“O certo no incerto” – Capítulo II

Já faz quase uma hora desde que eu estacionei o carro em frente da minha antiga casa. Casa esta que partilhei com a minha esposa, até ser transferido para longe. Eu não pude evitar, era a minha grande oportunidade e a primeira vez que eu ia sair da sua sombra. Eu amava-a, muito mais do que alguma vez supus ser possível, mas como homem… eu sentia-me rebaixado ao seu lado, um inútil sobre a sombra do seu poder. O meu cargo não era nada ao lado do seu poderoso pseudónimo Clara Moreira. A fantástica e poderosa romancista, escritora de vários best-sellers mundiais. Ela podia ser a simples e doce mulher com quem me casei, mas era a sombra que a perseguia, que me causava tremores. O poder daquele nome, juntamente com os milhões que acumulava, a cada sucesso que conquistava. Enquanto eu, apenas lhe podia dar uma vida confortável e o meu amor.

Quando a pedi em casamento, pensava que a teria só para mim, que seríamos uma família feliz. Já via os nossos filhos a correr pela casa, a minha mulher a relaxar ao lado da lareira com um livro e uma barriguinha linda de nove meses.  Infelizmente não foi assim, pouco a pouco eu senti-me sufocado e a incerteza bateu forte, tão forte que fiquei inseguro. Quando recebi a proposta, nem pensei duas vezes, ela era tão libertadora, tão tentadora, como uma lufada de ar fresco. A Lea, coitada, aceitou, feliz, a minha oportunidade e estava até disposta a se mudar por mim. No entanto, todos os seus planos só me faziam sentir mais sufocado, inútil e inferior ao seu poder.

A liberdade que conquistei era boa, mesmo assim eu sentia a sua falta, mas… o peso que tinha saído dos meus ombros era bem maior e a melhor coisa que eu tinha. De modo que este era o meu novo recomeço, um novo reencontro comigo mesmo. Pouco a pouco, eu fui-me sentindo com um homem solteiro e também comecei a agir como tal. Quando vi, o tempo já havia passado, a distância era cada vez maior e eu tinha vergonha de voltar. Então recomecei a minha vida do zero e esqueci que era casado, com a confiança de que a Leandra faria o mesmo.

Agora estou aqui, em frente à nossa… ou melhor, à sua mansão. Uma casa de sonho para qualquer mulher, para qualquer pessoa aliás. Tenho certeza de que não preciso de procurar muito para encontrar gente capaz de matar para ter algo assim. Três quartos, uma suite com casa de banho privativa, que mais parecia um spa e um closet, maior do que muitos quartos. Um escritório com tecnologia de ponta e a melhor coleção de livros que podem imaginar. Não sei como, mas diria que 90% deles estão autografados. A cozinha era grande, totalmente equipada com eletrodomésticos de nível profissional. Com direito a uma ilha com lavatório e espaço para acomodar seis pessoas lado a lado. Já na sala de jantar, para além de mesas de apoio e um bar bem recheado, existia uma enorme mesa para 20 pessoas. A sala de estar era confortável e moderna, com lareira, um televisor de 75 polegadas e um enorme e confortável sofá com colunas integradas. A garagem tinha espaço suficiente para acomodar quatro carros,  sem esquecer a sala de cinema, último modelo de tecnologia. E claro o grande jardim, com a piscina, jacuzzi e espaço suficiente para um pequeno corte de ténis e, quem sabe, um parque infantil.

Tudo aquilo era fruto do seu sucesso, do seu gosto e do seu dinheiro. Naquela casa, por mais que eu saiba que determinadas escolhas foram feitas para mim e não para ela, continuava a achar que nada era meu.

— Estou? – atendi ao segundo toque.

— Olá, amor – respondeu com uma voz doce. – Já estou cheia de saudades; quando voltas?

— Também estou com saudades, linda, mas ainda demoro.

— Oh. Volta logo, estou ansiosa por começar os preparativos para o nosso casamento. Volta, bombom, a cama fica tão vazia sem ti lá – suplicou com a voz melosa, quase como um miado sexy.

— Eu sei, mas primeiro tenho de tratar dos papéis do divórcio e também preciso falar com a minha família. – Suspirei só de imaginar como seria o reencontro, já tinha dores de cabeça. – Quero que eles estejam lá, no dia do nosso enlace, quero que te aceitem como a minha mulher.

— Oh amor, queria ter ido contigo – voltou a ronronar baixinho. – Estou ansiosa para os conhecer, já ouvi falar tanto sobre eles, é quase como se já fizesse parte da família…

— Eu sei, amor – interrompi-a. Falar com ela agora só me deixava mais ansioso, o que não estava a ajudar em nada. – Tenho de desligar, quanto mais rápido eu for, mais rápido eu volto para ti.

— E se eu fosse ter contigo? – insistiu, ela sempre insistia com alguma coisa, chegava a ser irritante. – Eu podia ajudar-te a persuadi-los, se eles virem a tua maravilhosa escolha, a mulher ideal que eu sou para ti, eles aceitam logo. A tua mãe e as tuas irmãs podiam ajudar-me com os preparativos e…

— Júlia, querida, é melhor não, as coisas não são assim tão simples.

Cortei-a tentando terminar com aquela tortura; a Júlia era um doce de mulher, animada, divertida carinhosa… até de mais… compreensiva, mas acima de tudo atenta às minhas necessidades. O problema era a verdade, nada ia ser simples perante a realidade que criei ao fugir. Infelizmente, eu sabia que a minha mãe sempre veria a Lea como a vítima da história e ainda tinha a Sofia… A Sofia certamente vai-me matar, como posso trazer a minha futura esposa, sem saber que saio vivo desta?

— A tua presença nesta fase só ia complicar mais as coisas, por favor, compreende.

— Por causa da tua ex, não é? – perguntou, irritada.

O meu regresso a casa deixou-a bastante aborrecida, o que nos custou algumas brigas e amuos da sua parte, mesmo que o motivo fosse o divórcio. Ela ainda não entendia o porquê de eu vir pessoalmente para os entregar, quando o meu advogado podia tratar do assunto.

— Sim, por causa da minha esposa.

Ouvi-a resmungar do outro lado; a Júlia odiava quando eu me referia à Leandra como minha esposa ou pronunciasse o seu nome ou alcunha. Teve uma  vez que ela até discutiu comigo. Acusou-me de estar a fazer de propósito, para deixar claro a sua posição de amante. O que também a fazia acreditar que um dia voltaria para os braços da minha esposa e a deixaria sozinha, como uma mulher qualquer e sem valor.

— Júlia, eu já te contei o quanto a minha família é apegada a Leandra. Desde bebé que ela frequenta a minha casa, correndo pelos corredores com as minhas irmãs. A Sofia tem-na como melhor amiga, confidente e irmã gémea postiça, sem falar que a Rita a persegue desde que aprendeu a andar. As minhas irmãs veneram a Lea, quase como se ela fosse uma deusa ou algo do tipo.  Sem esquecer que a Sofia não me fala desde que… eu deixei claro que a nossa relação terminou e estava contigo. Ela nem me deixou conhecer o meu sobrinho, muito menos me contou se é menino ou menina, que idade tem, quando nasceu… Se já engravidou novamente, se a Rute terminou o curso, se tem namorado… ela não me deixa saber novidade nenhuma, nada. A Sofia filtra tudo, toda a informação, todos os contactos…

— Que odiosa – deixou escapar, como um sussurro. – Ah… Volta rápido, amor, quero aconchegar-me nos teus braços musculosos e enroscar-me contigo na nossa cama, ela fica tão vazia e fria quando não estás. Por favor, meu torrãozinho de açúcar, volta logo.

— Tudo a seu tempo, querida, a pressa não vai estar a meu favor – suspirei, cansado; ela cansava-me quando agia desta forma, como uma criança pequena e mimada. – Tenho de ir, querida, o dia vai ser longo e eu preciso de cada minuto dele, para as convencer.

— OK. Amo-te, meu bombom – falou, melosa como sempre.

— Também te amo. Beijos.

Sem esperar uma resposta desliguei a chamada e observei mais uma vez a casa onde nasceram vários planos de vida, onde vivi durante quase dois anos. Onde eu amei a mulher que eu jurei respeitar para toda a vida. A mesma onde planeávamos criar os nossos filhos, vê-los crescer, formar novas famílias, criar os nossos netos e envelhecer. Só esperava que ela estivesse feliz ao lado de outro homem, caso contrário, eu me sentiria um verdadeiro canalha.

Ainda anestesiado por um misto de sentimentos controversos, saí do carro e caminhei até à entrada. O portão foi fácil de abrir, sem que para isso precisasse captar a sua atenção. O que era bom, já que odiaria ter de conversar com ela ali, em frente dos vizinhos. Sempre há mais privacidade entre quatro paredes, isto se ela me deixar entrar.  Já em frente à porta, senti-me invadido por uma estranha nostalgia e um medo profundo. De onde ele vinha, ou porque me assombrava agora, era um mistério do qual talvez eu nunca soubesse a resposta.

Quando estava prestes a tocar à campainha, ouvi um riso que cativou a minha atenção. Ela não estava sozinha e provavelmente não era a melhor hora para aparecer e atirar a bomba para o seu colo. No entanto, aquele riso de criança parecia que me chamava. E se a Sofia estava lá com os meus sobrinhos? Provavelmente, seria crucificado. Apesar que esta seria certamente a única oportunidade que teria para conhecer o meu novo sobrinho. Rever o meu afilhado e obter finalmente notícias sobre a minha família.

Sem pensar, caminhei na direção do som, sorrateiro como um ladrão. Aproveitando cada sombra, árvore, arbusto ou esquina para me esconder, até que a vi. Uma pequena princesa com aproximadamente 3 ou 4 anos, ria enquanto brincava no escorrega, que eu um dia sonhei construir. A pequena tinha a pele morena, cabelos castanhos, que tinham sido enlaçados numa trança francesa lateral. O mesmo tipo de trança que a minha irmã adorava usar e que hoje era algum tipo de imagem de marca dela. A menina era a cara chapada da minha irmã Sofia, com a mesma idade. Havia apenas um detalhe, um pequeno pormenor que não se encaixava na imagem. Algo que não era característico da minha família, nem na família do meu cunhado, pelo menos, do pouco que me recordava dela. Realmente era algo pequeno, mas estava realmente deslocado e não fazia qualquer sentido… porque a cor dos olhos da menina eram tão parecidos aos da… na verdade, eles são igualzinhos aos da Leandra.

— Lia, tem cuidado, é perigoso correres assim! – gritava a mulher de cabelos loiros e olhos verdes, que eu logo reconheci. E como eu tinha saudades da Dona Maria, a mulher que me criou. A mesma mulher linda que deu à luz três filhos e ainda continuava jovem, radiante e magra. A minha mãe era uma mulher de meia idade, deslumbrante e íntegra, como poucas o eram hoje em dia.

— Está bem, vó -respondeu a menina, diminuindo o seu passo. A sua voz meiga e suave era música para os meus ouvidos. O que pareceu despertar algo desconhecido dentro do meu peito, um sentimento que me fazia desejar ser pai. Quem sabe logo após o casamento seria uma boa altura.

— Vó, está ali um senhor – disse apontando na minha direção, meia desconfiada, mas ainda assim linda. Aquela menina era uma verdadeira boneca, mesmo vestindo o seu macacão de ganga, com uma T-shirt cor de rosa por baixo e sapatilhas a condizer.

— Carlos? – perguntou a mulher, admirada, chamando a minha atenção. Eu não sabia o porquê, mas era extremamente difícil tirar os meus olhos daquele anjo que agora puxava a camisola da avó, na tentativa de lhe chamar a atenção.

— Quem é? – perguntou, curiosa, deixando a D. Maria com uma expressão ainda mais perdida e desorientada. Isso era novidade, porque ela está tão perdida? Não me vê há quase quatro anos e nem um abraço recebo.

— Olá, mãe… olá, anjinho – disse caminhando na direção das duas, observando o sorriso lindo da menina e o rosto desesperado da minha mãe. Ela devia estar com receio da atitude da minha irmã, quando soubesse que eu conheci a minha sobrinha. Deve ser isso com certeza, a Sofia vai odiar saber do meu regresso.

— Quem é? – perguntou novamente à avó.

 Não acredito que elas nem lhe mostraram uma foto minha. Será que arrancaram  as minhas fotos todas do nosso álbum de família?

— Olá, anjinho; o meu nome é Carlos, e o teu? – perguntei, baixando-me, para ficar da sua altura.

— Lídia, mas a mamã me chama de Lia, a madrinha que escolheu – falou toda despachada, quase como uma adulta, num português tão perfeito que me levava a duvidar da sua idade. Com certeza era uma menina  muito inteligente, o que mostrava o quanto ela era avançada para a sua idade.

— Lia, está na hora do lanche – gritou uma voz conhecida. – Depois podes brincar mais um bocadinho com a avó antes…

Vi a mulher de cabelos pretos, com pele branca e curvas generosas congelar na minha frente. Ela vestia um conjunto de roupa muito semelhante ao da menina e o seu cabelo também estava preso da mesma forma. No entanto, o dela tinha um ar desajeitado, quase como se tivesse sido feito por uma criança. Talvez a mesma que eu via na minha frente e que… tinha os mesmos olhos, o mesmo olhar, a mesma luz… perdido, vi o meu olhar alternar entre as duas, as semelhanças eram enormes. Tal como as dúvidas, que cresciam a cada instante.

— Já vou, mamã – disse a menina correndo para os seus braços.

— Mamã? – murmurei.

Seria possível? Estava a ouvir bem? A Leandra era a mãe da Lídia? Mãe e não a madrinha? A pequena não é a minha sobrinha? Ela é filha da Leandra, mas como? A Lídia é tão parecida com a Sofia, tão parecida… comigo e com a Lea. O que raio se está a passar? Quem na realidade é aquela bonequinha, em forma de gente tão… até parece que é a metade de nós dois. A princesa que chama a mulher com quem me casei de mãe e a minha mãe de avó.

Não pode ser, ela não seria capaz… na verdade até seria. Então porque a minha mãe ou qualquer outro familiar ou amigo não me contou? Porque todos me esconderam a verdade? A mesma verdade que justificava a reação das duas mulheres na minha frente. E a estranha ligação que eu senti com aquela menina, uma ligação que muda tudo. Afinal, eu agora sou pai.

“O certo no incerto” – Capítulo II

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