, levantou a sua mão delicada, para limpar o meu rosto molhado. Não sei o que faria, se ela não estivesse ali. Podia não ter o Carlos comigo, mas tinha uma das pessoas mais importantes da minha vida.

— Querida, é normal que não tenhas notado, que tenhas ignorado os sinais. Que simplesmente te esqueceste que és mulher, uma mulher amada e sexualmente ativa.

Suspirei, dando-me por vencida, ela tinha razão. Ultimamente eu andava tão focada em isolar-me do mundo, enquanto me afogava em trabalho. Tudo apenas para apagar a falta que ele me fazia. O sentimento de ter uma casa fria e sem vida, mas mais do que isso, o sentimento de solidão. O mesmo sentimento que tem crescido dentro de mim com a sua distância. Eu o amo, mas não quero que ele se sinta obrigado a estar ao meu lado. Não quero que ele deixe os seus sonhos e as suas ambições por mim. Quero que ele volte, por vontade própria e que seja o pai divertido, brincalhão e protetor, que habita dentro dele. Porque ele me ama e ama esta criança, que está para vir.

— Sim, tens razão – suspirei. – Sofia, preciso que me prometas uma coisa.

— Sim, o que precisas? – Mais uma vez, via a sua face de menina curiosa e irrequieta.

— Não contes nada ao Carlos, por favor – supliquei. – Quero ser eu a dar a notícia, quando ele voltar.

— E se ele demorar a voltar? – perguntou, um pouco confusa.

Eu sei que a tomei de surpresa e não será a única. Ainda por cima, porque ela não é boa a guardar segredos. Principalmente quando os mesmos a deixam feliz e radiante, quase eufórica.

— Ou mesmo se a besta do meu irmão nunca voltar?

— Então ele nunca saberá.

— Tens a certeza?

Ela estava preocupada, sabia bem as consequências do meu pedido e a dificuldade de o manter. Eu também sabia dos problemas em que me estava a envolver, e mesmo assim queria seguir em frente. A escolha tinha de partir por parte dele, não o queria pressionado por uma escolha e muito menos pela família.

— Sim, tenho, e vou precisar da tua ajuda, para convencer os teus pais.

Suspirei, cansada; eram demasiadas emoções para um dia só. E agora com um bebé a caminho, tudo seria pior, pois a mais pequena emoção será vivida de forma mais intensa. No entanto, a decisão estava tomada e não ia voltar a trás. Não desta vez, não com tudo que está em jogo.

— Os meus pais não serão problema nenhum, já que eles mal podem ouvir falar do Carlos. Eles nunca aprovaram que ele fosse embora, assim sozinho, muito menos criando uma barreira entre nós. Segundo eles, o que o Carlos realmente pretende é viver uma vida livre de solteiro. Para me poder trair com qualquer mulher que lhe aparecer. Eles já aceitaram a nossa relação com alguma dificuldade e agora… é tudo pior, muito pior.

— OK, eu ajudo-te só porque também não concordo com a atitude do meu irmão. E ele realmente precisa de perceber o quanto a sua ambição destrói o que ele tem de bom.

Foi a vez de ela suspirar, enquanto se sentava com dificuldade, na cadeira ao lado da minha cama. Afinal, ela também estava grávida e quase no fim do tempo.

— Só não garanto que o resto de família aceite bem a tua decisão.

“O certo no incerto” – Capítulo I

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